quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

O elefante azul

O dia mais importante da minha infância era em algum momento no início de julho, no início dos anos 70, quando meu pai botava os três filhos no banco traseiro de um Fusca cinza (IZ-3059), no banco de trás, a esposa, dona Ermira, no banco da frente, e saía de Imperatriz, no Maranhão, para o Crato, no interior do Ceará. Não sei a distância, mas sei que a viagem era uma epopéia, um caso de heroísmo familiar, atravessando estradas empoeiradas, esburacadas ou cheias de lama, com destaque para o Fusca, um ser indomável, que parecia flutuar no lamaçal, e sempre deixava tudo para trás, até chegar ao destino final.

Lembro que meu pai fumava Hollywood e nunca cansava de dirigir, botando o dedo no pára-brisa quando passava um caminhão e soltava pedrinhas. A gente, quando é pequeno, acha que o pai é incansável, mas às vezes é mesmo inalcançável, são coisas distintas.

Minha madrinha, Piinha (é assim mesmo, eu nunca soube o nome exato), me recebia com um sorriso maravilhado, sem contar que era ela linda mesmo, e eu ficava pasmo de ser afilhado daquela musa. Sei que ela era casada com Paulo César, mas de Paulo César não lembro nem da voz.

Passávamos um mês no Crato, durante a “Exposição”, e tudo era bom e simples. Meu pai ia para Seu Almir, que era o bar de Seu Vital do Crato, e lá encontrava seus amigos boêmios, igualzinho ao que faço hoje, a mesma conversa fiada, só faltava o dominó. Minha mãe ficava com minhas tias, e a função era simples: os homens bebiam, as mulheres conversavam e faziam outras coisas. Eu tinha muitos primos no Crato, e estão todos espalhados pelo Brasil, cearense é uma raça que gosta de se espalhar pelo mundo.

Uma vez, quem vinha na frente era o meu tio César, que hoje mora em Imperatriz, e é casado com a tia Fátima, irmã do meu pai. Não sei porque tio César estava no lugar da minha mãe, mas são coisas da vida. Lá pelas tantas, o meu tio César apontou para uma árvore grande, numa estrada interminável, e disse que tinha visto um elefante azul no alto.

Olhei para a árvore e também vi o elefante.

“Também vi”, comentei com o tio, do banco de trás.

Meu pai me olhou e perguntou se eu tinha visto mesmo um elefante azul no alto de uma árvore.

“Vi sim, mas já passou, ele está lá atrás”, respondi.

Meu pai me deu um beliscão na barriga que doeu pela infância inteira, atravessou a adolescência, ficou latejando pela idade adulta.

“Deixa de mentir”, disse, depois do beliscão.

Lembro que fiquei amuado, triste, e naquele momento, aos seis ou sete anos, desisti de ver qualquer coisa que não fosse real, palpável, contável e definitiva. Passei o resto da viagem triste, solitário e final. Ali, acabou a infância. É muito ruim quando a pessoa sabe exatamente quando acabou a infância: no meu caso, numa estrada Crato/Imperatriz, em 1976, no banco traseiro de um Fusca, após um beliscão.

Desconfio que meu pai me impediu de ver o que a imaginação mandava, e demorei muito tempo para me recuperar. Fiquei preso à realidade como um sonâmbulo no meio da noite.

Mas hoje, me deu uma saudade imensa daquele elefante azul, no alto de uma árvore, na metade dos anos 70.

Tenho uma dúvida secreta se vi realmente o tal elefante, porque já estava meio escuro, mas é uma dúvida que não é suficiente para invalidar a lembrança.

Essa é uma vantagem de escrever. Posso falar sobre um elefante azul, que vi na infância, sem medo de levar um beliscão.

Escrever é também uma forma de exercitar o perdão.

Então, meu velho Zé Vicente, aceite meu elefante azul que já esqueci o beliscão.

12 comentários:

Anônimo disse...

adorei

Mariana disse...

Sama,
Tou aqui quase chorando com a tremenda falta de infância do velho Zé Vicente. Minha mãe via comigo tubarões amestrados, formigas gigantes, jumentos cor-de-rosa. Tive pena do menino que você deixou de ser, mas ainda mais pena do pai que pelo jeito ele não foi. Ainda bem que o beliscão doeu, mas não te tirou de prumo, e mesmo capenga e dolorido você é capaz de andar pelo mundo enxergando belezas reais e imaginando outras tão bonitas quanto. Um beijo.

Mariana disse...

Obrigada, e outro beijo

http://marimesq.blogspot.com/2006/01/em-memria-de-um-elefante.html

Anônimo disse...

Lembrei das viagens Recife/Maceió que fiz por muitos anos. Ia de ônibus, na maioria das vezes deitada no colo da minha avó e com uma laranja cravo no nariz (o grande segredo pra não enjoar durante as quatro longas horas do trajeto).

Também é dessas horas que guardo as grandes lembranças da minha infância. E foi olhando pro céu que vi um mundo inteiro se formar, todos os bichos, pessoas e coisas que só eu via. Quando eu apontava, voinha sempre dizia: "é mesmo, que lindo!"

Passei um tempão sem enxergar nada diferente das outras pessoas, e esse ano, voltando de Arcoverde, vi de novo um peixe no céu. Quando eu contei, as meninas resmungaram e voltaram a cochilar no carro. Mas eu vi!

Acho que quando se vira adulto, se perde toda a credibilidade para fantasiar. E talvez teu pai já te achasse homem demais pra ver coisas no céu... Pra mim, nunca é tarde pra ver além!

Beijo enorme, do tamanho da saudade!

Mack - a professora de blog

Anônimo disse...

Querido Samarone,
Quando criança eu desfrutava de uma uma forte ligação com o céu. Entre 5 e 6 anos tinha certeza... eu era uma criança cheia de certezas... de que se estivesse no topo da montanha poderia tocar o azul do céu e quando conseguia convencer alguém a me acompanhar até o topo para confirmar minha certeza e me deparava com aquela distância incompreensível ficava a fitar a montanha seguinte e afirmava... – Daquela ali com certeza se toca no céu!
Na verdade o meu desejo de tocar naquele azul infinito era muito mais forte e maior do que qualquer racionalidade, qualquer barreira translúcida. Nesse período tinha também profundo interesse em desvendar as formas das nuvens... por vezes passava umas boas horas, deitada só vendo as coissa que formavam. Mas bom mesmo era fazer isso em companhia... assim para conseguir uma pessoa que se ocupasse de verificar junto comigo os formatos das nuvens eu convidada minha irmã, irmão ou qualquer outra criança que por ali estivesse para "expectar as nuvens". Haviam tantas coisas para ver no céu: nuvens, passaros, calmaria, velocidade, fusão de cores, avião... ainda penso assim por isso preservo o meu amor pelo céu. Adoro as nuvens e suas formas, percebo todas as luas da semana, gosto muito depois de uma caminhada de encontrar um local onde possa me deitar e ver o mundo girar.
Um grande beijo,
Eu

Adri disse...

Logo hoje que eu estou assim, pretérita, retroativa... sacanagem, Samarone Lima, sacanagem...

Anna disse...

Sama, meu filho,
Apesar de nunca mais ter-lhe falado eu continuo lhe lendo e me emocionando. Seu relato me fez lembrar das férias que passava em Fazenda Nova quando não existia Nova Jerusalém, nem luz elétrica e às 22 horas o motor que produzia luz era desligado. Lembrei também dos circos de lona furada que eram armados no final da minha rua que só me permitiam assistir matinês mas de noite ouvia todas as piadas dos palhaços (sempre adorei palhaços)e as músicas que as cantoras de rádio apresentavam. É interessante como uma recordação chama tantas outras... Mas seu pai lhe beliscou porque não permitiram que ele visse elefantes azuis, ou fadinhas, ou gnomos... Coitado, não teve o direito de ser criança. Ainda bem que o beliscão não matou essa criança linda que ainda hoje existe a nos encantar com o nome de Samarone Lima. Parabéns!

Fábio Costa disse...

bicho, se aquela coleção "para gostar de ler" ainda existir, cê vai ser o próximo acionista...

que texto do caralho é esse!

a propósito, quando é que o estuário (livro) chega aqui em salvador?

abraço saudoso,

fabao

jamille disse...

Sem palavras, Sama, pra dizer o quanto teu texto é belo. Os pais não sabem o quanto suas palavras podem marcar as ciranças. Às vezes uma coisa aparentemente simples, mas que nos machuca tanto.
Ainda bem que crescemos e podemos reavaliar as situações e pedoar.
Um beijo com sabor de uma infância reinventada!

Ivana de Souza disse...

Porra, muito bonito isso.
Pelejei pra lembrar quando a minha foi-se, mas não sei...

keila aquino disse...

Sama... fiquei realmente emocionada! Vc com sua sinceridade e transparência nas emoções...
Ainda bem que vc resgatou essa criança que não pôde ser na época certa!! Mas o que vale na vida é isso: não deixarmos a nossa criança interior desaparecer!!!
Grande beijo no seu coração!
Keila

Aline disse...

Singelo...
E quantos beliscões já levamos??