terça-feira, 30 de agosto de 2005

Pequenas ternuras

Gravatá, 30 de agosto de 2005.

O texto abaixo é de Paulo Mendes Campos, mas eu gostaria de ter escrito, estou aqui sem tempo para escrever, prometo minhas pequenas ternuras amanhã, a vida segue, sempre segue, vamos com nossas pequenas ternuras, iluminando a vida...
Samarone.

"Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma largatixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não agüentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porte fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: " Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira"; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente a pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o "pensamento" do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre".

Paulo Mendes Campos. "O amor acaba" - crônicas líricas e existenciais. RJ, Civilização Brasileira, 2001.

Para Zi, uma imensa ternura.

4 comentários:

Ed disse...

Neste cárcere de ternuras em que vivo, você tornou-se mais um elo dessa corrente que me ata ao âmago do sentimental... Obrigada.

Keila Aquino disse...

Samarone... que texto encantador!
Precisamos de pessoas assim, envolvidas na ternura...
Segue um texto do qual gosto muito.
Grande beijo.

NEM TUDO É FÁCIL...
É difícil fazer alguém feliz,
assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo,
assim como é fácil não dizer nada.
É difícil ser fiel,
assim como é fácil se aventurar.
É difícil valorizar um amor,
assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje,
assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom,
assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz,
assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir,
assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém,
assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão?
Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o..
É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você!?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...
(Cecília Meirelles)

Adri disse...

'Quem ao meu lado esses passos caminhou?
Esse beijo em meu rosto, quem beijou?
A mão que afaga minha mão,
esse sorriso que não vejo,
De onde vem?
Quem foi que me voltou?
Vem de outros tempos tão longe
que esqueci
a ternura que nunca mereci...
Quem foste tu, presença e pranto?
Eu nunca fui amada tanto!
Estás aqui, momento antigo,
Estás comigo'.

Quando o assunto é ternura, me lembro de Elizeth Cardoso cantando essa carícia, um negócio formidável, puxa... bom, afora o afago na lagartixa, é mermo uma beleza, visse?
Cheiro.

Sonia Sant´Anna disse...

Esta prisioneira da ternura gostou muito do texto, mas não faço festinha em lagartixa não - sou fóbica.