sexta-feira, 14 de março de 2008

Dois vagabundos na estrada (epílogo a contra-gosto)

O carro deslizou suave até Piranhas Nova, onde estava acontecendo a feira semanal. Feira no interior é aquela maravilha. Roupas, sapatos, sandálias de couro, caldo de cana, lamparinas, fora as comidas todas, uma fartura de cores, sabores, fruto de mãos que cuidaram da terra, plantaram, olharam o céu, à espera das chuvas.



Maraí consegue comprar seu fumo, damos uma reparada em tudo, até que chegamos à barraca do caldo de cana. Não digo nada, o dono do negócio, seu Manuel, pergunta se somos do exterior, digo que soy cubano, e Maraí, já sabendo como funciona nossa lógica do brincar com a vida, entra no jogo.

Seu Manuel fica louco de alegria, me estende a mão.

“E como está Fidel?”

“Mal, muy mal, enfermo”.

Maraí faz a tradução.

“Ele disse que Fidel está muito doente”.

O negócio começa a ficar sério quando ele chama sua esposa, Vânia, e o filho, Paulo.

“Ele é cubano. Disse que Fidel está morrendo”.

Olha para mi e completa:

“Eu sempre quis conhecer um cubano”.

Marai faz a tradução. Falo sobre a vida difícil no meu país, acho o Brasil imenso, Beberico o caldo de cana, que está delicioso. Resolvemos tirar uma foto. Seu Manuel está todo orgulhoso, junta a família. Marai fica demorando para tirar a foto, fica fazendo o foco, quase digo para ele deixar de frescura, mas Seu Manuel iria perceber que não sou cubano coisa nenhuma, fico calado.

Saímos dali para Canindé, única cidade da região que tem Banco do Brasil e Bradesco. Damos alguns passos, e vem um sujeito numa motoca, com uma mulher na garupa.

“Vocês são hippies?”

Explicamos que estamos mais para vagabundos que para hippies, e pelo que sei, hippie sempre vende uns badulaquezinhos. O sujeito desce da moto, se chama Carlos, é professor de química, a mulher se chama Carmem. Achou a gente interessante, resolveu conversar. Perguntou o que a gente achava da transposição, e como a maior parte do povo nordestino, não temos opinião formada. Sabemos apenas que há muitos interesses por trás. Carlos diz que era assim também, até apoiava a transposição, mas depois que conheceu uns promotores ligados ao meio-ambiente, mudou radicalmente, e agora faz campanha contra.

“Vi uma apresentação de um promotor, com todos os dados, mapas. Essa obra vai beneficiar justamente os mais ricos, os que têm terras”.

Conversamos um pouco, Marai, que gosta que só do Lula, questionou se um presidente nordestino iria fazer uma mazela com a região, Carlos disse que governantes fazem besteiras e só depois percebem, depois pediu para tirar uma foto com a gente. Decidimos que já bastava do assunto transposição, resolvemos botar o pé na estrada de verdade.

É uma caminhada e tanto, num sol de queimar o couro. Quando percebemos que o caminho é muito mais longo, passa um caminhão, pegamos carona, vamos na boléia, com o vento no focinho, aquela sensação de liberdade completa. Não temos horários, direção exata, o mapa fica geralmente na bolsa, não temos bússola, apenas vamos, ao deus-dará. Se dependesse da gente, o turismo mundial seria uma grande festa, de erros e tentativas, descobertas e espantos, não essa chatice de guias, museus, lugares marcados, mas isso é coisa para outro dia.



Foi uma sorte, a carona. Canindé fica a muitos quilômetros de Piranha, e é uma longa subida, levaríamos horas nesta pisada. Sem perceber, estamos na hidroelétrica de Xingo.

Tiramos dinheiro em Canindé, depois voltamos a Piranhas Nova. Vamos atravessando a rua, um cara me olha e diz:

“Eita, é Moisés, e vai abrir o Mar Vermelho”.

Vamos caminhando para Piranhas, que julgo ser a velha, é outra longa caminhada, mas é uma descida. Pocot, pocot, vamos os dois em silêncio, até que Piranhas aparece, de longe, e já percebemos que a cidade é um pequeno deslumbramento, uma mistura de Olinda com certas ruas do Poço da Panela. Maraí está tão exausto, que me encarrego das fotos, plec, plec, plec.



Atravessamos a cidade, chegamos às margens do Velho Chico, onde funciona uma verdadeira praia. Pegamos uma sombrinha, depois mergulhamos os pés na água, eles fazem chhhhhhh, porque estavam em brasa. Mergulhamos, nadamos, parecemos dois meninos.



Ali, depois de uma conversa fiada, descobrimos que a caminhada tinha chegado ao fim. Estamos exaustos, mas felizes. Terminamos nossa quinta expedição. Descobrimos que a vagabundagem vale a pena. Nadei vários metros no meu clássico craw, depois encontramos a pousada da Vanda, uma pequena jóia, meio abandonada à beira do São Francisco.

Vanda está desgostosa, pensa em vender ou arrendar a pousada, se eu tivesse dinheiro, comprava na hora. O último gerente vivia cheio das garapas, afastava os turistas. As plantas estão secas, há um cachorro sonolento, e duas mulheres na rede. Uma delas é esposa de Júnior, o novo gerente, que ganha R$ 200,00 por mês, mas não paga aluguel, luz, água. O rapaz é diligente, atencioso, providencia pratos, libera a cozinha, mas infelizmente torce pelo Flamengo. Tem uma filha de três meses, que está mamando. Marai faz duas suculentas saladas, que comemos num pátio belíssimo, vendo o rio por ali. Ah, meus amigos, feliz de um povo que tem um rio São Francisco cruzando seu território, abençoando pessoas, animais, plantações, embelezando os olhos, enchendo a vista de abundância, no mormaço da tarde...



Cochilamos. À noite, demos uma volta por Piranhas. Meu deus, que cidade linda, tragicamente abalada pelo som dos forrós, que têm como refrão “e tome! Tome! tome!”, ou pérolas como “beber, cair, levantar”. Paramos num boteco, o Seu Vital de Piranhas, bebemos o café mais aguado do globo terrestre. Conversamos longamente com Besouro e dois amigos. Paulo é o dono da venda, diz que até 64, a cidade era uma maravilha, mas o golpe arrasou tudo, porque tiraram os trens.

“Aqui, filmaram Bye Bye Brasil e Baile Perfumado”.

Ganhamos aulas de história, começando da época de Lampião e seus camaradas.

Seguimos caminhando, esbarramos no mirante, e no meu clássico medo de altura. Resolvemos encarar. São 300 degraus, mas estou decidido a não olhar para trás nem para os lados. Lá em cima, está escrito: “Homenagem do povo do século XIX ao povo do século XX”.

Sentamos nas cadeiras do restaurante, ficamos vendo a lua minguante refletir sua luminosidade no rio, que se torna um imenso contorno prateado.

“Lindo, lindo, lindo”, fica repetindo Marai.

Na volta para a pousada, combinamos de assistir “Bye Bye, Brasil”, e “O Baile Perfumado”.

Teria mais uma postagem sobre os infortúnios do retorno, mas penso que meus 33 leitores estão cansados de tanta caminhada. Aguardemos.

Para Carol Bolinho, caminhante

8 comentários:

Anizio Carlos da Silva disse...

Samarone, pra quem gosta de livros agora conta com sebos virtuais:

http://jc.uol.com.br/2008/03/04/not_162442.php

priscila pedrosa disse...

olá

sou uma leitora pseudo-assídua.

Gosto de ler seus textos porque sinto que as palavras se sentem à vontade nele.
É como se elas tomassem assento e bebessem café, enquanto conversam um pouco. Essa sensação me vem quando leio os poemas de Manuel Bandeira, as frases são levinhas, levinhas.

bem, foi um elogio. Continue escrevendo.

abraços
Priscila pedrosa

Anônimo disse...

Muito boa a série, cubano paraguaio. E essa foto do velho Chico está uma beleza. Essa dica de Anízio é massa. No site tem inclusive várias ofertas do Clamor. Mas vai uma advertência: o negócio vicia, porque vc encontra coisas valiosas a preços camaradas.
JULIO VILA NOVA

Mani disse...

Ai, só tive uma certa dó de seu Manuel tão contente de conhecer o "cubano"...

Fenrisar disse...

This comment has been removed because it linked to malicious content. Learn more.

Fã!! disse...

Querido Samarone,

impossível não te chamar de querido. :) Amei a crônica, poxa que saudade de Delmiro, a terrinha onde nasci, vivi minha infância, adolescência. O lugar onde me abasteço de lembranças boas. Piranhas é uma cidade linda, do alto parece um presépio. Em dezembro estive lá, fiquei sentada contemplando a beleza do velho Chico. Pena você não ter ido a Angico. Ah, ir a Piranhas em uma D10 é realmente uma aventura. As fotos estão maravilhosas. Putz, como não ser viciada em seu blog!!. Muita paz.

Beijo na alma.

naire valadares disse...

Mais um livro, sem dúvida.
Bela narrativa, dá vontade da gente fazer o percurso inteirinho com você, de verdade. Você e suas histórias de estrada. Estrada da vida, "mui rica".
Beijo nas mãos.
Naire

Guerreiro disse...

Samarone.Repare quanta coisa arretada de bom em minha vida.Sou Tricolor do Arruda desde 1955,pernambucano de Olinda,moro nas margens do Rio São Francisco,mais precisamente na histórica Penedo Alagoas.Através do blog do Santinha descobri seu trabalho que acompanho faz um bom tempo.Faço-lhe um convite.Venha até Penedo pra passear no rio, ir até a foz,comer siri "dispinicado" em Piaçabuçu,"bacalhau penedense"na Rocheira e ostras na rodoviária.Será muito bom recebê-lo!!!!!!!.Mais informações minhas converse com Homero Fonseca e pergunte por Fernando "Cascâo".Saudações tricolores!