terça-feira, 11 de março de 2008

Dois vagabundos na estrada, volume 2 (de um total de 3)


Travessia do glorioso rio Moxotó, separando duas nações

Sim, como eu vinha dizendo, chegamos sem muitos problemas ao rio Moxotó, que é bem franzino, nem parece um rio que separa estados. Novo descanso, água. Foram nove quilômetros, e não estamos com essa bola toda. Pegamos fôlego, voltamos a andar, até que descobrimos um povoado com casas organizadas, uma igreja. É uma tribo que vive ali, informam. Resolvemos ver de perto e beber água.

No caminho, uma subida íngreme, num calor dos diabos, esbarramos com um senhor de uns 60 anos, negro, que tenta se levantar. Está mais bêbado que todos os meus amigos, no domingo de Carnaval. Resolvemos ajudar, levantamos o homem, ele solta um bafo que quase nos derruba. Está suado, creio que bebeu uns dois litros de Pitu.

Chegamos à aldeia Jeri-Pankó, de descendentes dos Pankararu, com Pituta à tiracolo, o que facilitou nossa vida. Aliás, não poderia haver melhor nome para aquele homem: Pitu-ta. As quatro primeiras letras mostravam que ele não estava mesmo para brincadeira.

Bebemos água, e os meninos nos cercam, puxando assunto. Bilico, o mais danado, faz logo amizade, diz que vai ter um ritual indígena à noite, e que poderemos participar. Depois chegam, por ordem de entrada, Dantinhas, Emanuel e Teté. Perguntamos onde tem café, eles dizem que é lá em cima, no bar do Manu, vamos com eles.


Manu está cortando os cabelos de Tio Zé, usando aquelas maquininhas elétricas, nos recebe com simpatia. O corte custa R$ 2,50 e Marai diz que vai raspar a cabeça. Acho uma idéia triste, mas nem discuto, ele tem essas manias. Manu diz que não tem café, mas avisa a Bilico para avisar à mulher para fazer um café para a gente. Sentamos, exaustos. O sol está tinindo. Depois chegam Dimara, Ailton, Micaela, Cleomar, Marcelo e Rosildo, fora o Raí, Idemir e Quesimar. Criança adora gente estranha.

Ficamos conversando, Marai descobriu que seu irmão é indígena, porque o Tio Zé é “ingualzinho a ele”. Ele sempre diz assim, “ingual”, porque diz que a palavra vem de “íngua”. Acontece um monólogo, onde Marai conta a vida do seu irmão, e todos acompanham atentamente. É uma história triste pra chuchu. Daqui a pouco, chega uma garrafa térmica cheia de café, novinho em folha.

Pedimos uma cajuína, não tinha no bar, Bilico pegou o dinheiro e foi comprar. Saiu na velocidade do vento, e pouco depois, estava com uma cajuína de dois litros. Repartimos com a criançada. Marai dormiu um pouco, e apareceu o mesmo Bilico uma corda de madeira, para acordá-lo.


Lá pelas tantas, todo mundo vai pra casa, ficamos ali, esperando o sol maneirar para a última parte da jornada. Tiramos fotos, peço para os meninos escreverem algo no meu diário. Wilardy desenhou uma casa e uma criança, e botou a data. Adenildo (11 anos), desenhou um jogo de dominó. Ailton Amilton dos Santos, de dez anos, desenho uma casa e uma árvore. Distribuí caneta para seis meninos. Fiquei apenas com uma, o suficiente. Às vezes, a gente tem coisas demais, e nem sabe. Manu aparece, pergunta se queremos comer um feijãozinho. Explicamos que estamos em jejum, ele insiste, mas acaba se convencendo que era mesmo verdade. Ele diz que vai ter o ritual à noite, varando a madrugada, chegando à metade do domingo. Se quiser, poderemos participar e até dançar. Adoro rituais indígenas, mas achamos melhor seguir.

Nos despedimos de todos, atravessamos a aldeia, que é arrumada e não tem problemas de abastecimento d´água. A cara dos meninos é boa, os dentes branquinhos, tem uma escola na comunidade. Como vieram oferecer feijão, a fome deve estar fora do cardápio.

Chegamos a Pariconha às 15h30. Pelos nossos cálculos, caminhamos 23 quilômetros. Queremos ir para Delmiro Gouveia, mas é distante. Os motoboy informam que todos os carros já saíram. Se a gente der sorte de aparecer um carro...

Sentamos, aguardamos. Passa um gordinho com um baita cigarro de palha na boca, parecendo mais um charuto. Usa dois relógios, um em cada braço. Marai pergunta a hora. Ele olha o braço esquerdo.

“Três e trinta”.

“E no braço esquerdo?”

“Três e trinta e um”.

A diferença nos impressiona, o gordinho aproveita a deixa e comenta:

“Cortaram a minha aposentadoria, vocês acreditam. É muita safadeza”.

Ficamos indignados. Como é que se corta a aposentadoria de um camarada de uns 40 anos, gordinho, só porque usa dois relógios, um em cada pulso? Olhamos a igrejinha, achamos esse nome da cidade muito esquisito mesmo, Pariconha. Vinte minutos depois, estaciona uma D-20. Nos avisam de longe que vai para Delmiro. Custa R$ 2,00 por cabeça.


Pegamos o carro. Na frente, o motorista e uma mulher. Atrás, eu e Maraí. Vai entardecendo, esticamos as pernas, olhamos a paisagem. Uff, com é bom viajar sem rumo, descobrindo esse Brasil das brenhas.

São 17h05, quando chegamos ao centro de Delmiro. Batemos em duas pousadas, nos olham de cima abaixo, dizem que não têm vaga. Andamos mais 40 minutos, até chegarmos à Pousada das Pedras, que tem vaga. Tomamos banho, trocamos de roupa, e vem de novo aquela exaustão ancestral. Levantamos somente para comprar verduras, uma sardinha. Maraí faz uma salada deliciosa, usando a mesinha do hotel. Conseguimos dois pratos, saboreamos folhas as mais diversas, tomate, cenoura. Fim do jejum.

Iríamos sair para conhecer Delmiro, à noite, mas fomos vencidos. Dormimos sem muriçocas. Vi na TV uma reportagem sobre alimentação. Dizia que o brasileiro desperdiça 39 milhões de quilos de alimentos, um terço do que se produz em todo o território, isso é uma tristeza. Caro leitor, se não for comer tudo, bote um prato menor. Tenho horror a quem deixa comida no prato.

Às 7h55 do dia seguinte, após um bom café no hotel, fomos para o centro, buscar um carro até Piranhas. Passamos pela Lourenço Tecidos, que tem uma marca forte:

“Lourenço Tecidos – diz o que tem, porque tem o que diz”.


São 8h25, e a D-20 sai de Delmiro, rumo a Piranhas. Somos cinco pessoas de cada lado do banco de madeira. A passagem custa R$ 5,00 per capita. No centro do carro, estão as bagagens.

Dez minutos depois, a D-20 para, tem uma multidão querendo entrar. O velho que toma conta do veículo desce, manda botar todas as bolsas no telhado do carro, providencia um banco extra, e daqui a pouco, somos 19 criaturas, espremidas, cada uma com sua história, rumo a Piranhas. O carro voa. Qualquer acidente, não vai sobrar um vivo.

Mas começam os diálogos, as conversas, e a gente na hora esquece a velocidade.

Amanhã, boto o resto da viagem e encerro mais uma trilogia da vagabundagem.

6 comentários:

Mani disse...

Gosto tanto dessas suas andanças, e Maraí, se nao existisse tinha de ser inventado...Um abraço fraterno...

Fred Jordão disse...

Velho Sama, vc está cada vez melhor! E os destinos são sensacionais! Em Piranhas, cuidado! Terra de gente que gosta de contar estórias! Um diz que a verdade é sua, já o outro diz que é tudo mentira. Procure Seu Aniceto e não deixe de ir a grota de Angico. Abs, Jordão

Samarone Lima disse...

Fred, vacilamos. A grota de Angico fica para a próxima.
Seu Aniceto deve ser aquele que mentiu pra valer, em um boteco, junto com "Besouro".
Sama

João disse...

Sama, muito bom!
João Valadares

Anônimo disse...

Sama, essa tua historia de compartilhar as canetas me lembrou uma bela historia de bondade que vi num site e nunca esqueci.... ai vai.... bj manu. Uma Vida Compartilhando Matemática e Bondade
Por Charles Krauthammer
Washington Post Writers Group
Traduzido por Andre Kauffman
WASHINGTON – Uma das mentes mais extraordinárias de nosso tempo “partiu”.
“Partir” é a palavra que Paul Erdös, um genial e produtivo matemático, usava para dizer que
alguém “faleceu”. “Falecer” é a palavra que ele usava quando queria dizer que alguém “parou de
fazer matemática”. Erdös nunca faleceu. Ele continuou trabalhando em matemática,
notoriamente uma disciplina dominada por jovens, até o dia em que ele morreu, sexta- feira 20 de
setembro de 1996. Ele tinha 83 anos.
Mas não era apenas seu vocabulário que era excêntrico. Sua vida foi tão incomum e
improvável que nenhum romancista poderia tê- la imaginado.
Erdös não tinha uma casa, família, posses ou endereço. Ele viajava de conferencia
matemática em conferencia matemática, de universidade para universidade, batendo na porta dos
matemáticos pelo mundo a fora, declarando “Minha mente está aberta” e por um tempo ali ele
ficava. Seus colegas, felizes por terem alguns dias de colaboração conjunta com Erdös – seu
fôlego matemático era tão extraordinário quanto profundo – o acolhiam imediatamente.
Erdös viajava com duas bolsas de mão, cada uma cheia até a metade. Uma tinha apenas
algumas peças de roupa; a outra, publicações matemáticas. Ele não possuía nada mais. Nada.
Seus amigos o ajudavam cuidando dos aspectos mundanos de sua vida – talão de cheques,
imposto de renda, comida. Erdös vivia os números.
Ele parecia fadado a ter uma vida solitária desde o seu nascimento, mesmo dia em que
suas duas irmãs, de 3 e 5 anos, morreram devido a uma doença infecciosa, deixando-o como
filho único sempre em casa e super protegido por sua cuidadosa mãe. Hitler, ao invadir a
Hungria, assassinou o resto de seus parentes judeus. Erdös nunca se casou. Seu obituário no
Washington Post termina de uma forma abrupta e com a triste sentença: “Ele não deixou nenhum
herdeiro imediato.”
Mas na verdade ele deixou: centenas de colaboradores científicos e 1500 artigos com eles
produzidos. Um inacreditável legado em um campo onde uma produção de 50 artigos em uma
vida inteira é considerada como algo extraordinário.
Matemáticos geralmente surgem cedo e morrem cedo. O grande gênio indiano, Srinivasa
Ramanujan, morreu aos 32 anos. O grande matemático francês, Évariste Galois, morreu aos 21.
E aqueles que não morrem cedo no sentido literal da palavra, morrem cedo no sentido de Erdös.
Aos 30, já passaram pelo auge e seus poderes estão em franco declínio.
Com Erdös não foi assim. Ele começou seu trabalho ainda jovem. Aos 20 anos ele
descobriu uma nova demonstração de um clássico e difícil teorema em Teoria dos Números. Ele
permaneceu produtivo até sua morte. De fato, seu amigo Dr. (de matemática, é claro) Ron
Graham estima que em torno de 50 novos artigos de Erdös ainda devem aparecer em publicações
após sua morte.
Erdös era incomum em ainda outro aspecto. A noção do gênio itinerante, totalmente
imerso em seus próprios pensamentos, é um clichê que quase sempre vem acompanhado do
adjetivo “anti-social”.
Erdös não era assim. Ele era gentil, amável, aberto e generoso com os outros. Ele
acreditava que fazer matemática era uma atividade social. De fato, ele foi o mais prolífico
colaborador matemático da história. Centenas de colegas que publicaram com ele ou trocaram
idéias com ele, podem relembrar algum insight ou grande revelação após uma tarde com Erdös e
sua mente aberta.
Sua sociabilidade o põe a parte dentre os gênios matemáticos. Andrew Wiles, por
exemplo, recentemente conseguiu fama por ter demonstrado o Último Teorema de Fermat – após
ter trabalhado por 7 anos isolado em seu sótão.
Mas Erdös não apenas compartilhava sua mente genial. Ele também compartilhava o seu
dinheiro. Parece até cômico dizer isso, já que ele possuía tão pouco. Mas na verdade, é muito
tocante. Ele tinha tão pouco porque ele doava quase tudo o que recebia. Ele colaborava com
qualquer tipo de caridade que passasse pelo seu caminho e era receptivo a qualquer causa em que
pudesse de alguma forma ajudar. Na Índia, ele certa vez doou os salários de algumas aulas que
ele havia lecionado para a pobre esposa de Ramanujan (que ele nunca conheceu). “Eu ainda era
um estudante em Londres”, lembra-se D. G. Larman, “quando Erdös veio nos visitar por um
tempo. Após receber o salário de seu primeiro mês em nossa universidade, passávamos por uma
estação de metrô quando fomos abordados por um mendigo pedindo uma pequena quantia de
dinheiro. Erdös retirou uma pequena porção de seu salário - basicamente o necessário para cobrir
sua alimentação - e deu o resto pro mendigo”. Quando ganhou o prestigioso premio matemático
“Wolf Prize”, dos $50.000 a que tinha direito Erdös ficou com apenas $700, doando todo o resto.
Alguns anos atrás, Graham me conta, Erdös ouviu falar de um jovem e promissor
estudante de matemática que pretendia entrar em Harvard, mas não tinha o dinheiro necessário
para tal. Erdös arrumou um encontro com ele e o emprestou $1000 (o total que Erdös carregava
consigo normalmente era em torno de $30). Erdös disse ao jovem que ele não tivesse pressa e
que poderia pagar o empréstimo quando ele fosse capaz. Recentemente, o jovem matemático
ligou para Graham (já que Erdös estava sempre viajando) para dizer que já tinha se formado em
Harvard e agora estava ensinando em Michgan e finalmente poderia pagar o empréstimo. Ele
queria saber qual o juros que deveria ser aplicado a dívida e como ele deveria efetuar o
pagamento.
Graham consultou Erdös. Erdös disse: “Diga a ele para fazer com os $1000 o que eu fiz.”
Realmente, não deixou herdeiros.

Anônimo disse...

Querido Samarone,

impossível não te chamar de querido. :) Amei a crônica, poxa que saudade de Delmiro, a terrinha onde nasci, vivi minha infância, adolescência. O lugar onde me abasteço de lembranças boas. Piranhas é uma cidade linda, do alto parece um presépio. Em dezembro estive lá, fiquei sentada em um bar na beira do "Velho Chico", extasiada com a sua beleza. Pena você não ter ido a Angico. Ah, ir a Piranhas em uma D10 é realmente uma aventura. Putz, como não ser viciada em seu blog!!. Muita paz.

Beijo na alma.