quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Tocando em frente

Vou tocando em frente, levando as coisas como um boiadeiro leva sua boiada. Vou aqui, ruminando bovinamente alguns sentimentos, tentando simplesmente viver, sem querer tanto a experiência de tudo. Essa de amadurecimento também cansa. Quero esverdear, pronto.

Um leitor comentou que estou ficando melancólico, como se isso fosse um problema. Não foi um comentário, foi quase uma denúncia. Meu amigo, obrigado pelo comentário, mas cada dia que posto uma nova crônica, estou vivendo algo distinto. O último texto deste Blog, postei de uma casinha de fim de rua no Cabo. Não achei melancólico, porque tinha um certo lirismo. Era a tal melancolírica, que fala meu amigo Gustavo. Agora, escrevo de uma escola de Arte e Tecnologia, no Recife Antigo. De lá pra cá, muita água passou debaixo da ponte. Ao meu lado, alunos escrevem redações e esperam minhas correções. Tudo se entrelaçando. Pensando bem... qual o problema com a melancolia?

Vou aprendendo outras coisas que pareciam não ter importância. Já sei aferir pressão, graças à ajuda da amada Bebete, médica do Posto de Saúde do Poço da Panela. Comprei um tensiômetro e um estetoscópio, e estou com ares de médico. Aprendo a ler histórias para minha tia. Na manhã do feriado, li para a amada Flocely, "As três maçãs", uma das muitas coisas lindas de "As mil e uma noites". Ler histórias não é fácil, acreditem, estou tentando.

Outro dia aprendi a calar mais. Certas coisas não precisam ser repetidas para os amigos. Eles também cansam, enchem a paciência.

Primário, secundário, Universidade, essas coisas são fáceis. Difícil mesmo é este tocar em frente, saber a hora de algumas coisas, não alimentar tanto as angústias da vida, e saber que nem tudo é esta alegria. Há dias, sim, em que tudo vai mal, mas há dias que descem como dádivas. Há dias como o de hoje, em que tudo está por ali, a ponto de chegar - ou não.

Não sei quando uma coisa cicatriza. Apenas vem aquele sentimento de que estamos sarados, e não dói mais. Deve ser o aprendizado da cura. Não sei também quando a gente perdoa. Outro dia, perdoei meu pai por algumas coisas, e acho que o perdão veio para mim mesmo, de forma redobrada.

Logo que comecei a escrever crônicas, algumas pessoas me abordavam e diziam que liam, acompanhavam, gostavam do meu trabalho. Eu geralmente ficava sem graça, vermelho, até que um dia aprendi algo simples: a receber um agradecimento. Depois, tudo ficou mais simples.

Vou por aqui. Hoje não me ocorreu uma inspiração maior, nem menor.

Há mesmo os dias em que apenas empatamos com a vida, mas há um grande truque nisso tudo: a vida continua sendo vida.

18 comentários:

Gustavo disse...

linda.

G.

Simone disse...

Olá Sama,

tenho levado uns "pontapés" da vida esses dias e nem tem dado tempo de reagir. Mas como você diz, a vida segue.

Sua crônica está perfeita.
bj

Romerito disse...

Gustavo, num achei linda não, mas td bem.

"a vida continua sendo vida"?

keila aquino disse...

"Eu gosto de viver. Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar viva é sensacional." (Agatha Christie)
Faço minhas as palavras dela...

Anônimo disse...

Querido Samarone,

A vida tem necessidade de se dizer através da poesia e do lirismo. Vc sabe muito bem expressar o que há de belo no cotidiano. Adoro saber que no mundo existem pessoas que não querem ser... e que apanas o são por dom e por amostração.
Abraços,
Eu

Anônimo disse...

oi, Samarone
Linda cronica!
abracao,
Claudia

Anônimo disse...

O criativo cria situações.
Clarissa

Giovani disse...

Bela crônica... E vamos tocando em frente... ao sabor das massas ou das "três maçãs".... Abraço e cabeça erguida... mas cuidado com as topadas!

Anônimo disse...

Belíssima crônica. Parabéns.
É o ser do não ser. O nada que somos.

Daniela Carvalho disse...

Plac, plac, plac, plac!!!!
Milhões de aplausos pra você!

Anônimo disse...

Maravilhosa como vc. Sem truques ou qualquer disfarce. Você é assim e ponto.
Beijo
Naire

Andté Lucena disse...

Samarone:
Continue melamcólico, lírico, poêta, saudosista e vá tocando a vida e falando do contidiano nas suas crônicas que nos vamos nos deliciando aqui do outro lado. Obrigado é um abraço fraterno. André Lucena

P.S: Continue TRICOLOR.

Anônimo disse...

...e qndo fala sobre "nada" vc é melhor ainda! E a melancolia lhe cai bem!Nos seus txts vc consegue expressar lindamente essas questões fantásticas q o estado melancólico nos apresenta. E qual o problema de ser melancólico?
Adoro seu blog, tô sempre lendo seus txts, obrigada pela generosidade de compartilhar escritos tão lindos!
abraço
maria ester

Anônimo disse...

saminha, vê se qnd tu for se mudar de novo, escolhe a casa ao lado da minha. uahuahuah
:*

Anônimo disse...

às vezes dá vontade de morar no estuário...

Anônimo disse...

Não vejo problema nenhum de ser melancólico, a crônica é linda Sama. Abraço

Anônimo disse...

Samarone,

Muito linda!!!!!!!!!
É isso ai, vamos vivendo.

um abraço afetuoso,

Conceição

Serginho Montenegro disse...

Boa, Sama. Uma crônica com raízes em antiquíssimos ensinamentos. Beleza!