quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Mudanças

Não sei exatamente quando chega a hora da mudança. Em algum momento, a pessoa vai de uma casa para outra, ou vai de um apartamento para um sítio, de uma cidade para outra. Em algum momento, os filhos já não estão, a casa fica imensa, aqueles quartos, antes plenos de aleluias, se enchem de vazio, é preciso sair. Em algum momento, saiu a aprovação para o Mestrado, e é urgente começar de novo. Uma determinada hora, a dona do apartamento pede de volta, ou a família cresceu, é preciso novos espaços.

Chega o momento de buscar outras paredes, pendurar fotos em outros lugares, entregar as plantas queridas para o vizinho cuidadoso. Deixar para trás aquele quintal com uma mangueira, botar os livros dentro de caixas, pensar pela milésima vez que está guardando cacarecos demais, e esquecer disso pouco depois.


Surgem os aprendizados. A geografia da nova casa precisa ser percorrida sem pressa, de preferência com o espaço vazio. É preciso sentir o cheiro, apalpar alguma brisa, olhar onde o sol bate. Percorrer descalço o quarto novo, o corredor, inaugurar janelas. Sim, é preciso muito cuidado com a inauguração das janelas. Imaginar onde ficará aquela moldura de algum Carnaval passado, quando todos estavam felizes, no tumulto do frevo. É preciso acender um incenso e começar a chegar mansamente.


Não, amigos, não concordo com essas mudanças que chegam com o caminhão brusco e os homens que mal falam, suados e apressados. Eles carregam caixas, nunca as nossas coisas. Levam, esbaforidos, uma caixa de livros, nunca "a" caixa, com nossos poetas prediletos. É preciso um contato íntimo, uma celebração. Ver a cozinha, tomar um café inaugural, dar uma espiada no quintal, ver onde bate a sombra, onde cresce o sol, obseravar quais as plantas poderão ser levadas. Usar o sanitário, em silêncio, lembrando que durante algum tempo, este será o novo trono. Observar quietamente os azulejos, se estão nos conformes. Nunca, mas nunca, ficar no impasse das comparações.


Só depois, quando algumas ternuras estiverem vingando, passar para a transferência dos móveis, livros, discos, essas coisas que vamos juntando durante a vida. O fenômeno da ocupação. Redesenhar a geografia, repovoar os vãos, encher de vida o silêncio e a quietude. Colocar, na entrada, aquele singelo, esperançoso e por vezes patético "Nesta casa mora gente feliz". Por último, chamar os amigos, os parentes, e celebrar. Aqui recomeço minha jornada pelo mundo. Aqui descansarei. Aqui me recolherei do tumulto do mundo. Que os deuses nos permitam bons vizinhos, e que o cachorro do lado não seja daqueles que latem o dia inteiro.


Mudança é parte do meu caráter, das minhas células, é uma herança genética, espiritual, familiar. Minha família se mudou muitas vezes. Morei em várias cidades, em muitas casas diferentes, em geografias as mais diversas. Sou de mundos. De uma casa sentimental no Crato da minha avó, a uma residência bem mais ampla, em Imperatriz, no Maranhão. De umas repúblicas bolorentas, no centro do Recife, à uma bucólica casa, no Poço. Alguns apartamentos em São Paulo, uma casa numa rua sem saída no Cabo. São muitas as moradas do ser.


Aprendi, desde cedo, a me despedir sem dores, sem saudosismo, aceitando o novo destino. Outro dia, descobri que meu avô era um andarilho, e morreu no Rio de Janeiro, sabe-se lá como, após mudar mais uma vez.


Às vezes tenho uma inveja sentimental distante de quem nasceu e morou no mesmo lugar, criou a tal raiz, não consegue se ver em outro lugar, bate no peito dizendo "aqui é minha terra". Cinco minutos depois, a inveja já passou e fico lembrando das aventuras, dos lugares que já vivi. Minha terra é o planeta, que leva o mesmo nome.


Algo se perde, em cada mudança. Algo se quebra. Algo não encaixa mais na nova casa, e parece não se encaixar na própria vida. O espelho do antigo banheiro não cabe no novo. A estante imensa fica fora de ordem na nova biblioteca. Mas é preciso deixar, aceitar. Algo também parece compensar, de alguma forma. Uma vista maravilhosa às vezes não existe no novo lugar, mas tem um vento formidável, que antes não estava. O jardim imenso de outrora é trocado pelo silêncio profundo e inspirador, em plena tarde. Essas compensações da vida, que são muitas, o tempo todo, e às vezes nos falta um olhar mais acolhedor.


Para o lugar que fica para trás, é preciso somente uma cerimônia: a do agradecimento. O incenso derradeiro. Percorrer os espaços lentamente, caiando todas as paredes com a precariedade da memória. Aqui amei. Aqui escrevi meu trabalho da faculdade. Aqui fizemos muitas farras. Aqui vimos os jogos da Copa. Aqui recebi aquele telefonema tão triste. Aqui a Lulu aprendeu a dizer “água”, enquanto aguávamos as plantas. Aqui, nesta rede, li pela primeira vez o Guimarães Rosa. Ah, a memória, esta criatura vertical e imperecível...


Vou aqui, pacientemente, embalando minhas caixinhas...

ps. a partir de hoje, este blog passa a ser publicado também no belíssimo www.mutuca.com


17 comentários:

Anônimo disse...

Samarone
Linda, linda, linda a crônica... Uma das tantas especiais que já escreveu... Estou curiosa para saber o que está acontecendo por aí, mas com o tempo, suas palavras revelarão, não?
Grande abraço, boa mudança e que o futuro seja muito especial.
Priscila

Anônimo disse...

Nem sabia que estavas saindo do poço.Boa sorte na tua nova moradia!!! Penso que mudanças fazem parte do crescimento pessoal, pois é preciso se lançar em busca do novo e do que nos faz feliz.
Um abraço

Mariana disse...

Vai ficar no Recife mesmo, né, menino? Nunca te vejo, mas gosto de saber que existe essa possibilidade...
Beijo.

Anônimo disse...

Sama,
Do mesmo jeito que vc me emprestou o seu anjo de proteção me empresta esta coragem para mudar. Morei 27 anos numa mesma casa, há três moro em outra. Hoje, ando com uma mala de mão descansando em novos ninhos. Quando tudo passar, também baterei asas. Boa sorte!
Beijo
Naire

Anônimo disse...

Viver lembranças, memória marcada pela ternura e pelos detalhes, carinhos.
Viver plenamente, renovando-se sempre.
Viver histórias e depois contar, perpetuando momentos e vida.
E assim, ser tú verdadeiramente.

Muita, muita, muita sorte !!!
beijos
Bianca

Anônimo disse...

Fiquei chocada, abestalhada, querendo ler rápido para chegar ao final e ter certeza... e também para sair correndo e bater na sua porta... e fui, mas você tinha acabado de sair. Peguei o quadrinho com a foto-pintura da casa, que agora vai ser mais útil que antes, para a atrasada troca cultural. Pôxa Sama, não vá embora não. Em todo lugar tem uns sapos pra gente engolir. A gente conversa mais no Vital, daqui a pouco. Beijo, Clarissa.

fabiana disse...

Eita.
Acabo de me mudar também!
Quero dizer, há seis meses passo pela mudança de casas.
E só lendo sua crônica percebi o quanto esse tempo foi útil!
Que bom que demorou tanto!
E que bom que já quase chega ao fim...onde moro é sempre minha casa. Essa deve ser a décima da minha vida, pelas contas...
Boa casa, pra ti!

fabiana

Anônimo disse...

Samarone,

Muito linda a crônica.E felicidades para vc na sua nova morada.

Conceição Cardozo

Adri disse...

Boa sorte, Sama querido. Meu livro que nunca tive pode virar um presente bacana para um vizinho bacana, quando as ternuras começarem a vingar...

tita disse...

Vai se mudar mais uma vez?
Eu, mais do que nunca, espero me mudar em breve..desta vez, pela primeira vez me desgarrar da comunidade que convivi por tantos anos a fio...
beijos

ps. sempre lindos textos...

Gustavo disse...

mudar para continuar a ser o mesmo

G.

Marcela disse...

Eita que esse texto tá "pra mim" Samarone.
Eu me mudei há 4 dias e assim como tu me mudo demais, acho que conto até hoje umas 10 mudanças. Mas nunca mudei do Estado, o que me faz sentir uma tremenda dor de cotovelo, pois concordo com tu, muitos valores chegam pra gente dessas mudanças.

O que posso comentar do texto é que ele é lindo e retrata o que se sente mesmo nessas horas do adeus com gosto de até logo, porque na verdade as lembranças vão com a gente e ficam indo e vindo nos nossos momentos importantes de lembrar das nossas raízes.

De todas as minhas mudanças saliento uma: a da separação, onde deixei pra trás mais que uma casa, um espaço, um jardim, um objeto na mesa de cabeceira ... deixei pra trás uma pessoa e sabe, isso tem outro peso, outra forma. De lá pra cá as mudanças foram diversas, umas mais amenas outras mais loucas, mas todas me ajudam não a exatamente saber o que me faz feliz, mas principalmente a saber o que não me faz feliz... e assim vamos vivendo.

Mude, cresça, aprenda e por favor ensine =)

Grande beijo!!

Marcela

Simone disse...

Bom, com 29 anos nunca me mudei. Mas já tive que passar por muitas mudanças internas pessoais, de colégio, de trabalho, ajudar na mudança dos outros
... o que ficam mesmo são as boas lembranças, e a certeza de que muitas vezes mudar é necessário para alcançar novos objetivos.

Boa sorte sama!

Daniela Carvalho disse...

Eu daria(quase)tudo pra me mudar nesse momento...tem horas que isso se torna mais do que necessário, é uma questão de sobrevivência...

Boa sorte Samarone!

Paulino disse...

Bom e Velho Sama..
Na pausa ddas leituras e escritos.. uma bela cônica.
Parabéns por mais um texto. A todos da Kabum! transmita meus fortes e saudosos abraços.

Thiago-

jamille disse...

Foi legal o encontro na Cultura da quinta neh? cara-pálida....

Yvette Maria Moura disse...

(suspiro)
deu saudade de uma nova mudança: da casa no chão, do quintal com plantas pra aguar com mangueira, de novos vizinhos, novos sons, um silêncio novo, do sol na janela que abre pra fora, da brisa que trás novos cheiros...
deu também uma alegria mansa de não ter a necessidade imediata de uma mudança.
um beijo, Sama!
com cheiros e cores alagoanos...