sábado, 4 de novembro de 2006

Perambulações pelo Agreste (final)

Como eu vinha dizendo numa crônica anterior (antes das eleições), estava hospedado no Convento da Ordem Carmelita, em Camocim de São Félix, fazendo minhas tradicionais perambulações espirituais, quando o espaço religioso foi invadido pelo conhecido fenômeno da "excursão da terceira idade". Eu detesto essa definição "terceira idade", e prefiro velho mesmo, que é uma palavra muito mais forte e bonita. "É um homem velho" não tem maquiagem, enrolação, tem história, verrugas, história de vida, força. "Está na terceira idade" não me diz nada.

Pois bem, no final da manhã, a turma da excursão estava uma arara com a coordenação do convento, porque a piscina não estava liberada para o banho. O sujeito que conserta piscina (piscineiro?) teve que ir a Caruaru. A água estava marrom.

"A gente toma banho assim mesmo", disse uma velhinha. Não teve acordo.

Depois fiquei meditando. Convento com piscina? Se o Bento XVI souber disso, manda tapar tudo e construir um mausoléu.

Uma das velhinhas me olhava atentamente. À noite, no café, ela não resistiu. Passei com meu pedaço de bolo e um copo de café, e ela comentou:

"Esse aqui esqueceu de crescer".

Como tenho quase um metro e noventa, dei uma risadinha. Sentei na mesa ao lado. Ela ficou em silêncio, depois recomeçou.

"E essa barba, heim? És algum missionário?"

"Da Ordem dos Franciscanos Menores", respondi.

Ela arregalou os olhos.

"Eu sabia".

Veio diretamente para minha mesa. Fiz uma cara muito séria. Me animei com a brincadeira.

"Eu tinha certeza que você era missionário. Faz tempo que você está aqui, no convento?"

Como já morei com o ex-frade Gustavo e conheço a rotina das ordens religiosas, fora as hospedagens em diferentes mosteiros, tinha muito o que falar.

"Não senhora. O convento aqui é da Ordem Carmelita, e sou da Ordem dos Franciscanos. Não posso ficar em duas ordems ao mesmo tempo. Mistura o entendimento pessoal".

Não sei de onde tirei esse "mistura o entendimento pessoal", mas caiu bem. Ficaria melhor "entendimento espiritual".

"É como jogar no Santa Cruz no primeiro tempo, e no Central de Caruaru no segundo", continuei. Eu jamais iria comparar com nosso arqui-inimigo rubronegro.

"Sei, sei", dizia ela, muito atenta.

"Estou num pequeno retiro, repensando meus caminhos. Serão sete dias de muito silêncio e recolhimento".

"Sei, sei".

Fiz aquele silêncio grave. Comi o bolo lentamente, cheio de metafísica, como quem está com uma hóstia na boca.

"Mas você vive mesmo em qual convento?"

Lembrei do Gustavo e resolvi fazer uma pequena homenagem.

"Já morei em vários, seguindo as orientações do nosso superior, Dom Castro. Comecei em Caruaru, onde os franciscanos estão bem assentados, depois segui meu périplo, onde não posso escolher. Estive em muitos lugares, passei um período na África, vi muito sofrimento, mas agora devo retornar às minhas origens. Semana que vem, retorno a Caruaru, para um novo ciclo".

"Você gosta mesmo dessa vida? Não sente falta das coisas da mocidade? ", seguiu minha inquisidora.

"Já não sou tão moço assim, caminho para os 40 anos. Mas é um caminho sem volta. A gente sente a mesma alegria, só que de outra forma. Com o tempo, os valores mudam. Não me vejo num boteco, jogando dominó e conversando bobagens com os amigos".

Olhei-a atentamente.

"A senhora já pensou quanta energia uma pessoa gasta numa arquibancada de um estádio, torcendo por um time de futebol?".

Lembrei das temporadas de 2005 e 2006, acompanhando o Santa Cruz no Estadual, Série B, Copa do Brasil, Série A etc.

A conversa se estendeu e ela ficou muito feliz em conhecer um missionário franciscano. Inventei mais algumas histórias, improvisei uns dois ou três milagres menores, ressaltei o caráter inabalável de Dom Castro, que andava escrevendo sobre as formas elementares do ser humano, amparadas na espiritualidade do novo milênio e a poesia do cotidiano, e a velhinha ganhou a noite.

Mais tarde, informei que precisava "me recolher" mais cedo.

No dia seguinte, no café da manhã, ela foi a primeira a vir falar comigo. Trazia uma amiga pela mão.

"Frade, frade, preciso de um favorzinho".

"Pois não".

"É que minha amiga está com alguns problemas familiares e precisa de uns conselhos espirituais..."

Senti a barra pesar.

"Olhe, quando estamos em retiro, em outro convento, não podemos desenvolver nenhuma atividade de aconselhamento espiritual. Espero que me entenda, são as regras da Igreja, agora bem mais severas com o nosso novo Papa, Bento XVI".

"Mas era só uma conversazinha..."

"Não é possível. Além disso, Dom Gustavo de Castro é muito severo".

Ela sorriu, sem graça, e bati em retirada.

À tardinha, pela graça divina, era o momento de retornar ao Recife, terminando a peregrinação pelo Agreste.

Só lamento ter esquecido de perguntar o nome da velhinha, dom Gustavo.

8 comentários:

Julio Vila Nova disse...

Quem tem três idades é fruta: verde, madura e podre. A frase é do grande Ariano Madeira que Cupim não Rói Suassuna (Débora pode confirmar). Sendo assim, melhor é dizer velho mesmo, assim, simples, respeitoso, natural, não é ?

Gerrá disse...

só faltou naná como sacerdote. do caralho.

Anônimo disse...

Frei Sama..
EHehheheheh

Acho que etá mais para um sheik mulçumano...

Gustavo disse...

Adorei o "dom", seu sacana...

P.q. não disse a elas que gosta de rezar o terço no deserto?

Beijos

G.

Anônimo disse...

Samarone enganador de velhinhas, tu é muito tabacudo mesmo. Aqui todo mundo me pergunta o que é tabacudo e eu mando ler teus texto para saber

Zeca

Anônimo disse...

vai ter que rezar 20 ave-marias e 45 pai-nossos ajoelhado no milho depois dessa. engandando velhinhas, rapaz...

e "não me vejo num boteco, jogando dominó e conversando bobagens com os amigos", foi ótimo. hahaha.

LARISSA BRAINER

Sonia disse...

Qualquer coisa contada por você vira festa.
PS: eu sou velha, fico pê da vida quando me vêm com essa de terceira idade. Aliás, fico pê da vida com todo o vocbulário politicamente correto.

Neco disse...

Falsidade ideológica é crime.
Além de ser pecado grave se passar por Frei.
Lamento a safadeza e a cara de pau do escritor, que deveria ser mais autêntico ao invés de querer se passar por outra pessoa.
Interessante, porém, foi o escritor revelar a existência de uma piscina no Convento, coisa absurda. Além destas hospedagens que não deveriam existir.