segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

"Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa..."

Foi minha mãe quem descobriu outro dia:

“Meu filho, você já está há vinte anos no mundo”.

E de repente, sem que eu percebesse direito, o filme passou na cabeça. Lembrei até daquela música do Belchior - "Há tempo muito tempo que eu estou longe de casa". Um belo dia, em 1987, enchi uma sacolinha com algumas roupas, peguei uma caixa e meti os poucos livros dentro. Vim ao Recife, em busca de outra vida, que é essa que eu tenho.

Consegui trabalho na loja de um parente distante, aquela história do marido do primo da sobrinha da cunhada da tia-avó, um negócio que se a gente for contar direito, é apenas uma pessoa conhecida, que sabe da sua existência através de conversas ermas, em algum momento vago do Natal, quando todo mundo está empanturrado de peru.

Fui trabalhar contando vidros numa empresa, ali na Estrada do Encanamento, Casa Amarela. Até hoje, numa olhadela, sei todos os tamanhos de vidro. Aprendi também a montar e desmontar aquelas prateleiras moduladas de farmácia, aquelas de vidro, usando um martelinho com borracha nas pontas. Se o cara bater errado, puft!, o vidro esmigalha, e o patrão fica muito zangado. Sou meio desenrolado com algumas coisas, e rapidinho sabia como a coisa funcionava. Pec, pec, pec, com mais dois camaradas, e a gente montava estante como o quê. Acho que quebrei dois ou três vidros, no máximo, naquele “tempo dos vidros”, que dá até nome bom para livro.

Foi nesse período, em 1987, que descobri o fascínio pelo Recife, que vai permanecer até minha última respirada neste mundo. A turma de funcionários almoçava no Mercado de Casa Amarela, eu pegava carona com o Almir, aquele típico trabalhador brasileiro que gosta de trabalhar conversando. Santa Cruz doente, ele me levou ao Arruda e aconteceu este fenômeno: descobri somente aos 18 anos, que meu time de infância era o Santa Cruz. Quando dizem que sou Santa Cruz doente, eu digo que não, eu sou mesmo é muito atrasado.

Nesses vinte anos fora de casa, vivi muitas coisas, morei em dezenas de lugares, andei pelo mundo. Pelo meu ofício de jornalista, pude entrar em casas que nunca conheceria, saber das outras vidas, que às vezes passam paralelas ou anônimas. Pisei tapetes dos muito ricos, aqueles lugares que a gente não sabe nem onde sentar, para não incomodar o sofá, que custou mais que todo o meu salário do ano. Pisei em muitas casas com chão de terra, onde o café era o mais delicioso, servido por gente que tinha algo de mais fraterno, essa gente que dá o que nem tem. O pior café da minha vida lembro até hoje, no presídio do Carandiru.

Sou muito ruim de prêmio jornalístico, mas algumas matérias que escrevi me deram mais alegrias que o troféu e a grana dos concursos. Lembro particularmente de uma entrevista que encerrei pela metade, porque a pessoa estava chorando muito e sofrendo. “Não dá, né?”, foi o meu comentário, antes de desligar o gravador.

Naquele dia, compreendi que nada compensava aquela dor. Eu não tinha o direito de mexer tanto com a vida daquela mulher que lutou tanto contra a ditadura, que teve amigos mortos, torturados, desaparecidos. Escrevi um livro sem seu depoimento, e no dia do lançamento, enquanto um ator lia alguns trechos, ela estava de olhos fechados, segurando as mãos do marido, com lágrimas escorrendo. Esse é o grande prêmio.

Já fui contador de vidros, vendedor de cruzetas (que aqui chamam “cabide”), ajudante de várias coisas, auxiliar na Biblioteca Central da UFPE, secretário da ANPOLL (Associação Nacional de Pós Graduação em Letras e Lingüísticas), estagiário de uma penca de coisas, até que esbarrei nas redações de jornais, e achei que ali era meu lugar. Por duas vezes, consegui sobreviver com o seguro-desemprego. Uma vez, meu amigo Gustavo foi meu seguro-fim-de-mestrado. O meu bem material mais precioso é feito de papel: minha biblioteca.

De longe, o pior lugar que já trabalhei na vida foi a revista Veja. Isso merece outra crônica, mas é melhor deixar para outro dia. Não, melhor é deixar para lá mesmo. Lembro do alívio quando consegui ser demitido, e a alegria com o tamanho da indenização (a palavra aqui cabe muito bem). Tomei vários porres para comemorar. De longe, os dois lugares mais divertidos que trabalhei foram: a redação do Diário de Pernambuco (1992 a 1994), e do Diário Popular, de 1996 a 1998.

Cheguei ao Diário de Pernambuco só o osso, sobrevivendo dos rangos do Restaurante Universitário, o famoso “RU da Federal”, que alimentou muitas almas e sonhos, na época das vacas esqueléticas. Cada vez que viajava a Fortaleza, minha mãe providenciava um crediário (sim, leitores, esse negócio de crediário é uma invenção antiga e persistente da minha mãe) e eu voltava com roupa nova. O Vieira, repórter de Economia, não podia me ver entrar na redação, que soltava um grito, despertando a redação inteira:

“Quem era Samarone...”

Vinha para o meu lado, e começava:

“Esse rapaz chegou aqui usando uma sandália havaiana vermelha, outra azul, a camisa escrita “love” faltando o “v”, agora já está de camisa nova, perfume (me dava uma cheirada), usando até cinturão...”

Graça Prado se juntava e a coisa ficava uma cena de teatro. O bordão “quem era Samarone” ficava sendo repetido pelos dois. Eu, vermelhíssimo, tentava me esconder atrás de alguma pilastra inexistente.

Na Cristal, ali na rua do Imperador, conheci a velha guarda, que bebericava no intervalo, em qualquer intervalo. O velho José Maria Garcia, no seu cantinho, tomava suas doses, jogava no bicho e fumava. Como gosto muito dos velhos, fiz logo amizade e tive direito a entrar no livro preto do fiado logo na primeira semana de Cristal.

No Diário Popular, virei jornalista de verdade. Percorri São Paulo dos pés à cabeça. Fiz matérias sobre enterros, crimes, golpes, violações de direitos de todos os tipos, chacinas, estive em velórios, IMLs, hospitais, delegacias imundas, presídios, vi presos-bichos, amontoados, tuberculosos, entrevistei coveiros, mulheres de presos, promotores, juizes, ladrões, assassinos, delegados, policiais, tudo o que a espécie humana tem de melhor e pior.

A volta para a redação representava um bálsamo. O clima era muito divertido, amigável, animado. Josmar, o inseparável “Valente”, o melhor jornalista que já vi trabalhando, tinha uma piada atrás da outra, e costumávamos jogar futebol com um pedaço de jornal, que se transformava em uma bola. Ao lado do jornal, funcionava o velho e bom Mutamba. Dizem que o Adoniram Barbosa bebeu muito lá, fez uns sambinhas, mas não sei se é verdade. Ali tomávamos nossas garapas e discutíamos, inconformados com a situação do Brasil e outras coisas que não lembro.

Sim...mas onde eu estava mesmo?

Ah, lembrei. Estava começando uma reflexão filosófico-existencial sobre os meus 20 anos na estrada, mas acabei misturando os assuntos e não sei como terminar a crônica de hoje.

Fica assim mesmo, sem conclusão, vai um texto falando mais de mim, já que muitos leitores sabem apenas que eu existo, sou cabelodo-barbudo, tenho três livros publicados, várias árvores plantadas e nenhum filho. Foi bom porque lembrei de algumas coisas boas que fiz, e isso é motivo de alegria.


ps. Voltei a atualizar meu blog de poesias (www.quemerospoemas.blogspot.com). Amanhà escrevo uma crônica decente, que a preguiça está batendo à porta...

6 comentários:

Anônimo disse...

Não !! Fica preguiçoso mesmo. bjs
seiva

Anônimo disse...

Há tempo muito tempo que eu estou longe de casa
E nessas ilhas cheias de distância
O meu blusão de couro se estragou
Ouvi dizer num papo da rapaziada
Que aquele amigo que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé, já se mandou
Sentado à beira do caminho pra pedir carona
Tenho falado à mulher companheira
Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil
E um cara que transava à noite no "Danúbio azul"
Me disse que faz sol na América do Sul
E nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil
Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo "saudade" como o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante.
Minha normalista linda, ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar
Até parece que foi ontem minha mocidade
Meu diploma de sofrer de outra Universidade
Minha fala nordestina, quero esquecer o francês
E vou viver as coisas novas, que também são boas
O amor/humor das praças cheias de pessoas
Agora eu quero tudo, tudo outra vez


O amor/humor das praças cheias de pessoas.Sob encomenda pra você.

Anônimo disse...

Rapaz, se cuida, tas ficando veio, vai logo providenciar este minino que esta faltando pra completar tua biografia de homi decente... veja ai Inacinho que com aquele jeito de intelectual e tudo ja vai no terceiro...

Mudando de assunto, amanha estou indo no vuco-vuco pra ver se acho duas barbas porreta pra sair eu e meu nego nos "Barba", mas quais sao as coordenadas mesmo? A diretoria ja se reuniu pra publicar? Sai quando e que horas (o lugar, imagino que seja da frente de Vital)?

Ana Paula

Samarone Lima disse...

Troça Carnavalesca Mista "Os Barba"
Prévia dia 10/02 - sábado
horário incerto, entre 12h21 e 13h13.
Mercearia de Seu Vital, Poço da Panela.
Camisas: R$ 10,00
Quem tiver barba, bote logo de molho.

Samarone.

keila aquino disse...

Bem... já que tá batendo à porta, deixa ela entrar e vai tomar um cafezinho com ela!
Vez em qdo é bom...
Beijos!

Capilé disse...

Sábado acho que vou ver os barba, conferir de perto essa troça famosa...Lembrar coisas do nosso passado é muito legal, principalmente se boas.