quinta-feira, 24 de abril de 2008

Mudei

Pessoas que lêem este velho cronista, informo que estou em novo espaço:


http://www.estuario.com.br/


é até mais fácil de memorizar, né?

E apois.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Mudanças no Estuário

Lembro que abri o blog Estuário após uma caminhada com Iramarai, depois de sair do JC On Line.

De lá pra cá, escrevi centenas de textos, sempre no mundo das crônicas. Viagens, coisas do Recife, da vida, enfim.

Agora, vou dando um passinho a mais. Com a ajuda de meu amigo Dimas Lins, recebo de presente a página www.estuario.com.br

Amanhã, o novo espaço entra no ar, substituindo o blog.

Nos encontraremos por lá.

Samarone Lima

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Acasos, circunstâncias e cartas

Esses acasos e circunstâncias são grandes presentes da vida, e acolho como um abraço de um velho amigo, que não vejo há tempos.

Por esses dias, arrumando as muitas caixas de livros e fotografias, esbarrei em um lote imenso de papeis amarelados. Parei a arrumação, o objetivo de deixar as estantes no ponto, e fui revê-las. Foi um mergulho em mim mesmo, que durou o restante da tarde, entrou pela noite, e os livros ficaram na desordem de sempre.

Descobri que até 2002, recebi cartas com rara frequência, e sempre respondi. Como saí de casa em 1987, e desde esta época escrevia para amigos e família, tive na minha vida uns 15 anos de correspondências, com pessoas as mais diversas. São memórias pungentes, que chegavam em diversos tipos de envelopes, cores. Tê-las por perto é quase um segundo diário.

Por onde andará o velho e impagável Guilherme Salgado Rocha, meu companheiro de redação no jornal "O São Paulo", da Cúria Metropolitana de São Paulo? É um sujeito grande como um urso, feroz em suas paixões, capaz de falar duas horas initerruptas sobre o Botafogo, sua grande paixão, com lágrimas nos olhos. Olhei algumas de suas cartas, divertidíssimas, longas. Certa vez, eu estava na França, ele me mandou uma enorme carta. Metade falava do desempenho do Botafogo no Campeonato Brasileiro de 1995.

Ao final da carta, ele mando a pergunta fatal:

"Você tem dado vexame aí, meu?"

Não lembro se dei vexame, creio que sim, Luzilá é quem pode responder melhor, porque foi a santa amiga que me acolheu, ali no quinziéme.

Ah, a carta é uma preciosidade que ainda teimo em manter. Alguns poucos amigos ainda sustentam esta paixão, devorada pela febre dos email, Orkut, enfim.

Mexo os papéis, encontro uma carta de Betânia Santana, minha adorável amiga dos bons tempos do Diário de Pernambuco, entre 1992 e 1994. Quando me mandei para Sampa, ela mandou algumas cartas que estava quietinhas, adormecidas.

Vejo uma de 29 de junho de 1994. É uma preciosidade. Está escrita a máquina mesmo, de datilografia, no papel timbrado do Diário, onde escrevíamos as matérias. É a famosa "lauda" jornalística, com 20 linhas contadas. Meu Deus, quantas matérias escrevi, utilizando aquelas folhas amarronzadas! Na época, a Luiza, filha da Andréia, fez um ano. Uma frase me chamou atenção: "O inesquecível não precisa ser muito longo".

Ao final da carta, um PS:

"Carta feita ás vésperas do Dia dos Namorados, durante plantão no Diário, ouvindo Altemar Dutra, no gravador de Zé Maria, que manda um grande abraço".

Então, lembro imediatamente do velho e bom Zé Maria Garcia, com sua eterna cabeça branca, os dedos amarelados de cigarro, que me apresentou ao mundo boêmio da Cristal, o ponto de encontro dos malandros do Diário e do Jornal do Commercio.

No amontoado das cartas, há coisas engraçadas. Enconteri uma carta que escrevi para Marquinhos e Stella, duas adoráveis criaturas, que moravam na Holanda. Separei duas longar reportagens publicadas no Jornal do Brasil, em fevereiro de 1999. Numa delas, o tradutor Pedro Sussekind falava da nova tradução do Hans Staden, o relato do soldado alemão que percorreu a costa brasileira, entre 1548 e 1555. "O Brasil de Staden foi inspiração para o movimento modernista e até hoje não recebe a devida atenção nos curriculos escolares", diz o texto.

Ontem mesmo, arrependido por não ter mandado a carta, fui à agência do Cabo e postei a carta, com um bilhetinho. Foi mal, amigos, desculpem o atraso de quase dez anos para mandar a cartinha. Ando meio lento ultimamente.

Tenho um bom lote de cartas do Gustavo, meu dileto amigo. Por elas, dá para ver a sustentação perpétua da verdadeira amizade. Quando ele estava ruim das pernas, minhas poucas linhas ajudavam em algo. Muitas vezes, recebi um "força, irmão", que ajudou muito, sempre utilizando a "Carta Social", que custa 1 centavo (R$ 0,01).

Leio, em janeiro de 2001, um informe importante:

"Acabo de comprar a trinta contos esta Olivetti semi nova, com ela tentarei pelo menos ser mais claro, já que aquela minha letra miúda fazia-te mais cego".

Um trecho certamente me deu alguma esperança a mais, naquele 2001 tão cheio de coisas boas e ruins:

"Tenho pensado bastante no que temos feito para modificar este mundo. Novamente me vem a mesma resposta: existirmos do jeito que existimos. Pacíficos, amorosos, abismos".

Há uma carta da Camila Vinhas, amiga e vizinha em São Paulo. A carta foi entregue pessoalmente, sem os serviços dos Correios. Nunca mais reencontrei Camila, e espero que ela tenha mergulhado de vez no mundo da dança, deixando o jornalismo para segundo plano. Precisamos mais de artistas que de jornalistas.

Ah, termino por aqui. Comecei a tomar notas, reler coisas, e fui vendo filmes de minha vida. Poderia escrever muitos textos sobre este tesouro que tenho comigo comigo. Melhor mesmo ir lendo aos poucos, me deliciando, relembrando.

Cartas, para mim, representam um pequeno pedaço da humanidade que deixa a pressa de lado, busca um papel, uma caneta, uma máquina de datilografia, e escreve. É como uma meditação para um amigo, para alguém que se quer bem. Uma pequena oração.

Nada mais amoroso do que chegar em casa, e ver uma cartinha por debaixo da porta.

Lembra um bom abraço. Um abraço de rodoviária, às vésperas da chegada de uma pessoa que vem de muito longe, ou na hora fatal do embarque.

Nessa hora, nossos braços ficam imensos e acolhedores.

Para Betânia Santana, com saudades.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A mãe da estrelinha

Acompanho à distância este massacre midiático por conta de menina que morreu. Não tenho muito o que dizer. É um crime terrível, uma dor que não posso sequer imaginar, a da mãe.
Me chegou por email um texto delicadamente belo, de Fábio Lucas. Não o conheço, mas ele autorizou a publicação neste blog. Compartilho com meus leitores.
Por hoje, fiquemos com a ternura da mãe da menina que morreu.
A ternura, creio, ainda salva a humanidade.
Abraços,
Samarone
***
A Mãe da estrelinha
Fábio Lucas

"As tragédias familiares raramente provocam comoções coletivas. A comoção depende de quanto se propaga a onda trágica original, mas nem mesmo a mídia sabe como e por que um caso merece maior atenção que outro. A emotividade do público que vê a notícia repetida diariamente não é diferente da emoção sentida pelas famílias atingidas - o que varia é o grau com que o choque provocado pela mudança abrupta de realidade se dá.

Para os espectadores de uma barbaridade dissecada pela sociedade do espetáculo, trata-se de um abalo a distância - o que não diminui o caráter do abalo, embora eleve a noção comum de espetáculo, e portanto de algo que logo será consumido pela voracidade do olhar coletivo.

Seja qual for a escala social em que é transmitida a dor aguda da perda, e em que se atravessa o calvário do luto, sempre é surpreendente descobrir a força das pessoas mais próximas, quando o natural seria a rendição à fraqueza e ao esgotamento. Pois a perturbação que chega ao imaginário dos outros não é sequer comparável à ruína existencial dos que choram aquela perda dentro de si.

Ana Carolina Oliveira, mãe da menininha Isabella, em poucos dias de exposição na vitrine da emoção ampliada, conseguiu conquistar milhões de brasileiros pela serenidade diante da própria ruína. Como se a solidariedade gigantesca que recebeu - somente pela internet, centenas de milhares de mensagens - fosse robustecida ao seu encontro, proporcionando a formação de uma fantástica corrente de sentimento compartilhado.

Na energia impressionante de um sorriso que por todos os motivos não deveria estar ali, a voz macia de palavras de conforto para quem chorava com ela sem duvidar que a reconfortada devesse ser ela, e não o contrário, a lágrima da mãe fluía por olhos alheios, e o grito desesperado irrompia por outras gargantas.

A mãe de Isabella foi protagonista de gestos de lucidez absurda na condução do caos que sucedeu a tragédia, no meio da cacofonia vigente se ela estava ausente. Em nenhum momento apontou culpados, apesar de pedir justiça. O clamor popular que chegou às raias de incitar o linchamento dos suspeitos esbarrou em sua figura exemplarmente contida.

Em suas aparições, cada vez mais solicitadas, Ana Carolina Oliveira foi responsável pelo impacto de uma ternura de fonte improvável sobre olhos estupefatos e embrutecidos. Sem saber, sem desejar, derramava esperança sobre o mundo que não teria como retribuir aquilo que seria antes mais justo o mundo lhe dar. E o mundo pareceu mais digno por aquele deslocado merecimento.

A placidez estarrecedora, a extraordinária dedicação ao presente - como se não fosse um fardo permanecer, quase milagroso sorrir depois, como se o pior não estivesse sempre por vir - faz de pessoas como essa mãe, e tantas outras mães, pais, irmãos, esposos e esposas subitamente amputados em seu ser, verdadeiros segredos indevassáveis sobre a misteriosa graça de viver.

Graça que não se abate sequer diante do fato raso da morte, da mais odiosa e precoce subtração da vida. Para os coleguinhas de colégio, Isabella virou uma estrelinha. Para todos que se comoveram com a sua tragédia, que a luz da mãe da estrelinha não esmoreça, e possa seguir, apesar de tudo, na trilha de novos caminhos".

*Jornalista e mestre em filosofia.
fabiolucas@uol.com.br


sexta-feira, 11 de abril de 2008

Capito?

Sigo meu périplo em Salvador. Estamos bem longe de casa (eu e meu compadre Gustavo), quando ele resolve pegar um táxi, idéia que me deixa deveras preocupado, em cidades que desconheço a geografia e manhas.

Um camarada de cara boa nos recebe. Lá pelas tantas, Gustavo pergunta se ele, o taxista, sabe de uma casa para 15 pessoas, para passar uma semana em Salvador, nos idos de maio.

A simples pergunta tira nosso piloto do eixo. Ele pega o celular, liga para alguem, esquecendo completamente de que está no caótico trânsito da capital. O cara do outro lado antende, nosso amigo dá um berro:

"Liga pra mim, que estou sem crédito!"

Segundos depois, liga alguém. É seu amigo Paolo, dono de uma pousada em Salvador. Sinais vermelhos, velhinhas atravessando as ruas, faixas de pedestre são esquecidos. Antes que alguém morra, o telefone é passado para Gustavo, que acerta inicialmente algo por R$ 30,00. Adolfo, o taxista, diz que a pousada é maravilhosa, dá para ver a Baia de Todos os Santos, essas coisas.

Daqui a pouco, o telefone de Adolfo toca. Estou com dupla sorte. Gustavo vai pagar o táxi, e o taxista é o personagem do dia.

"Capito!", diz, falando bem alto.

Silêncio.

"Va bene. Espeto tu lá no aeroporto".

Silêncio.

"Capito! Ma tu número es confidencial, capito?"

Silêncio.

"Capito. Mañana espeto tu lá no aeroporto, a las três de la tarde".

Depois de mais uns três capito, barbeiragens de todo tipo. Adolfo desliga o telefone.

"Esse italiano está é bêbado. É a terceira vez que me liga".

"E tu aprendesse a falar italiano fluente onde?", pergunto.

"Por ai, levando a turistada. Aqui em Salvador, o que não falta é italiano. Também pudera. Tem sol, comida é farta, mulher bonita, todo dia tem festa..."

Faço a pergunta básica de qualquer aproximação entre homens do planeta.

"O amigo torce por qual time?"

"Pelo Bahêa, claro", responde, estufando peito.

O time dele enfrenta os mesmos problemas existenciais que o meu. Uma série de gestões desastradas, que levaram os respectivos times ao fundo do poço. A diferença é que aqui, o presidente é o mesmo, há muitos anos.

"E aqueles desgraçados que estavam na diretoria, já saíram?"

"É difícil, mas aquele Paulo Maracajá um dia morre. O ACM não morreu? Um dia ele morre, e o time volta a ser da torcida."

Súbito, uma mulher faz uma puta barbeirada.

"Parece que é sergipana!", esbraveja nosso taxista.

Ele olha para os lados e pergunta se algum de nós é sergipano.

"Sou de Aracaju, amigo, mas não tem problema. Lá, quando alguém faz uma merda no trânsito, dizemos que a pessoa fez uma baianada".

Nós damos umas boas gargalhadas.

"Não fumei nada hoje", diz Gustavo, se referindo ao seu inconfundível cachimbo.

O taxista pega o mote e emenda, de primeira.

"Olhe, tenho um fininho aqui, um fininho de presídio, mas dá para o gasto".

Puxa um baseado de algum lugar secreto.

"Faz parte do pacote?", pergunto.

"Não, não", responde agoniado, temendo perder metade do baseado com aquelas duas figuras esquisitas.

"Ainda bem que vocês me lembraram. Vou fumar esse daqui a pouco, antes de pegar um cliente chato pra caralho".

Estamos chegando ao nosso destino.

"O cara é muito chato, e para suportar aquele chatice, só fumando um baseado".

Descemos, Gustavo paga a conta e vamos caminhando, para tomar uma cerveja na Ondina, ou Pituba, ou Rio Vermelho.

A vida segue.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Resolvendo os problemas do mundo

Após intensas e profundas discussões, na noite de Salvador, eu e meu dileto amigo Gustavo de Castro e Silva conseguimos fechar uma série de pendências sobre o globo terrestre. Não foi fácil, mas resolvemos vários problemas da humanidade, e nos próximos dias tomaremos as medidas cabíveis. Governos e populações serão avisadas de nossas resoluções. Vamos a algumas.

A questão da China contra o Tibete

Consideramos que a China perdeu a noção das coisas, ao massacrar nossos amigos do Tibete. Aqui em Salvador, fomos para uma sessão de Acupuntura com o senhor Ma To Shi, que é exilado do Tibete, mas demos com os burros n´água. Ele, no domingo, viajou para seu pequeno torrão natal, possivelmente para lutar contra o exército Chinês. Roberto Mato Chi nos atendeu, botou as agulhas, explicou algumas coisas, mas faltou aquele relato em primeira pessoa, aquela fleuma. Ma To Shi vai ficar um mês fora, então perdemos o que se chama "tempo histórico".

Saímos para um café, acompanhado de charutos baianos, e discutimos apaixonadamente sobre a importância de apagar a tocha olímpica, a cada vilarejo percorrido. Compramos extintores de incêndio aqui na 7 de Setembro e contratamos um amigo colombiano, que vai fazer a "Trilha da Tocha", com o patrocínio da Kichute. Nossa idéia é levantar a famosa marca de sapatos, que acompanhou os pés de milhares de brasileiros. Na fase final, passaremos ao poético "Caminhos do Conga". A Kichute vai nos dar um retorno até sexta-feira. Perdemos o contato com a Conga Ltda. Agradeço quem puder me ajudar.

Mal tomamos nossa decisão, e hoje cedo fomos informados que os franceses conseguiram empulhar os chinas, mandando a tocha se recolher. Desconfiamos que vazou informação.

O problema dos palestinos com os israelenses

Cada vez que assistimos aquelas maldades dos israelenses com os palestinos, vamos às lágrimas. Sobre este assunto, nós decidimos que é preciso chamar um país mais simpático para aproximar os dois povos, sem passar pela Casa Branca. Pensamos no Brasil, mas ocorreu algo mais específico. Um encontro em Juazeiro do Norte, à beira da estátua do Padre Cícero.

Lá, acompanhados por Seu Vital, seria selado o acordo final de respeito mútuo, devolução de territórios confiscados, promessas de não haver mais retaliações de lado nenhum. O Lula não poderia participar, porque ele iria querer lançar um "PAC do Oriente Médio", e diriam que ele está em campanha para outro mandato.

A questão das Farc e os sequestros

Escrevemos há pouco a versão da final de uma carta que estamos endereçando às FARC e ao governo colombiano, assinada a duas mãos. Nunca entendi aquele negócio de "escrita a quatro mãos", se só escrevo com uma delas, a mão direita. Haverá um acordo, que será assinado no mercado da Madalena, sem ranços ou rancores.

Os dois lados vão fazer um balanço sincero, e admitir que do jeito que está, as coisas vão ficar sempre piores. Depois disso, ex-guerrilheiros e governo serão convidados a passar o próximo Carnaval no Recife e Olinda, com direito a um camarote.

A questão da dengue no Rio de Janeiro

Estamos afobadíssimos com a questão da Dengue no Rio de Janeiro, e tememos que os mosquitos comecem a pegar o beco rumo a Pernambuco e Brasilia, onde vivo e vive meu amigo, respectivamente.

Decidimos que é fundamental iniciar a distribuição imediata de milhares de mosqueteiros para a população, sob o patrocínio das Casas Bahia. Não sabemos bem o motivo das Casas Bahia, mas parece que é uma empresa que ganha muito dinheiro.

Também pensamos em criar um "Disque Mosquito", onde a pessoa ligaria para um telefone, informando o lugar que tem larvas do mosquito. Seu nome seria cadastrado, e ele participaria de um sorteio para participar do Big Brother 2009. Caso sua denúncia seja inútil, será obrigado a passar todo o Big Brother acompanhando o Pedro Bial, em sua casa, e anotar todos os comentários geniais sobre o perfil de cada concorrente.

O problema do Santa Cruz

Botei na pauta a situação do meu amado clube, que anda numa de amargar, mas Gustavo considerou que era um problema que ultrapassava nossas condições, e concordei plenamente.

Demos por lavrada a ata e encerramos nosso colóquio. À noite, na Ondina ou na Pituba, discutiremos questões mais locais. Aceitamos sugestões.

domingo, 6 de abril de 2008

Na estrada

Já estou em Salvador, para participar do projeto Lanterninha, uma bela iniciativa envolvendo alunos da escola pública.

A cada viagem, descubro que sou feito de estradas. Me recomponho, me reorganizo, me refaço mesmo é andando pelo mundo. Sou apaixonado pelo processo todo. Chegar à rodoviária, embarcar, ver a cadeira, quem vai ao meu lado. Desta vez, viajei ao lado de um jovem inglês, que não falava português e usava fones de ouvido.

Viajo bem menos de avião, acho as aeromoças muito chatinhas e as cadeiras mais apertadas, além de ser muito longe do chão, o lugar da viagem. Não fosse a criminosa destruição de nossa malha de trens, viveria entre uma estação e outra, com o focinho do lado de fora, sentindo os cheiros do mundo. Chamava-se "Sonho Azul" o trem que fazia a linha Crato-Fortaleza, a viagem mais linda do globo terrestre. Já fiz grandes e inesquecíveis viagens a pé, com meu amigo Iramarai.

Não sei quantos mil quilômetros percorri, cidades que conheci, e nem importa, porque não quero ser do Guiness. Lembro que uma época, em São Paulo, eu chegava ao terminal do Tietê, e escolhia uma cidade, aleatoriamente. Viajava, passava o sábado e domingo, e voltava na segunda. Lembro de viagens maravilhosas por chapadas, com meu amigo de sempre, o Gustavo.

Há pouco tempo, descobri que esta vocação está no sangue, no meu mais remoto. Meu avô fazia o mesmo, era um andarilho por natureza. Morreu no Rio de Janeiro, aos 51 anos, de forma misteriosa.

Meu pai todo ano saía de Imperatriz, no Maranhão, rumo ao nosso torrão natal, o Crato. A viagem no raçudo Fusca era minha alegria anual. Não importava muito chegar, o que eu queria mesmo era ir. Agradeço muito a ele por ter me iniciado nesta aventura de descobrir o Brasil, em suas entranhas.

Outro dia, um amigo falou sobre coisas da felicidade, e como as pessoas querem obcecadamente o final feliz, deixando o caminho de lado, que é onde tudo acontece, inclusive a felicidade.

Com as viagens, aprendo a ir, aberto para as surpresas, impasses, os incômodos. Sei que seria muitíssimo mais triste, se não pudesse ter viajado desde a infância. Viajar me salva.

Fernando Pessoa sugere que nossas dores, sofrimentos, tristezas, sejam tratadas como "incômodos de viagem".

Eu concordo sempre com os poetas, mas não sugiro nada. Só viajo, olho, vivo e escrevo. É minha oração em movimento.

Salvador, domingo de uma chuvinha besta.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Lembranças de um estudante mediano

Só estudei bem, que eu me lembre, da 5a à 8a série. O resto foi inútil, apenas ocupei a cadeira da sala, porque não lembro de nada interessante. Na 5a e na 8a, fui reprovado em Matemática, e só prossegui a vida de estudante, porque inventaram uma coisa maravilhosa, a dependência, que você pagava no ano seguinte. Mas psicologicamente, é muito ruim a palavra dependente. Até hoje, não sei como se calcula a raiz quadrada, nem a função existencial do cateto da hipotenusa.

Apesar de muito curioso, não sei para que os turcos tomaram Constantinopla (lembro somente da frase). Arranco lágrimas de sangue, para entender o que significa objeto direto e indireto, fora os adjuntos adnominais, pronome oblíquo e outras regras. Oblíquo, na minha modesta concepção, é torto e vesgo mesmo, como Jorge Bandeira, meu dileto amigo, quando está muito mamado. Mas há gente oblíqua mesmo sem beber.

Meu ano de ouro mesmo foi a oitava série, no 7 de Setembro, em Fortaleza. A diretora entregava pessoalmente o boletim para quem tirasse todas as notas acima de 7. Os vencedores, famosos CDF, eram chamados nominalmente, se dirigiam ao púlpito, e recebiam o boletim daquela senhora velha, séria e rigorosa. Uma salva de palmas era o grande momento do mês, um troço acessível somente a quem vivia em cima dos livros, sem tempo para jogar pelada e futebol de botão com o irmão.

Um mês, fiz um esforço fenomenal, tire a lasca do cateto, acertei as artimanhas da Física, decorei pedaços inúteis da tabela periódica, descobri algum adjunto adnominal, e consegui passar pela sabatina. A menor nota foi 7,3.

Quando a diretora chamou meu nome, houve um levante na turma, porque sempre fiz parte da malandragem. A diretora levou um susto, o marcapasso deve ter descontrolado, ela me estendeu a mão e virei o assunto do dia. Em casa, meu pai não deu muita bola, aquela conversa inútil de que o cara não fez mais que a obrigação, que é uma ducha de água fria.

Só descobri que tinha alguma inteligência mesmo num dia dramático da turma, quando a Dona Socorro anunciou a arguição oral. Iria dar um complemento da aula anterior, e no final, chamaria as vítimas para o matadouro das perguntas ao vivo, na frente de toda a turma. Neste momento, quem era sabido gemia, e quem era tímido queria tomar doses cavalares de chumbinho, o meu caso. Nunca encontrei chumbinho lá em casa.

Ela explicou toda aquela coisa dos holandeses, as malandragens do Brasil-Colônia, e todos já estávamos tremendo, olhando para o relógio, que praticamente tinha congelado.

Lá pelas tantas, Dona Socorro nos olhou com aquela frieza e perguntou:

"Alguma pergunta, meninos?"

Eram 50 criaturas sem conseguir respirar, salvo algum CDF que sabia falar até holandês, se fosse o caso. Neste momento, algum espírito superior me soprou algo no ouvido direito, e criei a coragem para levantar este meu imenso braço, que certamente tremia como um bambu.

Perguntei o motivo de os holandeses não se importarem tanto com o Pau-Brasil, se aquilo era uma obsessão de Portugal. Não, eu não usei a palavra "obsessão" na época, porque tinha pouca leitura e era meio fracote das idéias. Mas fica assim mesmo, que a frase fica ótima, e também faz tempo pacas.

Dona Socorro disse que a pergunta era muito boa, e teve que ir ao Parque da Jaqueira, passar pelo Poço da Panela, chegar ao Marco Zero, e parar no Palácio do Campo das Princesas, onde estava a resposta. Isso tudo a pé. Teve que falar dos holandeses, dos portugas, e de nós, num labirinto de povos e fatos que nos deixou tontos.

Pouco importava o Pau-Brasil e aquela esculhambação do período em que fomos impiedosamente saqueados, o negócio era demorar muito. Cada frase a mais, dez segundos longe da arguição.

A resposta foi mais longa que a batalha do Peloponeso (outra que nunca entendi direito). Quando ela terminou, já com a garganta seca, a sineta do recreio tocou, ela passou a arguição para a aula seguinte, na semana seguinte. Foi como um chute de fora da área, na gaveta, aos 49 do segundo tempo, o gol do título. Ganhei abraços, parabéns, mas nem com isso, consegui abrir espaço no coração da Siu-Lan, a japonesinha mais linda que a humanidade conheceu.

Mas fiquei muito bem com a turma, surgiram novos amigos, e me disseram até que eu era inteligente. Algumas vezes, cheguei a acreditar, mas a realidade costuma me dar respostas mais contundentes.

Lembro que meu número era o 45, e o da Samara era 44.

No ano seguinte, mudei para o Rui Barbosa, que nem mais existe. Terminei o 2o grau às duras penas, sofrendo com Física, Química, Biologia, Matemática, os genes x e y, as ervilhas de um camarada que não lembro o nome. O que me salvou a vida foi mesmo ter encontrado um professor maravilhoso de Português e outro de Redação, fora a pequena biblioteca lá de casa.

Comecei com "Papillon, o homem que fugiu do inferno", e nunca mais larguei. Depois, esbarrei nos poetas, e um dia meu pai me levou na casa de José de Alencar. Achei o máximo conhecer a casa de um escritor. Lembro que ele comprou Iracema e mais uns três livros do José, mas não sei se li, porque nunca gostei muito do meu conterrâneo.

Aos 39, continuo sem saber o motivo da tomada de Constantinopla pelos turcos. Se tiver algum especialista em turcologia, entre meus diletos leitores, agradeço.

O tempo passa, mas oblíquo, em minha prosopopéia, continua sendo torto e vesgo.


Para o Halley, Titu, Geovânia, Sérgio, Sâmia, Samara, Siu-Lan e toda a turma do 7 de Setembro

segunda-feira, 31 de março de 2008

Coisa série, gente séria e outras besteiras

Ando com uma certa dificuldade existencial - escrever sobre coisas sérias. Sei lá, deve ser o envelhecimento precoce. Aliás, a figura do "sério" sempre me pareceu desagradável. Nas campanhas eleitorais, basta eu ver um santinho com a foto de um candidato, com a frase "Seriedade e Competência", que tenho apenas uma certeza - jamais votarei nele. Quem disse que a competência não pode vir com a alegria?

"Fulano é uma pessoa séria" não acrescenta nada à biografia de ninguém. Cada vez mais, gosto de gente besta, sem muito futuro, sem grandes pretensões. Geralmente, essas pessoas vão mudando o mundo a partir de coisas menores, pequenas.

Meus companheiros de trabalho, atualmente, fazem parte desta espécie em extinção. Aquele tipo de gente que dá bom dia até para as plantas, e se preocupa não somente com os parentes, mas com a humanidade inteira.

Naná é um gordinho de 120 quilos (ele diz que são 110, mas é mentira) que só anda pelo mundo buscando o lado bom das coisas e pessoas. Um sujeito pode ter 25 defeitos, e só uma qualidade. Naná vai louvar, comentar, ressaltar, somente a a qualidade. Todo dia, às 7h, está com sua Kombi defronte à Igreja do Poço da Panela, levando a criançada para a escola. Faz isso sozinho, sem cobrar nada, há mais de cinco anos.

Iramarai, meu companheiro de caminhadas, é marceneiro. Quando tem tempo, faz esculturas, que são belas e raras. Usa madeira velha, que vai encontrando pelo caminho. É um homem que olha para o lixo de outra forma. Onde vêem sujeira e feiúra, ele vê poesia. De vez em quando, sai daqui da sala, vai lá fora, enrola seu fumo "Saci", comprado em alguma feira do Sertão de Pernammbuco, e fica lá, bestamente, pensando em algo bom.

Ninguém sabe quem é André Santos Feitosa aqui no meu trabalho, mas é só dizer "Boy", que todos conhecem. Não lembro de ter encontrado o Boy reclamando da vida, salvo em caso de derrotas do nosso Santa Cruz - que têm sido cada vez mais constantes. Basta você contar algum problema para Boy, que ele sai para dar uma volta, junta fios com material encalhado, faz planos mirabolantes, define estratégias silenciosas, e resolve o problema em dois movimentos. Se morasse nos Estados Unidos, estaria na NASA ou na Microsoft. Por sorte, está aqui mesmo, com aquele sorrisinho manso.

Nossa turma adora inventar coisas para quebrar a seriedade. Celebramos outro dia o aniversário de seu João, todo mundo veio cantar parabéns, e até ele desfazer nossa invenção, ganhou muitos abraços e sorrisos.

Um dia, eu estava no intervalo da escola, recebi um recado. Era sobre a morte do meu amigo Iramarai, que tinha sido atropelado. Fui para o banheiro, choraminguei um bocado, lembrei do meu amigão, e fui dar o restante das aulas. Meus alunos notaram logo e perguntaram o que eu tinha. Disfarcei bem.

Na hora do almoço, liguei para Naná, que tinha dado a notícia. Liguei todo triste, querendo saber o horário do enterro etc.

"Que enterro? O cara tá bonzinho", respondeu Naná, dando boas gargalhadas.

"Nossa, que brincadeira de mau gosto", comentou a secretária da escola.

Era apenas mais um dos muitos trotes que já recebi dessa turma, e caí de besta.

Vou ficando por aqui. Tentarei encontrar um assunto mais sério para a próxima crônica. Efeito Estufa, Camada de Ozônio, Protocolo de Kyoto, essas coisas.

Sei lá, mas é tudo tão grande. Queria encontrar um dia um homem sério desses, que sabe falar sobre os desastres do planeta, e que levasse crianças de seu bairro para a escola.

Os sérios levam seriamente os próprios filhos para a escola, e discutem seriamente as coisas. Nunca se lembram de comemorar um aniversário fora da data. Jamais dão um trote por telefone. Nunca se lembram de levar um lanche para compartilhar com os amigos do trabalho. Não ligam para jardins, flores, estão sempre apressados.

Prefiro os meus bestões mesmo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Onde estão os poetas?

Não sei o que há, mas tenho sentido falta dos poetas na cidade. Mais que poetas, falta poesia no Recife. Fala-se muito de violência, e me falta um olhar menos traumático, menos guerreiro. Todos querem saber das notícias do sangue. Não é por acaso que o íconoe midiático seja uma figura tosca poeticamente, chamada Cardinot, tão feliz com a prisão dos jovens com seus baseados.

Lembro que há alguns anos, vindo de São Paulo para um Carnaval, peguei um ônibus e esbarrei em um poema do Carlos Pena Filho, o "Soneto do Desmantelo Azul". Perdi umas duas paradas, mas copiei o poema todo, e é o único que sei decorado.

"Então, pintei de azul os meus sapatos/Por não poder de azul pintar as ruas"

É só o começo.

Ando cada vez mais desinformado, e não sei onde andam os recitais do Recife. Sei que o queridíssimo Miró circula pelos mercados, com sua última pérola, "Onde andará a Norma?"- , mas faz tempo que não esbarro em seus gestos alucinados, recitando poemas que falam das paradas de ônibus, e de uma mulher que ficou toda molhada quando o homem da água mineral passou carregando um garrafão de 20 litros.

O nome do poema? H2love.

Sinto falta dos poemas nos muros das escolas.

Raramente vejo alguém dentro de um ônibus, lendo um Manuel Bandeira, um Mário Quintana, um T.S.Eliot.

Ando sentindo falta de sarau, de encontros de amigos não somente para falar sobre os caminhos e descaminhos da vida, as glórias e desastres do futebol, avanços e recuos da economia. Os jornais só falam de mortes e desvios.

Ah, nada como uma boa conversa sobre os descaminhos de Walt Whitman ("Pois o culto verdadeiro também não precisa de palavras nem de se ajoelhar"), as glórias e desastres de uma Silvia Plath, aquela mansidão perpétua do Mário Quintana.

Neste Recife cheio de injustiças, e nesta noitinha sem eira bem beira, já a caminho de casa, me ocorre uma pequena folha de relva para completar estas poucas palavras:

"A justiça não é aquela feita por legisladores e leis, ela está na alma".

Dêem notícias, poetas. Quero um encontro desmarcado com a próxima alegria.

quarta-feira, 26 de março de 2008

As ciladas da Internet: www.hi5.com

Escrevo para pedir desculpas a muitas pessoas que acabaram, como eu, cadastradas involuntariamente no site de relacionamentos www.hi5.com

Recebi um email de um professor de literatura, um mestre e grande amigo, julguei que era algo simples, uma rede de contatos dele, e acabei me cadastrando nesta rede. Fiz a besteira de mandar uma foto.

Quando fui ver, é um site de relacionamentos. Tentei, durante várias horas, retirar meu nome, minha foto, não consegui.

Pior: pessoas começaram a receber email com meu endereço, com meu convite para que elas também participassem. Muitos amigos caíram nessa.

Uso a Internet para ver a mídia alternativa do mundo, os blogs bacanas, postar minhas coisas e mandar mensagens pessoais para os amigos. Detesto Orkut, e apesar de ter um blog de crônicas, algumas bem pessoais, meu temperamento é mais para o sossego, para encontros com poucos, do que para multidões.

Dois amigos estão tentando tirar meu nome desta droga de Hi5. Se alguém receber o convite, aviso logo - só entre se achar bacana esse negócio de site de relacionamentos.

Maldito Hi5. Até o nome é brega. Se eu encontrar um advogado bacana, vou processar esses caras, que botam você para dentro, e não deixam sair. Por precaução, não vou acessar de jeito nenhum.

Ano que vem, vou tirar um ano sabático: um ano sem Internet.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Ao próximo prefeito



Biblioteca numa rua de Tóquio. Penso numa dessas no Córrego do Jenipapo
(Foto de Carlos Vaz Marquez, pescado no blog www.sintaaez.blogspot.com)

Ontem tive a primeira reunião de base para discutir propostas e planejamentos para a próxima campanha à Prefeitura da Cidade do Recife. Não sei como isso funciona em outras cidades, mas aqui o povo é meio avexado.

Na quarta-feira, no bar de Seu Vital, teremos outra reunião, para detalhar o planejamento, para depois conversar com nosso candidato, o Luciano. Diga-se de passagem: o povo aqui adora reunião.

O tema surgiu no meio do aniversário do meu comparsa de caminhadas, Iramarai, e a discussão pegou fogo. Súbito, todos começamos a sonhar com uma cidade melhor, mais humana, menos violenta, mais bonita.

Eu quero muitas coisas do próximo prefeito, mas lutarei, com as forças possíveis, para que ele se preocupe com bibliotecas, leitores e livros. Quase ninguém fala, há formas mais inteligentes de se vencer a violência.

Que a cidade ganhe de presente lindas bibliotecas, nos bairros mais pobres. Não falo dessas bibliotecas da escola, que funcionam dependendo do temperamento da responsável, muitas vezes com bons livros, mas sem leitores. Falo de bibliotecas lindas, bonitas, amplas, bem iluminadas. Bibliotecas com cadeiras confortáveis, silenciosas. Um lugar que dê vontade de ir, ficar, nem que seja para se envolver com o silêncio, a quietude, a paz.

Um mar de livros. Todos aqueles autores que ajudam a mudar conceitos, a percorrer labirintos, a descobrir mundos.

Penso não num Parque Dona Lindu, que é a grande obra do fim da atual gestão, que vai custar uns 40 milhões, sei lá, um negócio que vai custar milhões, mas não tem uma biblioteca dentro.

Imagino bibliotecas lindas no Coque, na Favela do Detran, Chão de Estrelas, Linha do Tiro, Alto do Pascoal. Lugares que abriguem nossos jovens, para que tenham um refúgio, milhares de amigos em páginas cheias de letras, para desvendar outros caminhos.

Do próximo prefeito, espero uma gestão que gaste menos com o Carnaval, que traga menos artistas consagrados, e que cuide mais de prateleiras, estantes, que contrate pessoas que amem os livros, para tomar conta, orientar, ler, compartilhar belezas.

Na metade do seu mandato, gostaria de escutar um jovem falando com outro:

"Nos encontramos lá na Biblioteca do Coque, no setor de literatura brasileira".

Ou:

"Tás sabendo que hoje tem uma palestra sobre poesia no Alto do Pascoal?"

Ah, como queria uma nova geração de leitores, de apaixonados por livros. Como sonho em passar a roleta do ônibus e esbarrar com várias pessoas lendo poesias, crônicas, romances.

Quando penso nesses jovens, lembro dos meus alunos, todos na faixa dos 17 aos 19 anos, que descobriram Fernando Pessoa, Clarice Lispector, que se encantaram com o Renato Carneiro Campos. Posso ver Suco, Gabriela, Ana Cecília, Danúbia, Herivelton, Windoson, Manuela, tantos outros, que descobriram este mundo encantado, e nunca mais conseguiram sair dele. Ah, como sinto que eles estão protegidos, com o Fernando Pessoa na algibeira, com a Clarice a encantar os sonhos dentro da bolsa...

Nunca consegui fazer com que minhas propostas entrem nos programas de governo. São sempre fora de moda, não contribuem muito, não dão votos. Minhas preocupações são outras.

Modestamente, lutarei para que livros e bibliotecas façam parte do programa de governo do próximo prefeito do Recife. Sonho com uma geração de novos leitores, de apaixonados por histórias, que trocarão, sem perceber, as armas pelas páginas.

Sonho com uma cidade repleta de poetas, cronistas, romancistas, ou pessoas mais sensíveis às belezas do mundo. Nossos jornais poderão noticiar um recital com 300 poetas, ao invés de mais 32 homicídios no feriadão.

Começo a juntar meu pequeno e brancaleônico exército para mais uma batalha.

Invoco o meu querido Leminski para animar meus camaradas:

"Distraídos venceremos".

Para meus ex-maravilhosos alunos da Oficina da Palavra

terça-feira, 18 de março de 2008

Louvação de março: A Paixão de Eli

Com fotos de Antonio Braga, do Escola Aberta

Depois de tantas viagens, nada como Hermilo Borba Filho para encontrar um bom mote para escrever.

“Começo o ano tomando várias providências. Uma delas é louvar, todo mês, aqui nesta coluna, amigo ou conhecido que mereça ser louvado. Nada de esperar sua morte, louvá-lo mesmo em vida; nada de necrológio, mas de reconhecimento público de seu valor; nada de louvor somente porque o cujo morreu mas elogio de corpo presente, corpo vivo e bolinando, que elogio faz bem à alma e à saúde quando quem recebe o elogio merece”.
(Diário de Pernambuco, 3 de janeiro de 1974)


Sim, mas quem eu louvaria, em março de 2008?

Fiquei catando aqui, e como já falo muito de meus amigos, das pessoas que quero bem, acho que louvaria algumas pessoas do Recife, que se espalham por aí, e ajudam a cidade a ficar mais bonita. Vou a uma paixão antiga – os anônimos.

Começaria por esses anônimos abnegados que fazem a Paixão de Cristo dos subúrbios, escolas, igrejinha simples. Hoje, recebi convites para ver a Paixão, em Nova Jerusalém, mas não senti uma nesga de vontade de sair para aquela superprodução, ver o Cristo, Maria e outros personagens, olhando para a cara dos atores globais.

Prefiro louvar o diretor Eli Jonas Machado, de 55 anos, que encontrei um mês atrás, quando se preparava para fazer a primeira leitura da Paixão com um elenco de uma escola pública, a Escola de 1º e 2º Grau Mascarenhas de Morais, ali em Olinda, junto ao 7º R.O.



Lamentei as muitas viagens que tive que fazer, pois iria escrever uma matéria sobre ele, para a Continente Multicultural. Eram 14h45, um sol de matar, e ele, um homem animado, camisa simples, calça jeans, uma criatura desprovida de bunda, recebia os alunos, de todas as idades, em um amplo auditório da escola. “Nem almoçar hoje almocei”, foi a primeira frase que disse, e eu tinha certeza que era verdade.

Eli, um abnegado, iria conversar com os alunos, ver quem poderia aproveitar de outras montagens, “quem dá, quem não dá”, como dizia. “Dificilmente a gente corta alguém, só por indisciplina”.

Ano passado, ele envolveu 184 alunos. Este ano, espera botar 250 jovens nesse mundo de paixões. Quem sabe, desperte outras paixões. Ao final, pretende realizar quatro apresentações, em 12 escolas. Hoje mesmo, deve ter Paixão de Eli em algumas escolas.



“Pedro, vem cá!”, grita ele, e Pedro, humilde, se aproxima. É um rapaz magro, tímido, não sei como ele vai se virar com o Pedro. Mas sei que esses tímidos são um perigo. É cada ator danado.

“Ano passado, gastei R$ 13.500,00”, diz. “Este ano, terei que me virar em mil”. Consegue patrocínios, paga as contas, mas a realização mesmo é quando vê os meninos atuando, interpretando, desenvolvendo potencialidades.

Eli, o meu louvado deste março à beira da Paixão de Cristo, resolveu colocar um Jesus negro.

“Ele começou fazendo um fariseu, dizendo – não batam nele, eu carrego a cruz!”

Caramba, isso é que é uma frase forte.

Converso rapidamente com o ex-fariseu, futuro Jesus. Rodrigo Paiva, um rapaz de bom sorriso, obviamente negro. Não terei muito tempo para conversar, é apenas um contato inicial, anoto seu telefone, diz que é a quarta vez que participa da encenação, está feliz com o novo desafio. Sou informado por Eli, que o menino já fez parte de gangues, era virado na escola, hoje trabalha ensinando teatro nas escolas.



Para quem não sabe, são oito fases de trabalho duro, até a estréia. Primeiro, o contato com as escolas, para divulgar o projeto. Depois, explicação para os candidatos sobre o que é “o espetáculo em si”. O que aconteceu nos últimos dias de Cristo na terra. Para quem não sabe, foram uns dias bem atormentados, ele sofreu muito. Terceira parte: leitura e interpretação dos textos. Neste momento do processo, os alunos terão que saber que foi Judas, Madalena, aquele povo todo. Na quarta parte, terão que ler uma parte do Novo Testamento. Vem então a quinta e preocupante etapa, que é a escolha dos papéis.

“Ano passado, faltando 15 dias para começar, o Cristo desistiu. Como ele era ex-viciado, não ficava bem tirá-lo do trabalho”, explicou Eli, mas não entendi bem. Do nada, surgiram três possíveis Cristos. Um tinha sido o Demônio, outro, Caifás, e outro não lembro, porque foi um dia em que estive péssimo no meu trabalho de campo, e estava certo de que voltaria, para acompanhar todas as etapas.

Na sexta etapa, a compra do material, para a confecção da cidade cenográfica. Penúltima fase: gravação do CD com as vozes, os diálogos da encenação. Por último, os ensaios, sempre às 17h, para não atrapalhar a vida na sala de aula.

“Nos ensaios e na encenação, os atores não devem puxar pelo “x”, como na TV”, explica Eli. Quero saber como eles fazem em Nova Jerusalém, com aquele povo todo vindo do Rio.

Eli, que louvo neste mês de março, foi aluno de escola pública. Deixou de estudar em 1970, para trabalhar. “Capinei mato, fui de serviços gerais, servente, eu era semi-analfabeto”, diz, enquanto ajusta a calça jeans folgada, e acompanha a chegada de mais futuros fariseus, soldados romanos, um eventual Pilatos, candidatas à Maria, fora o Judas, que não localizei na sala. “Voltei a estudar em 2.000, por insistência de minha esposa”.

Fez o supletivo do 1º e 2º grau. Duas semanas depois, fez o vestibular para Matemática. A história prometia ir longe, mas eis que chega Ivanildo Diniz dos Santos, o carpinteiro da encenação toda. É o homem disposto, que vai fazer o milagre de transformar madeiras, cola e tinta, na Jerusalém do subúrbio. Escuto uma beira de diálogo.

“Você tem que cortar a madeira direitinho”, diz Eli.

“Ah, isso vai dar trabalho”.

Anoto o telefone do carpinteiro, de Eli, de Jesus. Pela primeira vez na vida, tenho o celular de Jesus, penso em pedir ajuda ao meu Santa Cruz, que estão querendo acabar, mas ainda é cedo, certos pedidos importantes, só com intimidade. O homem tem que ser crucificado primeiro, para subir ao céu, e depois me atender.

Vamos a um matagal na escola, ao lado da quadra sem rede, onde o futebol corre solto, com o sol ainda fumegando. Os meninos vão chegar em casa com a camisa da escola pingando, mas o que importa é o gol de fora da área, de preferência um sem-pulo na gaveta.

Eli e o carpinteiro entram no matagal, tiram medidas, e sinto que estou em outro mundo. Aqui, a paixão é outra. É a paixão pelo teatro, pelo trabalho em escolas, com jovens. Nem deveria se chamar “ A Paixão de Cristo”, mas “A Paixão de Eli”.



Voltamos, ele me diz que tudo ali vai ser limpo, ali será a cerimônia da condenação, ali vai ser a crucificação. Ele vê o cenário pronto, e eu só consigo ver, por enquanto, mato e dificuldades.

Por conta das viagens para o Sertão, não pude acompanhar o processo todo da encenação. Uma pena. Olhei agora no meu caderninho, teve encenação na escola ontem, com repeteco hoje e amanhã.

Acabei de falar com ele pelo telefone. Ontem, na estréia, houve um imprevisto. Estava tudo pronto, Jesus (Rodrigo Paiva), aquele rapaz negro, estava na boca da cena, quando teve um ataque de epilepsia. A encenação só não naufragou, porque Eli, macaco velho de encenações, já tinha deixado um ator pronto. Era o Reinaldo, que estava todo maquiado. Iria interpretar o demônio. Desfez a maquiagem, vestiu a roupa de Cristo, e deu tudo certo. Que o Bento XVI não saiba dessa.

Hoje, o Cristo negro retorna. É ver para crer.

Eli seja louvado.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Dois vagabundos na estrada (epílogo a contra-gosto)

O carro deslizou suave até Piranhas Nova, onde estava acontecendo a feira semanal. Feira no interior é aquela maravilha. Roupas, sapatos, sandálias de couro, caldo de cana, lamparinas, fora as comidas todas, uma fartura de cores, sabores, fruto de mãos que cuidaram da terra, plantaram, olharam o céu, à espera das chuvas.



Maraí consegue comprar seu fumo, damos uma reparada em tudo, até que chegamos à barraca do caldo de cana. Não digo nada, o dono do negócio, seu Manuel, pergunta se somos do exterior, digo que soy cubano, e Maraí, já sabendo como funciona nossa lógica do brincar com a vida, entra no jogo.

Seu Manuel fica louco de alegria, me estende a mão.

“E como está Fidel?”

“Mal, muy mal, enfermo”.

Maraí faz a tradução.

“Ele disse que Fidel está muito doente”.

O negócio começa a ficar sério quando ele chama sua esposa, Vânia, e o filho, Paulo.

“Ele é cubano. Disse que Fidel está morrendo”.

Olha para mi e completa:

“Eu sempre quis conhecer um cubano”.

Marai faz a tradução. Falo sobre a vida difícil no meu país, acho o Brasil imenso, Beberico o caldo de cana, que está delicioso. Resolvemos tirar uma foto. Seu Manuel está todo orgulhoso, junta a família. Marai fica demorando para tirar a foto, fica fazendo o foco, quase digo para ele deixar de frescura, mas Seu Manuel iria perceber que não sou cubano coisa nenhuma, fico calado.

Saímos dali para Canindé, única cidade da região que tem Banco do Brasil e Bradesco. Damos alguns passos, e vem um sujeito numa motoca, com uma mulher na garupa.

“Vocês são hippies?”

Explicamos que estamos mais para vagabundos que para hippies, e pelo que sei, hippie sempre vende uns badulaquezinhos. O sujeito desce da moto, se chama Carlos, é professor de química, a mulher se chama Carmem. Achou a gente interessante, resolveu conversar. Perguntou o que a gente achava da transposição, e como a maior parte do povo nordestino, não temos opinião formada. Sabemos apenas que há muitos interesses por trás. Carlos diz que era assim também, até apoiava a transposição, mas depois que conheceu uns promotores ligados ao meio-ambiente, mudou radicalmente, e agora faz campanha contra.

“Vi uma apresentação de um promotor, com todos os dados, mapas. Essa obra vai beneficiar justamente os mais ricos, os que têm terras”.

Conversamos um pouco, Marai, que gosta que só do Lula, questionou se um presidente nordestino iria fazer uma mazela com a região, Carlos disse que governantes fazem besteiras e só depois percebem, depois pediu para tirar uma foto com a gente. Decidimos que já bastava do assunto transposição, resolvemos botar o pé na estrada de verdade.

É uma caminhada e tanto, num sol de queimar o couro. Quando percebemos que o caminho é muito mais longo, passa um caminhão, pegamos carona, vamos na boléia, com o vento no focinho, aquela sensação de liberdade completa. Não temos horários, direção exata, o mapa fica geralmente na bolsa, não temos bússola, apenas vamos, ao deus-dará. Se dependesse da gente, o turismo mundial seria uma grande festa, de erros e tentativas, descobertas e espantos, não essa chatice de guias, museus, lugares marcados, mas isso é coisa para outro dia.



Foi uma sorte, a carona. Canindé fica a muitos quilômetros de Piranha, e é uma longa subida, levaríamos horas nesta pisada. Sem perceber, estamos na hidroelétrica de Xingo.

Tiramos dinheiro em Canindé, depois voltamos a Piranhas Nova. Vamos atravessando a rua, um cara me olha e diz:

“Eita, é Moisés, e vai abrir o Mar Vermelho”.

Vamos caminhando para Piranhas, que julgo ser a velha, é outra longa caminhada, mas é uma descida. Pocot, pocot, vamos os dois em silêncio, até que Piranhas aparece, de longe, e já percebemos que a cidade é um pequeno deslumbramento, uma mistura de Olinda com certas ruas do Poço da Panela. Maraí está tão exausto, que me encarrego das fotos, plec, plec, plec.



Atravessamos a cidade, chegamos às margens do Velho Chico, onde funciona uma verdadeira praia. Pegamos uma sombrinha, depois mergulhamos os pés na água, eles fazem chhhhhhh, porque estavam em brasa. Mergulhamos, nadamos, parecemos dois meninos.



Ali, depois de uma conversa fiada, descobrimos que a caminhada tinha chegado ao fim. Estamos exaustos, mas felizes. Terminamos nossa quinta expedição. Descobrimos que a vagabundagem vale a pena. Nadei vários metros no meu clássico craw, depois encontramos a pousada da Vanda, uma pequena jóia, meio abandonada à beira do São Francisco.

Vanda está desgostosa, pensa em vender ou arrendar a pousada, se eu tivesse dinheiro, comprava na hora. O último gerente vivia cheio das garapas, afastava os turistas. As plantas estão secas, há um cachorro sonolento, e duas mulheres na rede. Uma delas é esposa de Júnior, o novo gerente, que ganha R$ 200,00 por mês, mas não paga aluguel, luz, água. O rapaz é diligente, atencioso, providencia pratos, libera a cozinha, mas infelizmente torce pelo Flamengo. Tem uma filha de três meses, que está mamando. Marai faz duas suculentas saladas, que comemos num pátio belíssimo, vendo o rio por ali. Ah, meus amigos, feliz de um povo que tem um rio São Francisco cruzando seu território, abençoando pessoas, animais, plantações, embelezando os olhos, enchendo a vista de abundância, no mormaço da tarde...



Cochilamos. À noite, demos uma volta por Piranhas. Meu deus, que cidade linda, tragicamente abalada pelo som dos forrós, que têm como refrão “e tome! Tome! tome!”, ou pérolas como “beber, cair, levantar”. Paramos num boteco, o Seu Vital de Piranhas, bebemos o café mais aguado do globo terrestre. Conversamos longamente com Besouro e dois amigos. Paulo é o dono da venda, diz que até 64, a cidade era uma maravilha, mas o golpe arrasou tudo, porque tiraram os trens.

“Aqui, filmaram Bye Bye Brasil e Baile Perfumado”.

Ganhamos aulas de história, começando da época de Lampião e seus camaradas.

Seguimos caminhando, esbarramos no mirante, e no meu clássico medo de altura. Resolvemos encarar. São 300 degraus, mas estou decidido a não olhar para trás nem para os lados. Lá em cima, está escrito: “Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX”.

Sentamos nas cadeiras do restaurante, ficamos vendo a lua minguante refletir sua luminosidade no rio, que se torna um imenso contorno prateado.

“Lindo, lindo, lindo”, fica repetindo Marai.

Na volta para a pousada, combinamos de assistir “Bye Bye, Brasil”, e “O Baile Perfumado”.

Teria mais uma postagem sobre os infortúnios do retorno, mas penso que meus 33 leitores estão cansados de tanta caminhada. Aguardemos.

Para Carol Bolinho, caminhante

terça-feira, 11 de março de 2008

Dois vagabundos na estrada, volume 2 (de um total de 3)


Travessia do glorioso rio Moxotó, separando duas nações

Sim, como eu vinha dizendo, chegamos sem muitos problemas ao rio Moxotó, que é bem franzino, nem parece um rio que separa estados. Novo descanso, água. Foram nove quilômetros, e não estamos com essa bola toda. Pegamos fôlego, voltamos a andar, até que descobrimos um povoado com casas organizadas, uma igreja. É uma tribo que vive ali, informam. Resolvemos ver de perto e beber água.

No caminho, uma subida íngreme, num calor dos diabos, esbarramos com um senhor de uns 60 anos, negro, que tenta se levantar. Está mais bêbado que todos os meus amigos, no domingo de Carnaval. Resolvemos ajudar, levantamos o homem, ele solta um bafo que quase nos derruba. Está suado, creio que bebeu uns dois litros de Pitu.

Chegamos à aldeia Jeri-Pankó, de descendentes dos Pankararu, com Pituta à tiracolo, o que facilitou nossa vida. Aliás, não poderia haver melhor nome para aquele homem: Pitu-ta. As quatro primeiras letras mostravam que ele não estava mesmo para brincadeira.

Bebemos água, e os meninos nos cercam, puxando assunto. Bilico, o mais danado, faz logo amizade, diz que vai ter um ritual indígena à noite, e que poderemos participar. Depois chegam, por ordem de entrada, Dantinhas, Emanuel e Teté. Perguntamos onde tem café, eles dizem que é lá em cima, no bar do Manu, vamos com eles.


Manu está cortando os cabelos de Tio Zé, usando aquelas maquininhas elétricas, nos recebe com simpatia. O corte custa R$ 2,50 e Marai diz que vai raspar a cabeça. Acho uma idéia triste, mas nem discuto, ele tem essas manias. Manu diz que não tem café, mas avisa a Bilico para avisar à mulher para fazer um café para a gente. Sentamos, exaustos. O sol está tinindo. Depois chegam Dimara, Ailton, Micaela, Cleomar, Marcelo e Rosildo, fora o Raí, Idemir e Quesimar. Criança adora gente estranha.

Ficamos conversando, Marai descobriu que seu irmão é indígena, porque o Tio Zé é “ingualzinho a ele”. Ele sempre diz assim, “ingual”, porque diz que a palavra vem de “íngua”. Acontece um monólogo, onde Marai conta a vida do seu irmão, e todos acompanham atentamente. É uma história triste pra chuchu. Daqui a pouco, chega uma garrafa térmica cheia de café, novinho em folha.

Pedimos uma cajuína, não tinha no bar, Bilico pegou o dinheiro e foi comprar. Saiu na velocidade do vento, e pouco depois, estava com uma cajuína de dois litros. Repartimos com a criançada. Marai dormiu um pouco, e apareceu o mesmo Bilico uma corda de madeira, para acordá-lo.


Lá pelas tantas, todo mundo vai pra casa, ficamos ali, esperando o sol maneirar para a última parte da jornada. Tiramos fotos, peço para os meninos escreverem algo no meu diário. Wilardy desenhou uma casa e uma criança, e botou a data. Adenildo (11 anos), desenhou um jogo de dominó. Ailton Amilton dos Santos, de dez anos, desenho uma casa e uma árvore. Distribuí caneta para seis meninos. Fiquei apenas com uma, o suficiente. Às vezes, a gente tem coisas demais, e nem sabe. Manu aparece, pergunta se queremos comer um feijãozinho. Explicamos que estamos em jejum, ele insiste, mas acaba se convencendo que era mesmo verdade. Ele diz que vai ter o ritual à noite, varando a madrugada, chegando à metade do domingo. Se quiser, poderemos participar e até dançar. Adoro rituais indígenas, mas achamos melhor seguir.

Nos despedimos de todos, atravessamos a aldeia, que é arrumada e não tem problemas de abastecimento d´água. A cara dos meninos é boa, os dentes branquinhos, tem uma escola na comunidade. Como vieram oferecer feijão, a fome deve estar fora do cardápio.

Chegamos a Pariconha às 15h30. Pelos nossos cálculos, caminhamos 23 quilômetros. Queremos ir para Delmiro Gouveia, mas é distante. Os motoboy informam que todos os carros já saíram. Se a gente der sorte de aparecer um carro...

Sentamos, aguardamos. Passa um gordinho com um baita cigarro de palha na boca, parecendo mais um charuto. Usa dois relógios, um em cada braço. Marai pergunta a hora. Ele olha o braço esquerdo.

“Três e trinta”.

“E no braço esquerdo?”

“Três e trinta e um”.

A diferença nos impressiona, o gordinho aproveita a deixa e comenta:

“Cortaram a minha aposentadoria, vocês acreditam. É muita safadeza”.

Ficamos indignados. Como é que se corta a aposentadoria de um camarada de uns 40 anos, gordinho, só porque usa dois relógios, um em cada pulso? Olhamos a igrejinha, achamos esse nome da cidade muito esquisito mesmo, Pariconha. Vinte minutos depois, estaciona uma D-20. Nos avisam de longe que vai para Delmiro. Custa R$ 2,00 por cabeça.


Pegamos o carro. Na frente, o motorista e uma mulher. Atrás, eu e Maraí. Vai entardecendo, esticamos as pernas, olhamos a paisagem. Uff, com é bom viajar sem rumo, descobrindo esse Brasil das brenhas.

São 17h05, quando chegamos ao centro de Delmiro. Batemos em duas pousadas, nos olham de cima abaixo, dizem que não têm vaga. Andamos mais 40 minutos, até chegarmos à Pousada das Pedras, que tem vaga. Tomamos banho, trocamos de roupa, e vem de novo aquela exaustão ancestral. Levantamos somente para comprar verduras, uma sardinha. Maraí faz uma salada deliciosa, usando a mesinha do hotel. Conseguimos dois pratos, saboreamos folhas as mais diversas, tomate, cenoura. Fim do jejum.

Iríamos sair para conhecer Delmiro, à noite, mas fomos vencidos. Dormimos sem muriçocas. Vi na TV uma reportagem sobre alimentação. Dizia que o brasileiro desperdiça 39 milhões de quilos de alimentos, um terço do que se produz em todo o território, isso é uma tristeza. Caro leitor, se não for comer tudo, bote um prato menor. Tenho horror a quem deixa comida no prato.

Às 7h55 do dia seguinte, após um bom café no hotel, fomos para o centro, buscar um carro até Piranhas. Passamos pela Lourenço Tecidos, que tem uma marca forte:

“Lourenço Tecidos – diz o que tem, porque tem o que diz”.


São 8h25, e a D-20 sai de Delmiro, rumo a Piranhas. Somos cinco pessoas de cada lado do banco de madeira. A passagem custa R$ 5,00 per capita. No centro do carro, estão as bagagens.

Dez minutos depois, a D-20 para, tem uma multidão querendo entrar. O velho que toma conta do veículo desce, manda botar todas as bolsas no telhado do carro, providencia um banco extra, e daqui a pouco, somos 19 criaturas, espremidas, cada uma com sua história, rumo a Piranhas. O carro voa. Qualquer acidente, não vai sobrar um vivo.

Mas começam os diálogos, as conversas, e a gente na hora esquece a velocidade.

Amanhã, boto o resto da viagem e encerro mais uma trilogia da vagabundagem.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Dois vagabundos na estrada (Volume I)

Lá vamos, eu e Iramarai, para mais uma jornada a pé. Queremos simplesmente andar. Sair da correnteza, da cidade grande, dos carros. Longas jornadas, com os pés no chão, nossas mochilas, pouca coisa, nossos cantis, nossos olhos.

É nossa quinta expedição. Relembramos isso no meio da viagem, enquanto ele descansava em cima de uma Quixabeira, que se tornou a árvore-símbolo da viagem. Fomos informados de seus poderes medicinais, então arrancamos lascas e colocamos em nossos cantis. Durante toda a viagem, bebemos água com gosto de barro, e nos sentimos estranhamente forte, como se fosse nossa kriptonita.


Como sempre, escolhemos na base da intuição. Terminamos nossas atividades pela Secretaria Estadual de Saúde, quatro dias de muito trabalho no sertão, e voltamos com o motorista Belém. Num determinado ponto, resolvemos ficar. Belém toda vez fica desesperado. Diz que vai estar com o celular ligado, para o caso de acontecer alguma coisa, se a gente precisar. Pergunta mil vezes o que vamos fazer, a pé, naquele meio de mundo, tão longe do Recife. Vamos andar. Simplesmente andar. Vamos ao vento, ao sabor do destino, colhendo o que chega, compartilhando o que podemos, contando e escutando histórias, vendo o povo.

Levo um pequeno bloco no bolso, onde anoto religiosamente os horários de partida e chegada, nome dos lugares, vilarejos e pessoas que conhecemos. Saímos de Tacaratu, perto de Jatobá, à 16h24 da sexta-feira. O primeiro objetivo é chegar a Caraibeiras, mas nunca sabemos se vamos conseguir. Precisamos de um mapa que tenha indicações de estradas, veredas, sempre dizemos isso, e toda viagem usamos meu surrado mapa, que vai caindo aos pedaços, a cada viagem que faço.

Iniciamos nosso jejum, que vai durar 24 horas, e será concluído no dia seguinte, com uma farta e deliciosa salada de verduras, no quarto de um hotel, em outra cidade.


São duas horas e meia de jornada, amparados por uma luminosa lua cheia. Acertamos em cheio no horário, porque o clima está ameno, não pegamos o sol no lombo, como em viagens anteriores. Aos poucos, a cada caminhada, vamos descobrindo as manhas. Não exagerar com o corpo, ter alguns cuidados. Nos identificamos muito com os vagabundos, mas às vezes, somos mais desleixados que eles.

Chegamos em Caraibeiras exaustos, porque tomamos o café da manhã em Ouricuri, e rodamos 619 quilômetros, até seguirmos a pé. Buscamos algum lugar para dormir. Maraí queria o de sempre: encontrar uma árvore boa, limpar o chão, fazer um foguinho e dormir. Sim, mas trabalhamos a semana inteira, estamos exaustos, é o primeiro dia da caminhada, e não temos sequer um colchonete, apenas um lençol para os dois. Além disso, acabamos de caminhar nove quilômetros. Vence, por empate técnico, a proposta de dormirmos em uma pousadinha simples, para recuperar as energias. No sábado, teremos muito chão pela frente.

Procuramos um lugar. Somos informados por um gordinho simpático que Dona Lourdes tem lugar para dormir, fica ao lado da igreja, pegando à esquerda. Encontramos a igreja, pegamos à esquerda, mas dona Lourdes não está. Sua funcionária, Dina, informa que a diária custa R$ 7,00 e dá direito a café da manhã. O quarto é limpo, miúdo, tem três camas e um ventilador. Ao lado, um banheiro decente, com água corrente, porque quando falta na cidade, dona Lourdes manda encher uma cisterna. Paga R$60,00 ao caminhão-pipa.

O silêncio é formidável, e o calor começa a nos assombrar. Dina, uma negra simpática e jovem, diz que seu irmão vai chegar mais tarde da escola, e vai dormir na rede, que está pendurada no pátio. O cachorro, simpaticíssimo e velho, se chama “Amiguinho”, e fazemos amizade rápido.


O banho nos renova, mas estamos quebrados. Descobrimos que a semana foi mais cansativa que pensávamos, ou já não temos mais o mesmo pique de outras caminhadas. Contra nós, pesa o efeito do “Fator Gildázio”. Ficamos hospedados a semana inteira no mesmo quarto com Gildázio, com seu ronco capaz de acordar uma cidade inteira. Foram alguns dias dormindo mal e trabalhando muito. Meu amigo deita, cai exausto e dorme. Vou para a mesa, anotar minhas coisas, ler. Dina providenciou uma garrafa de café, que vou consumindo devagar.

As muriçocas não demoram a atacar. Pouco depois, Marai levanta. O ventilador não segura o calor, nem as muriçocas. Saímos para uma caminhada na cidade, mas não avançamos muito. Meu amigo sente uma fisgada em sua famosa “verruga plantada”. Descobrimos que estamos ao lado na funerária São Francisco, que tem o “Plano São Francisco”, e atende 24 horas. O responsável é Chico, mas não estamos precisando de seus serviços, pelo menos por enquanto.

Sentamos no banco da praça, ele faz dois cigarros de palha, e fumamos, muito quietos. Ah, esses instantes fundamentais de nossas viagens, quando estamos exaustos e algo de júbilo nos envolve. Estamos longe de tudo, sem internet, celular, e não sabemos para onde vamos, nem o que fazer. Olhamos o céu, ele fala de umas constelações, mas sou cego de nascença. Ele vê desenhos no céu, só vejo estrelas mesmo. São as burrices de cada um. Às vezes, acho que ele inventa constelação. Vou criar as minhas também. Aquela ali é a Elegíaca, veja ali a Polinésia, ao lado da Arcaica. Sim, sim, vou reagir.

Damos as primeiras tragadas, e passa o gordinho informante. Pergunta se encontramos Dona Lourdes, respondemos que sim, agradecemos, ele segue.


Voltamos para Dona Lourdes. Maraí vai tentar dormir. Pergunto a Dina se posso assistir a minisérie “Queridos amigos”, ela diz que sim, pego uma cadeira de balanço, fico reparando os últimos instantes do Big Brother. Ela e o marido sabem o nome de todos os personagens, as tramóias, quem vai sair, quem vai ficar, enfim.

Maraí chega. Acordou, com as muriçocas. Ficamos os quatro na sala, e começa o seriado.

“O que é que a gente faz com as muriçocas?”, pergunta Marai.

“É só não ligar para elas”, responde ela, sem desgrudar da TV.

Termina o episódio do dia, voltamos para o quarto. Ele deita, volto para a mesa, vou ler e escrever até cansar. Daqui a pouco, chega o irmão de Dina, que não sei o nome. É um sujeito calado, com gestos precisos e econômicos. Toma um banho, janta, volta, deita na rede e dorme. Lá pelas tantas, solta uns bons peidos, e segue firme.

Já é madrugada, quando resolvo dormir. Olho as estrelas, estão lá: Elegíaca, Polinésia, Arcaica. Sim, minhas constelações. Maraí se mexe de um lado para o outro. Não consegue dormir direito.

Nosso plano era acordar às cinco horas do sábado, para às seis estar na estrada.

A muito custo, saímos de Caraibeiras às 7h55. Vamos olhando as empresas da cidade, e um modelo próprio de divulgação.

“Sorveteria Sabores. Organização: Negão”.

“Funilaria Futura. Organização: Chico”.

“Auto escola Regismar. Organização: Chico”.

“Trevo Madeiras”.

Essa empresa não botou a organização.

À saída, descobrimos que estamos na “Cidade das redes”. Há pequenas e médias fábricas em toda a cidade. A rede mais em conta, custa R$ 12,00. O som dos teares industriais se espalham por várias ruas. Paramos defronte à casa de dona Carminha, que usa um tear manual, para fazer o “cadi”, uma parte que sustenta a rede. É um trabalho complicado, o troço exige uma mão de obra danada. Ela ganha R$ 0,40 por peça. Tiramos foto dela, os três filhos são bonitos como o quê.

A população de Caraibeiras: 4.328 almas.

Caminhamos por uma estrada de terra, com pouquíssimos carros. Alguns quilômetros depois, paramos numa sombra, porque o calo de Maraí está fazendo estragos. Ficamos debaixo de uma quixabeira, bebemos água, nos recuperamos. O sol está rasgando tudo.

Faltam nove quilômetros para chegarmos ao rio Moxotó, que separa Pernambuco de Alagoas.

Daqui a pouco, passa um vaqueiro, num jumento. Conversamos um pouco. Não sei de onde saiu esse assunto, mas ele disse que o jumento é como o papagaio, “vive até caducar”.

Se o distinto leitor não sabe, vai uma informação essencial, que nem o Google deve ter. Um jumento chega a viver 32 anos, e trabalhando duro, que não conheço jumento que viva no bem bom.


Maraí fuma um cachimbo, equilibrado num tronco de quixabeira. O vaqueiro diz que a casca da quixabeira é boa para o estômagos, rim e pancadas. Botamos pedaços em nossos cantis. Maraí resolve tirar os tênis e usar as havaianas. Voltamos à estrada. Resolvemos seguir num galope firme, até o rio Moxotó. Descansaremos em outra pátria: Alagoas.

terça-feira, 4 de março de 2008

Para quem ainda lê a Veja

Durante longos oito meses, em 1999, trabalhei na redação da revista Veja. Vi de perto como funciona uma máquina poderosa, capaz de devastar reputações, arruinar vidas, caluniar, mudar informações, na prática do pior jornalismo.

Saí para fazer o mestrado, e desde esta época, nunca mais comprei um exemplar. Olho quando vou a um dentista, para saber como anda a linguagem, e sinto repulsa.

Um grande jornalista teve o peito de desvendar os bastidores dessa máquina, que se orgulha de vender um milhão de exemplares por semana.

Deixo minhas crônicas de lado até amanhã, e convido meus leitores para embarcar nesta série de reportagens do Luis Nassif, desvendando uma das grandes fraudes do jornalismo brasileiro.

http://luis.nassif.googlepages.com

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Anotações inúteis sobre gente besta

Aqui vai uma confissão: adoro gente besta. Mas tem que ser besta mesmo, não vale ser "metido a besta", porque disso o mundo está cheio. Tem que ser besta mesmo, de verdade.

Tenho dois amigos maravilhosamente bestas, e sem eles, a vida ficaria muito difícil. Um deles é o Gustavo de Castro, que mora em Taguatinga, o outro é o Iramarai, que mora em Casa Amarela. É uma parada difícil, saber qual o mais besta dos dois. Gustavo é capaz de passar longas horas conversando sobre nada, e é uma prosa boa, que pode terminar numa gargalhada. A última postagem do seu blog (www.razaopoesia.zip.net) fala da gargalhada. Como é bom gente que gargalha! De vez em quando, a gargalhada parece dissolver os nós e nódulos.

O Iramarai é um caso perdido. Meu companheiro de trabalho e andanças é capaz de atravessar cinco cidades, no sertão de Pernambuco e de Alagoas, com uma folha de uma árvore qualquer no bolso, até descobrir o nome. Adora rir de nada, falar besteiras monumentais, de preferência fumando seu cigarrinho de palha. Procurou em três feiras um da marca Saci, mas deu com os burros n´água. Se algum distinto leitor souber onde comprar fumos Saci, favor informar a este cronista.

Gente besta de verdade, mas besta mesmo, gosta muito de brincar com as coisas da vida. São lesos, mas as crianças adoram. Posso ver agorinha a cena, do Gustavo descendo a avenida Angélica, no elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, se equilibrando em um carrinho de supermercado, que surrupiamos numa jornada magistral. Iramarai, sempre que vai beber algo, fica com a mão tremendo, fingindo ser aqueles bêbados em fase terminal.

Ah, os bestas... Como são importantes para minha humanidade. Besta tem uma identificação absoluta com passarinhos, plantas, crianças, cachorros. Podem olhar que os cachorros adoram gente besta. Pelo que sei, Gustavo e Iramarai nunca foram mordidos.

Gente besta dorme em qualquer lugar. Chão de rodoviária, rede pendurada em igreja ou capela. Ri fora de hora, adora ficar elogiando a comida a cada garfada, quando a comida está boa. Gente besta não está nem aí para ganhar um debate. Vai mesmo é aprendendo com os silêncios.

Posso dizer que sou um sujeito de sorte. Convivi longamente com o Gustavo, quando eu me iniciava na besteirança. Me especializei com ele, na convivência repleta de viagens e conversas fiadas. Agora, trabalho e viajo com o Iramarai, que tem doutorado e PHD.

Tenho plano de uma conferência planetária dos bestas. Já tenho três inscritos: eu, Gustavo e Iramarai. Vamos passar uma semana conversando bobagens as mais diversas, rindo do nada, fazendo mungangas para as crianças, fazendo chip chip para os vira-latas.

Como aprendi duas piadas supimpa com frei Aluizio Fragoso, contarei-as.

Uma é sobre um louro que muda de opção sexual, outra é sobre um fanho, que faz dois pedidos ao gênio da lâmpada. Besteiraremos ainda mais a vida, de norte a sul.

ps. Estava terminando esta crônica inútil quando chegou por aqui, do nada, a Flávia Suassuna, que é da mesma turma. Besta de verdade chega do nada, conversa umas bobagenzinhas, esquece o objetivo da visita, e vai embora, bestamente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Charutos para ajudar uma guerreira cubana

Foto: Ian A. Fraser




Caros leitores, o máximo que tentei vender neste blog foram os livros "Estuário" e "Clamor". Até que não foi tão ruim assim.

Faço uma pausa entre uma crônica e outra, em meio às muitas viagens pelo sertão, para anunciar a venda de charutos cubanos, da marca Cohiba, com certificado de origem e tudo.

O dinheiro será enviado integralmente para Celeste, minha amiga Cubana que me acolheu em sua casa. Vendi a primeira caixa a um paulistano por R$ 650,00. Com a grana, ela começou a ampliar a casa dela. O dinheiro vai amenizar um pouco seu sofrimento diário. A cada 15 dias, ela tem que visitar o filho de 23 anos, que está preso.

Cada charuto custa 35,00. Quem levar mais de um, ganha desconto.

Mande o nome e o email.

E nem falem de Fidel Castro perto dela, muito menos de Raul Castro, "El Chino".

Mas isso é para outra prosa.

Grato,

Samarone Lima
samalima@gmail.com

ps. informo que depois desta postagem, já vendi 8 charutos. O Daniel ficou de me pagar os dois que consumiu, no Rio. Daqui a pouco, a caixa acaba. O bom é que ficarei com a caixa, que é uma lindezoca.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A carta

Voltei de Cuba com uma pequena carta, escrita pelo meu amigo Maicon, endereçada à sua mãe, que mora na rua das Pernambucanas.

Maicon me falou muito de sua mãe, Maria do Socorro, um mulher simples, que trabalha na casa de uma família há muitos anos. Nas horas de folga, leu algumas cartas que ela o escreveu. Cartas muito simples, amorosas, de uma mulher modesta, orgulhosa de ter um filho estudando medicina em Cuba.

Passei vários dias no Rio, voltei ao Recife, comecei a trabalhar, e a carta comigo. Liguei duas vezes, marquei o encontro, mas ele só aconteceu na segunda-feira. Ela não queria que eu passasse e deixasse a carta. Queria me ver. Queria sentir alguma fagulha da presença do filho.

Cheguei lá pouco depois das oito, apressado para uma nova viagem para o Sertão. Ela tinha saído para resolver algo. Uma moça foi chamá-la.

Daqui a pouco, vem a dona Socorro, caminhando apressada, com um sorriso imenso, contido, que tomava conta do corpo e da alma. Me reconheceu de longe, por causa da barba, que o filho tinha avisado.

Então aconteceu isso que é o mistério, o sagrado. Dona Socorro me deu um abraço cálido, terno, e ficou muda, sorrindo e chorando.

"Estou tão feliz, que não sei nem o que fazer".

Pausa para respiração. Entreguei a carta, que era o de menos. Ela queria saber do filho. Falei das nossas andanças, de como ele está bem, fazendo seu curso de Medicina, e que ficamos muito amigos.

"Ele sempre foi assim, desenrolado", foi o máximo que conseguiu dizer.

Para ela, era como se o filho estivesse ali. Não, não, era como se a presença dele, as lembranças, tivessem chegado de repente, com um amigo novo, recém-chegado de uma terra tão distante.

Falei mais algumas coisas, mas tudo era desnecessário. Por alguns instantes, o simples fato de entregar uma carta, de um filho que mora a milhares de quilômetros do Recife, representava o reencontro de Socorro com seu Maicon.

Dei mais um abraço, disse que precisava viajar, mas voltaria, para contar os detalhes.

"Estou tão feliz, tão feliz", prosseguiu.

Saí caminhando devagar.

Maicon, sua mãe é uma mulher simples, tem olhos suaves e muito orgulho de você.

Na segunda-feira, ela era uma das mulheres mais felizes do Recife.

Não, Maicon, estou mentindo. Era a mulher mais feliz do Recife. Uma felicidade que vai se espalhar por vários dias.

Estava tão feliz, que não sabia nem o que fazer.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Diálogos recifenses na barraca do Nelson

Estou no Bairro do Recife, perambulando. É noite, já fiz tudo que precisava fazer, procuro um boteco copo sujo, pé-de-escada, algo assim, sem gente da moda. Esbarro no fiteiro do Nelson. Encosto. Como sempre, aquela tuia de populares, espalhados, divididos entre a fome e a sede. Peço uma cerveja. Nelson me avisa que não está muito gelada. Quando o dono do bar diz isso, pode ter certeza que a cerveja está fervendo. Por precaução, pego na Nova Schin, quase tenho queimaduras de terceiro grau. Tem latinha? Tem, está geladinha. Vamos nessa.

Aparece um banco, desse altos, que dá para o sujeito se escorar no balcão. O negócio tem 2,5 de extensão e 93 centímetros de profundidade, pelos meus cálculos aproximados. Nelson não se mexe lá dentro, ele se esgueira. Pratos do dia: fígado de galinha, galinha (só a galinha), guisado e charque, fora o feijão preto com charque, que eu vou dizer.

Nelson é tamanho médio, cabelos lisos e esparramados, parece um advogado em fim de carreira, mesmo sem ter feito carreira. Fala pouco, dá respostas secas, mas é como Seu Vital – finge que é durão. No final, sempre entrega os pontos.

“Você pode dizer o que disser, seu miserável!”, diz um homem sem camisa, a voz pastosa de quem bebe e fuma desde o ventre da mãe.

Aqui vai dar samba, é o que penso, já puxando meu bloquinho.

Passa um gari, varrendo restos de copos. Não sabia que gari trabalhava até nove da noite.

“Nelson, me dá uma meia ai. Tira-gosto, o que é que tem?”

“Você escolhe”, responde Nelson, mais duro que um poste novo. “Pode sentar na mesa ali”.

Tem uma mesa solitária, boiando naquela rua lateral à Rio Branco, que não lembro o nome, sou péssimo com nomes de ruas. Mas é uma rua estreita, poética e desarrumada, como muitas do Bairro.

“Ôx, tu quer o quê? Galinha?”, pergunta uma mulher, com os trejeitos de quem vinha bebendo desde antes do dilúvio.

“Galinha não”, responde o camarada, com enfado.

“Tomei foi um tombo desgraçado nessa gota serena”, diz Voz Pastosa, que ia e voltava com freqüência.

“Bote a rapaziada ali, mas almoço é almoço, e tira-gosto é tira-gosto”, explica Nelson.

“O Satanás toma conta de mim”, diz Voz Pastosa, que está com um pequeno balde de plástico. Dentro, arroz e pedaços de carne, fornecidos por Nelson, obviamente.

“Se quiser comer, coma. Se não quiser, jogue fora”, diz Nelson, um verdadeiro sargento.

“O Santanás toma conta de mim. Ou Deus. Tanto faz, é a mesma coisa”, segue Voz Pastosa.

Chega um negro delgado, sem esperança nos olhos, um homem que perdeu algo na vida, e jamais reencontrou. Me olha e faz uma pergunta, em tom baixo.

“Tem um cigarro, amigo?”

Maldição. Dei todos os meus cigarros cubanos ao Iramarai.

“Tenho não, amigo”.

Ele sai, desolado. O cara que não fuma tem essa desvantagem - não compartilha cigarros com desconhecidos.

“Quer galinha ou charque?”, pergunta Nelson Sargento.

Um camarada barrigudo, com muita vontade de comer, sem camisa, responde.

“Bote ai, esses dois contos”.

“Dois contos não tem mais não. Tu sabe quanto está o quilo de feijão?”

“Ôx, bote menos feijão”, diz Vontade de Comer.

Silêncio. Os dois refletem. Há uma negociação no ar. Quem vencerá?

“Então bote dois e meio”, diz Vontade.

Voz Pastosa chega de novo. Todo boteco que se preze, o mais vagabundo, tem o bêbado carrapato. Nelson Sargento o recebe com o calor humano de sempre.

“Lá vem você de novo. Tá feito galinha choca”.

“Nelson, eu quero que você me dê uma colher ou um galfo”.

“Não tem nada”.

Outro freguês reclama.

“Nelson, cadê a charque?”

“É charque ou galinha? Tu é enrolado pra comer, visse?”

Vontade de comer segue.

“Nelson, cadê o tomate?”

Nelson corta um tomate num prato.

Chega outro freguês.

“Tem o que, Nelson?”

Todo mundo ali conhece o Nelson. Agora, eu também.

“Tem feijão, cuscuz, galinha e charque”.

“Bota uma galinha”.

Nelson agora corta uma cebola para Vontade de Comer. Depois, empurra um pote com sal e completa.

“Vinagre não tem não”.

Vontade de Comer dá três colheradas de verdade, mastiga com força usando os poucos dentes, e reclama de novo.

“Cadê a água, Nelson?”

Nelson bota uma garrafa d´água, o sujeito bebe meio copo. Mais três colheradas rápidas, e estende o prato para Nelson.

“Bota mais um arrozinho e um caldinho, Nelson. A outra deve estar ali, me esperando”.

Nelson bota. Na mesa que estava boiando na rua, me chegam fragmentos de uma conversa.

“A consciência é dele. Eu mesmo não fui trabalhar agora à noite”.

“Não se aperreie não, fique na sua, que é melhor”.

"E o filme?"

"Eu só gosto em DCD, e minha TV está ruim. Vou comprar outra pra semana".

Vontade de comer termina. O prato, aquela imensa montanha, está em sua barriga. Ele bebe o restante da água, paga 2,50 e comenta com Nelson:

“Agora é tomar um banho e partir para o abraço”.

Pedi um tira-gosto de fígado e preparei a caneta. A noite iria render, foi o que pensei.

Na segunda latinha, acompanhei a história do roubo de uma bicicleta, informações sobre o pé-de-valsa do Alto 13 de Maio e outras lorotas. Fica para a próxima postagem, creio, se não aparecer um assunto melhor.

Para o magro Valadares, malandro recifense.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Anotação sobre o abismo

Conheço uma pessoa que consertou um abismo. Seu nome é maria.

Estou no trabalho, digitando algo no computador, quando ela fala, exaltada:

"Olha isso aqui, que abismo!"

Paro tudo somente por causa da frase.

São dois pequenos pregos, que saltam da janela, ameaçando nossa paz.

Ela vai buscar algo, para enterrar de vez os pregos na janela, que é de madeira.

Volta com uma pedra. Toc, toc, toc, começa a pedrar.

"A senhora está dando pedradas no abismo, é, dona Maria?"

Ela dá uma risada, mas segue, concentrada. Toc, toc, toc.

"É mesmo um perigo a pessoa levar uma topada no abismo", completo.

Ela me olha e responde:

"Pois eu mesma vivo barruando nas coisas".

Ela termina, estamos todos salvos, vai devolver a pedra ao local de origem.

Resumindo, consertou o abismo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A volta

Ah, voltar para casa... Abrir o velho portão, sabendo que ele vai arrastar em um ponto específico, e que esse barulho vai despertar o bom vira-lata, que virá num instante, e que o reconhecerá. Melhor ainda quando esse mesmo vira-lata se chama Bam-Bam, o terno, afável e sempre amigo Bam-Bam.

Depois de 45 dias entre Havana, Camaguey e o Rio de Janeiro, a sensação boa, confortante, acolhedora, de ter uma casa. Não, não, porque a casa é de minha tia-avó, e sou apenas um hóspede sem data para sair. É mais que ter uma casa - é ter um lugar para voltar, depois de tantas partidas. Ter um lugar no mundo.

A cerimônia de beijar a tia, de reparar que nesta ausência, seus cabelos cresceram, e continam branquíssimos, e que está bem de saúde. O cumprimento à sua antiga cuidadora, Rosa, que vai falar imediatamente "e esse cabelo?". Cinco segundos depois, ela repete "menino, e esse cabelo?". Reencontrar Renato, seu filho, que me recebe com o sorriso tímido de sempre. Essa alegria de voltar para casa, essa celebração do retorno, dos gestos, das palavras. O saber que sou bem vindo, que tenho um lugar no mundo, me renova sempre a alma, o espírito.

As plantas que cresceram, o vira-lata que não sai de perto um instante, como quem tenta dizer de sua saudade. No primeiro andar, o reencontro com minhas coisas, meus livros, os cadernos cheios de anotações. O meu mundo. Olho, para ver o que pensava antes de partir, quando o ano ainda era 2007. O que terá mudado em mim? É cedo para saber. O altar com as fotos dos antepassados, dos presentes, acumulou poeira, isso que chamam tempo. O tempo, essa poeira de todos os dias. Limpo a poeira, mas não o tempo.

Pego a Continente Multicultural, vejo um lindo artigo de Marcella Sampaio. Fala com tanta ternura do meu livrinho de crônicas, o Estuário, que fico feliz, contemplando seu belo texto, acompanhado de uma foto da minha eterna pátria espiritual, o Poço da Panela. Ela diz que se sente minha amiga, depois de ler as crônicas, repito o mesmo para ela. Tens um amigo no Cabo de Santo Agostinho, Marcella, obrigado por tanto carinho, tanto cuidado com as palavras.

A hora de desfazer a mochila. O que trouxe de Cuba, além de tantos textos, histórias, encontros? Livros, os poetas que garimpei, os charutos que minha amiga cubana conseguiu, para serem vendidos e ajudar a construir o derradeiro quarto de sua casa. Mais livros. A máquina fotográfica quebrada. Uma sandália havaiana quebrada. Uma máquina de datilografia Lettera, em perfeito estado, comprada no Rio de Janeiro, por singelos 15 reais.

Aos poucos, tudo vai ganhando novamente vida. Acendo um incenso para aquecer de novo o lugar, o meu lugar. Olho tudo, vejo os livros que estava lendo antes de viajar, o Dom Quixote que ficou em cima da mesa, e que seria minha companhia nas andanças. O primeiro banho em casa, com aquela água que parece já conhecida. Depois, comer algo. Ver que Rosa colocou um complemento de última hora, para o meu almoço - três pedaços de peixe frito, que adoro. E o feijão de casa parece ter outro sabor. A farinha é a melhor do mundo. O arroz é a maior iguaria.

Depois de comer, olho a criação de galinhas de Renato. Eram três, agora são sete, estão todas bem de saúde, fortes, robustas. Como uma manga caída do pé, jogo as cascas para elas, mas as galinhas nem ligam, desdenham da minha oferta. Vai aqui uma informação essencial, amigos leitores - galinhas detestam casca de manga na hora do almoço. Melhor evitar, para não passar por decepções. Me recupero com um punhado de arroz, só para ver a precisão com que elas circulam pelo quintal, em busca do seu quinhão.

Uma boa conversa com tia, as explicações sobre a viagem, ela quer saber tudo, conto uma parte, porque são muitas histórias, e tenho que voltar ao Recife, para recomeçar a trabalhar.

Saio de casa depois de entregar um pequeno presente, que ela coloca na estante, ao lado de todas as corujas que já comprei, em minhas andanças. Quando vou fechar o portãozinho, ele arranha no mesmo lugar de sempre. Olho para a área, Bam-Bam está lá, me olhando com carinho, apenas com o focinho de fora.

Lembro de uma velha canção do Roberto Carlos, uma em que ele descreve um retorno para casa, que parou em frente ao portão, e o cachorro sorriu latindo. Sempre achei engraçado, isso de um cachorro sorrir e latir.

Mas é isso mesmo, o Roberto Carlos tem razão. Bam-Bam estava sorrindo, e nem precisava latir, para me dizer que eu estava novamente em casa.


Para Flocely, Rosa, Renato e Bam-Bam, claro

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Descobrindo o Rio

Enfim, comecei a descobrir o Rio de Janeiro. Começo a circular impunemente, aqui por Botafogo - mas somente depois de escrever meus dois capítulos obrigatórios, diários, minha missão pós-Cuba. Descubro os meandros, e vou fazendo o meu pequeno presépio, que é o cotidiano.

Encontrei a banca de Jornal, um senhor muito sério, que mal dá bom-dia, mas me entrega o Jornal do Brasil como se eu fosse cliente há anos. Até amanhã, descobrirei o nome e time de coração dele, então, ficaremos amigos.

Como o cafezinho por aqui é uma fortuna (0,80 centavos), vou até o supermercado Prezunique, onde a moça do café faz o melhor café da região, encorpado, forte, e com pouco açucar. Compro uma coisinha aqui, outr ali, e passo no caixa. Fico esperando a vez, para conseguir pagar na dona Aurora, uma simpática senhora que dá bom dia com um sorriso, e vai trabalhar todo o Carnaval.

A última parada é no mate com leite, porque descobri um preço melhor que a da Voluntários da Pátria (2,60).

Há uma legião de ex-alunos morando aqui. Estou na casa de duas, mas já encontrei Zeca, Daniel, e no supermercado, a Flávia Suzuê, salvo engano, porque vivo me enrolando com nomes. Ex-aluno é a coisa no mundo que mais se multiplica e espalha, e é bom vê-los pelo mundo, ocupando espaços e vivendo novas experiências.

Fora isso, descobri um ferro-velho aqui na região de Botafogo, e encontrei uma máquina de datilografia Lettera, deliciosa, por R$ 30,00. Pechinchei, pechinchei, ficou por R$ 15,00. Azulzinha perfeita, ontem comprei fita. Breve, escreverei minhas crônicas na Lettera.

Há dois bares bem perto de casa, sem perigo de o sujeito se perder, em casos extremos. Um se chama Alf (achei o nome péssimo), mas tem um garçom raçudo e cuidadoso, o Saddam. Na outra esquina, um bar que não localizei o nome, mas com uma mistura de garçons indolentes com simpáticos, isso me confunde muito. Nos dois casos, os cearenses dominaram tudo. São donos, empregados, cozinheiros, se bobear, até os clientes. A cachaça aqui é uma fortuna, uma média de 2,00 a dose mais fuleira. O Rio é um péssimo lugar para meus amigos cachaceiros do Recife. Iriam falir.

Fui ao Maracanã, claro, ver uma vitória do Fluminense contra o escrete do Cardoso Moreira. Choveu, tomei banho de chuva. Adoro banho de chuva em estádio. Lembrei do meu pai, Fluminense desde a infância, que me batizou Samarone por causa de um craque do time de 1969. Minha rebeldia e paixão me fez encontra o Santa Cruz, e o céu se misturou com a terra, no vermelho, branco e preto.

Vou por aqui. Vez por outro, encontro com o amigo Edmundo, da velha guarda. Hoje mesmo, estou na casa dele, batucando esta croniqueta de véspera de Carnaval.

Já sei andar de metrô, começo a ver o sistema de ônibus, e outro dia terminei a noite na quadra da Vila Izabel, num show da Martnália. Encontrei um sebo perto do Largo do Machado que quase me acaba o orçamento. O Clamor estava lá por 15,00.

Nos demais, conheci o Grupillo, o primeiro poeta-filósofo do Rio. Botafoguense de coração, fizemos amizade em cinco minutos, faltam somente 85, para completar a primeira partida. Autor de frases célebres que compartilharei na próxima crônica, Grupillo tem uma coisa a mais no caráter - morou no Recife dez anos.

A Mangueira vai homenagear o frevo em seu desfile. Pensei em assistir, mas desisti na mesma hora. No Carnaval, o sujeito vai com tudo, ou é melhor ficar lendo, vendo filme ou escrevendo, como é meu caso.

Vou por aqui, devagar e sempre. Aceito sugestões de botecos e sebos.