sábado, 20 de agosto de 2005

Poema em linha recta

Recife, 20 de agosto de 2005.

Iria escrever uma crônica curta neste sábado de sol recifense, mas o Fernando Pessoa me apareceu querendo ser lido com urgência e carinho, então refiz o percurso de sua poesia e escrevi o texto como se fosse uma confissão . Vai o “Poema em linha recta”, na forma de uma “Confissão em linha recta”, para compartilhar belezas com vocês.

***

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, indesculpavelmente sujo, eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco; eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que foi uma vez vil? Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semi-deuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.
(Poesia/Álvaro de Campos. Companhia das Letras, 2004)

5 comentários:

Sonia disse...

Belos versos, não há muito mais a dizer, há?

Anelise disse...

Samuca: vou fazer um teste pra ver se dessa vez consigo mandar meu comentário. Como você, Fernando Pessoa é unanimidade. "Para ser grande, sê inteiro, nada teu exagera ou exclui. Sê todo um cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes". Ane

Anelise disse...

Samuca: já que acertei dessa vez, vou continuar navegando na poesia. Olha esse trecho de Cântigo Negro, do poeta português José Régio:
"Vem por aqui - dizem-me alguns, com os olhos doces, seguros de que seria bom que eu os ouvisse, quando me dizem: 'vem por aqui'. Olho-os com olhos lassos (e há, nos olhos meus, ironias e cansaços). Cruzo os braços e não vou por ali..."
Bj, Ane.

Adri disse...

O poema citado por Anelise está em um cd maravilhoso, Clara Nunes e Paulo Gracindo juntos, 'Brasileiro profissão esperança', você deve conhecer. Posso emprestar, se desejar. 'Não sei pra onde vou, não sei por onde vou, sei que não vou por aí'.
Cariño.

Luciana disse...

beleza de poesia..
vocês poetas sabem mtraduzir como ninguem o que a gente sente, porisso que quis deixar meu comentario!
identifiquei-me!!
beijos e obrigada!
Luciana