terça-feira, 11 de julho de 2006

Sobre livros e gatunagens

Como velho marujo gatuno de livrarias em todo o território nacional, com algumas incursões bem sucedidas também no exterior, deixo a tradicional crônica de lado e mando o recado – amigo leitor ou leitora, deixe tudo que está fazendo, vá a uma livraria decente (que no Recife são poucas) e compre logo, antes que acabe, o fabuloso “Três Cavalos”, de um italiano chamado Erri de Luca. O livro é fabuloso, intenso, doce, cortante, mágico, tudo o que a boa literatura tem.

Antes que o politicamente córrego passe a atuar, informo que parei minha carreira de confiscador de livros, desde uma péssima atuação em um lançamento na Livraria Cortez, em São Paulo, ao lado da PUC. Estava lá uma grã-finagem intelectual, naquele vinhozinho básico e conversa cabeça, quando fui inventar de surrupiar o Tchecov, creio, “A dama e o cachorrinho”, algo do tipo, mas o raio do vendedor percebeu e veio em cima. O fato é que faltou pouco para a noitada terminar numa delegacia, o Gustavo que não me deixa mentir. Um vendedor maluco ficava repetindo “tá me tirando, meu, tá me tirando”. Eu estava tirando era da livraria, ele é que não entendeu nada.

Também pudera. Com esse negócio de botar alarme em todos os livros, fica desagradabilíssimo arriscar sair assoviando “la vie em rose” com um livrinho intocado, se à saída, vai ter aquele “piiiii piiii piiii” que faz a livraria inteira olhar para você, com olhares acusativos, sentenças já assinadas. Na Livraria Cultura aqui do Recife, pra piorar, ainda tem um baita de um segurança na entrada, com fone de ouvido e tudo, escutando cada pensamento seu. Pior: tem um ex-aluno, o Mauro, que trabalha lá, e fica mal um ex-professor universitário tentar malandragens. Já pensou, o Mauro dizendo "poxa, Sama, nunca pensei". Professor tem este negócio careta de “dar bom exemplo”, enfim.

Com o avanço da tecnologia e o aumento da repressão aos gatunos de livrarias, tive que modificar meu perfil de abordagem. Ultimamente, tenho atuado nas bibliotecas dos amigos mesmo, enquanto os amigos vão buscar um café, uma água, vão botar um CD ou vão ao banheiro, porque meus amigos costumam ir ao banheiro em algum momento do dia ou da noite. Já trouxe de volta para casa três “Zé”, meu primeiro livro, e dois “Estuário”, meu terceiro livro, por sinal esgotado até a tampa. Como nenhum dos amigos percebeu até agora, desconfio que compraram por obrigação mesmo, só para “dar uma força”, como dizemos por aqui, no linguajar popular. Ah, também peguei um “Clamor”, meu segundo livro, da casa de uma amiga, que espero não ser leitora deste blog.

Se você estiver lendo este texto e resolver conferir na sua biblioteca, pode se considerar meu amigo. Se o livro sumiu da sua prateleira, relaxe, que está comigo, devolvo sim. Estou recolhendo minha vasta obra, para revender na Feira do Livro do Recife, que se aproxima. Quem disse que o autor não pode reciclar sua obra?

As vantagens de surrupiar livros dos amigos são muitas. Primeira: se ele descobrir, não vai querer registrar um B.O, na delegacia mais próxima. Segunda: os amigos mais bacanas têm livros a boléu, e nem reparam se faltar um ou dois. Regra básica neste assunto é não levar, na bolsa, aquele livro querido, do autor preferido, porque ele vai notar logo. Terceira vantagem: se ele perceber, dá para devolver e dizer “era uma brincadeira, Pedro Bó”.

Agora eu não sei mesmo onde estava com a cabeça quando levei de lembrança aquele “O homem sem qualidades”, do Robert Musil, um tijolo pesado pra chuchu. E pensando bem, aquela gatunagem em uma livraria de Buenos Aires poderia ter me rendido uma prisão em pleno Mercosul.

Bem, vou terminando por aqui. Hoje devo encontrar meu amigo Gustavo, outrora um David Cooperfield, capaz de fazer bibliotecas sumirem em sua pequena bolsa. Como agora virou editor, creio que está comportado. Vamos tomar um café e falar sobre nossas presepadas. Relembraremos aquele livro grosso que tomei emprestado do Fran’s Café, há seis anos, numa madrugada fria, e nunca li, nem devolvi.

Essas besteiras que a gente faz quando é adulto.

Eu iria falar sobre o livro do Erri de Luca, que é uma paulada, lindo mesmo, mas me distraí, entre uma confissão e outra, mas acabei me divertindo um pouco, e fica por isso mesmo.

Ah, o Tarcisio parece que vai botar Estuário para vender no site da Livro Rápido (www.livrorapido.com.br). Só acredito vendo.

8 comentários:

jamille disse...

Se você tivesse escrito essa crônica antes, eu teria pensando duas vezes antes de te emprestar meu livro favorito e antes de devolver o que você me emprestou! Cara-pálida!

beijo

fabiana disse...

Saminha, na minha casa tu so entra se ficar batendo palmas sem parar, pra eu ter certeza do que tuas maos tao fazendo...
cheiro.

Julo Vila Nova disse...

Sama, no meu período de UFPE (estudava à tarde) trabalhava como motorista de táxi de manhã, e uma das muitas histórias que guardo dessa época é de uma passageira, uma Senhora de meia idade, que levou os meus livros (que eu ingenuamente depositava embaixo do banco de passageiros, veja só!) de Literatura Brasileira, incluindo uma boa coletânea de Drummond. Naquele dia, quando cheguei para a aula, cadê os livros ? Na hora, minha reação foi de perplexidade e riso, até uma certa absurda pequena alegria ("espero que ela leia, ou que pelo menos tenha uma filha linda que se interesse pela poesia por causa do pequena delito materno"). Fiquei puto mesmo porque ela levou também meu caderno, com muitas anotações.

CAPILÉ disse...

Sama, tu conheces o bar de Djalma lá em Casa Amarela? vc segue pela estrada do arraial e antes do sinal do banco Bradesco entra à esquerda, é no final dessa rua. Lá além da simpatia de Djalma, vc encontra uma maravilhosa moela, guisado, sururu, pastéis...tudo com aquele prrecinho camarada. Quando puderes aparece por lá.
ps: Djalma não abre aos domingos e nem nos feriados (ele tanbém toma a dele...) abração...

6:09 PM

Sonia disse...

Ainda bem que você mora em Recife, meus livros ficam a salvo.

Cadú disse...

Sama meu veio!

Estou atualmente morando em Roma, mas com passagem marcada para retornar (graças a Deus!) ao Brasil. Pedi a minha mãe que procurasse para mim os seus livros. Sou um leitor assiduo do Estuario e também do blog do Santinha. Me diga como faço para conseguir seus livros. Me diga em que livraria posso achar.. Se por acaso não estiver mais a venda nas editoras, me arranje uns exemplares de segunda ou terceira mão. Desde já agradeço a informação. Caso consiga retornar ao Brasil em agosto, quero estar na comemoração da Sanfona Coral... Desde já, um forte abraço. Meu email: ceccn@hotmail.com...

Cadù

Tiago disse...

O Clamor você não consegue mais "gatunar" de mim... Ele já está devidamente guardado em minha memória, como um dos livros mais sinceros que já li. Abraços!

cometaurbano disse...

Sama,

posso fazer a divulgação do meu blog aqui? Se a resposta for afirmativa avise aos seus leitores que escrevi um texto novo no http://aquiaa.blogspot.com/
Abração do mano PH