terça-feira, 21 de março de 2006

Anotações sobre um livro novo

Finalmente, chegou a hora. Depois muitos anos, estou conseguindo escrever a versão final de um projeto que iniciou em 1993, quando eu estava no último período do curso de Jornalismo, da Unicap, aqui no Recife. É um livro sobre a explosão de uma bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, quando estávamos com dois anos de Ditadura.

No atentado, morreram duas pessoas, outras ficaram mutiladas, mas a Polícia nunca conseguiu identificar os autores. Por outro lado, ninguém assumiu a ação. Ficou assim mesmo, no vazio. Uma bomba silenciosa.

Em dezembro de 1968, dois engenheiros foram presos e envolvidos no atentado, numa cilada kafkaniana de um delegado insano, no Recife. Apresentados à imprensa dia 11 de dezembro de 1968, Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda conheceriam de perto e por dentro, as entranhas da Ditadura. Dois dias depois, foi promulgado o AI-5, tirando até o habeas corpus do mundo jurídico. Não foi fácil passar pelo que os dois passaram. Não nos enganemos: esse Brasil já foi muito pior.

No livro, conto a história dos dois engenheiros. A prisão, o sofrimento, as fugas, exílios, amores, enfim.

Falo aqui neste Blog por um motivo simples. O livro estava atravessado em mim. Escrevi uma versão, em 2003, e não gostei. Tentei dezenas de vezes recomeçar, e esbarrava no próprio crivo - não achava o caminho.

Há duas semanas, consegui acessar a fonte. Sentei, botei o primeiro capítulo para o final, e o rio começou a passar. Comecei a reescrever capítulos, cortar coisas, mudar relatos, refazer percursos. É um mistério, esse negócio de escrever. A hora mais importante do dia é esta, quando ligo o ventilador aqui, no pé do ouvido, no três, ligo o computador e vou trabalhar.

Aos poucos, o livro foi renascendo. Um, dois, três capítulos refeitos. Outros foram chegando, nascendo prontos. Refiz a ordem cronológica, mudei caminhos, e agora há pouco, tive um susto: tenho 22 capítulos prontos, três por revisar, creio que mais cinco capítulos, e o livro estará pronto. Até a Semana Santa, farei mais três entrevistas complementares, para ter mais densidade nas informações.

Será meu último livro sobre o período das ditaduras. Já publiquei "Zé", em 1998, a pequena biografia de um militante clandestino da Ação Popular. Depois veio "Clamor", em 2003, minha dissertação de Mestrado sobre a solidariedade no Cone Sul da América Latina, durante as ditaduras. Agora vem o terceiro, fechando a trilogia. Fala de um encontro com o passado e de um encontro com a verdade.

Os verdadeiros autores do atentado nunca assumiram o fato, e a culpa ficou, historicamente, em cima de dois engenheiros. Um deles, Ricardo Zarattini, disse num belo documentário da Andréa Ferraz, que "a verdade tem força revolucionária, ela muda o mundo". Acho que é verdade.

Acho que está ficando bom, pelo menos estou escrevendo apaixonadamente, em todos os horários. A pior coisa para quem escreve, é um bloqueio, quando você não sabe ou não consegue começar. O livro está vindo como um rio.

Por enquanto, o título é: Quando o silêncio condena, que é o mesmo título do documentário da Andréa.

Não sei nem por que comecei a falar sobre isso, acho que para compartilhar com meus leitores uma alegria, um alívio. Comecei esta pesquisa com 23 anos, com uma barba rala e mais tímido vinte vezes que hoje. Fui seguindo meus caminhos no Jornalismo, e nunca me perdi dessa história. Fiz grandes amizades com a turma dessa geração, uma entrevista fortíssima com Edinaldo, ao som de músicas revolucionárias do mundo inteiro. Estou com 36, alguns cabelos bancos, e está na idade de criar juizo, dizem alguns amigos. Menos, menos.

Bem, são coisas da vida. No fundo, acho que escrever tem me ajudado a viver melhor, é simples.

Entre um capítulo e outro, tentarei sempre arranjar um tempinho para o Blog, que adoro.

Vamos que vamos.

9 comentários:

keila aquino disse...

Olhe olhe Samarone... não esqueça dos "seus" fãs bloggeiros...
Que esse "rio" continue correndo sempre!! Felicidades com mais essa conquista!

Anônimo disse...

Querido Samarone! Lembro de há alguns anos ler suas entrevistas sobre este episódio no site do Tortura Nunca Mais... Acho que era esse site, não? Não vejo a hora de ler mais um livro seu sobre o este período. O Clamor foi excepcional e ainda vaga de mão em mão aqui em Curitiba. Só não li o Zé ainda... Quem sabe um dia terei uma oportunidade... Quando estive no Recife, tentei comprar na Livraria Cultura mas não encontrei! Uma pena! Meu caro, sucesso, alegria e felicidades nesse novo parto e que o filho saia tão lindo, ou mais do que o Clamor! Grande abraço, Priscila

Anônimo disse...

Sama, não vou me demorar. Tenho que escrever a minha tese. Depois da leitura do seu texto me desbloqueei tb. Abração do mano PH

Anônimo disse...

Nao abandona o blog, por favor.
Sucesso, sucesso e sucesso!
Claudia

samarone disse...

Priscila,
mande seu endereço, que te mando um exemplar de "Zé".
beijos,
samarone
ps. estou sem teu email.

Anônimo disse...

Sempre visito seu blog.
Vc escreve muito bem.
Onde posso encontrar o " ZÉ"
Gostaria de ler.
Sucesso no seu novo livro e avisa o dia do lançamento.
Bjs
Iza

Anônimo disse...

O blog é a ponte que passa sob o rio. Não deixe percorrer. Absorva as mudanças que vc está vivendo.

Anelise disse...

Samuca: "Beba, pois a água viva ainda está na fonte, você tem dois pés para cruzar a ponte. Nada acabou, basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo". Não encontrei nada melhor que Raul Seixas para servir de comentário ao teu texto de hoje. Bj, Ane.

Sonia disse...

Que momento mágico esse, em que o bloqueio se rompe, e as palavras, até então rebeldes, vão se encaixando. E só acontece quando se escreve apaixonadamente. Boa sorte, que seu livro continue fluindo.