segunda-feira, 20 de março de 2006

Notas soltas sobre jovens e livros

Estou aqui, com 73 questionários respondidos por jovens que moram em bairros da periferia do Recife, que estão participando de uma seleção para uma escola, que vai ser inaugurada no mês que vem. Como sou um dos professores da escola, terei que selecionar, a partir de uma série de critérios (questionário, redação, desenho etc), jovens de 16 a 19 anos que possam participar da segunda fase da seleção. O trabalho com a primeira turma, 80 jovens, vai vai durar 18 meses.

Então me dá uma tristeza. Tenho em minhas mãos um pequeno retrato de como anda a Educação neste país, mais especificamente no Recife, onde vivo, e qual o futuro desses jovens. Os questionários, quase todos, são de doer. Pior que o massacre à língua, a imensa dificuldade de articular algumas poucas idéias, é a ausência quase completa de uma bagagem cultural mínima. É preciso lembrar que muitos já estão no segundo grau. Uma das perguntas mais difíceis, é citar três os três livros que mais gostou na vida. “Carandiru”, “O Alto da Compadecida” e “JK” foram os mais lembrados. Os dois primeiros foram filmes, exibidos pela TV Globo. O último é uma mini-série na mesma TV, ainda em cartaz. Dos 73, apenas um conseguiu falar de um livro.

Fazer um breve comentário, de cinco linhas, sobre o livro que mais gostou, é exigir o impossível. Um livro, e somente um. O “Pequeno Príncipe” já resolveria. “Meu pé de laranja lima”. Nada. Fico me perguntando: para onde estamos indo, com estas milhares de criaturas sem acesso a uma educação no mínimo razoável, sem emprego, sem perspectivas de vida?

Lamento, mas acho que o pior ainda não chegou. Está sendo cuidadosamente gestado.

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Cada dia que passa, sinto que o Recife está precisando melhorar suas poucas livrarias. Temos a Livraria Cultura, ali no Paço da Alfândega, mas a parte de literatura estrangeira é fraquíssima, a de poesia não fica atrás. A cada consulta um pouco diferenciada, não há livro disponível, é preciso encomendar. Na última visita, nem o livro novo da Adélia Prado, uma poeta conhecidíssima, tinha. Os vendedores são atenciosos, um pessoal descolado, mas esse negócio de encomendar livro não é minha praia. Gosto de ir, cutucar as prateleiras, encontrar algo bom e sair com o volume debaixo do braço, para ir lendo no ônibus.

A Livraria Imperatriz, no Shopping Plaza, é muito menor e mais diversificada. Sei quem tem uma no Shopping Recife, a Saraiva, mas o shopping é longe pra chuchu, deixo sempre para a próxima semana. Tarcísio Pereira bem que poderia reabrir a Livro 7, aquela maravilha que nunca esqueço, até hoje sinto uma alegria quando vejos os livrinhos com o símbolo da Livro 7.

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Vou ao Hiper Bompreço comprar um café e um azeite, e resolvo passar na parte de livros. Minha Nossa Senhora, é o fim dos tempos, o miserê cultural atinge em cheio uma classe média que pode comprar livros. As prateleiras estão cheias de livros de auto-ajuda e busca de sucesso, uma combinação que vem crescendo muito nos últimos anos, em detrimento a uma boa literatura, aos bons poetas. As pérolas que dominavam o amplo espaço:

“Pais brilhantes – professores fascinantes”, do Augusto Cury; “Nunca desista de seus sonhos”(ibdem); “O poder que vem do seu nome”(Aparecida Liberato e Beto Junqueira), “As cinco pessoas que você encontraria no céu”(Mitch Albom); “Ditadura da beleza e a revolução das mulheres”(Augusto Cury); “Paixão por vencer – a bíblia do sucesso”(Jack Welch). E esta pérola: “O vendedor Pit Bull – o profissional indispensável para sua empresa”, de Luiz Paulo Luppa. Na foto, há um cachorro bul zangadíssimo, rangendo, com os lábios arregaçados, pronto para o ataque. A versão normal custa R$ 17,52, mas a edição de bolso, um pit bul menorzinho, custa somente R$ 8,71).

O sujeito que sai do supermercado com um livro sobre “o vendedor Pit Bull” ou “A Bíblia do Sucesso” não está precisando de boa literatura. Para esse, o bolso cheio de dinheiro é a melhor biblioteca.

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Recebo do amigo Ricardo Mello a coleção “Poeminhas” (3 volumes), em parceria com o cartunista Samuca, feita pela Editora Bagaço. Uma belezinha, uma festa para adultos e crianças. Tem um volume de “Hai Kados”. Pequenas gotas de colírio, digamos assim, nessa secura literária que toma conta de nossa cidade.

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Não sei o que há no Recife, que não tem um mercado razoável de sebos. São poucos, e com pessoas que não conhecem muito de literatura, é mais aquela venda rasteira dos livros do segundo grau. Quando morei em São Paulo, comprei muita coisa boa em sebos ou em bancas, nas ruas mesmo, era um barato. Sempre que viajo, para outros cantos do Brasil ou do exterior, procuro uma pracinha que tenha venda de livros, especialmente nos finais-de-semana, e os livros sempre estão em lugares privilegiados. Seria lindo um negócio desses aqui no sítio histórico do Poço da Panela. Allgo sossegado, sem muita agitação, com um chorinho ao fim da tarde, para ver o dia morrendo devagarinho, tomando um bom café e lendo as primeiras páginas de um bom livro. Lembrei de San Telmo, em Buenos Aires, e me deu saudades.

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Os livros do Juan Carlos Onetti, uruguaio absurdamente lindo, estão saindo pela Editora Planeta, pela graça divina. Aguardo rezando de joelhos pelos livros com as poesias do Juan Gelman, e por edições populares do Robert Arlt, o argentino louco e incomparável, capaz de escrever uma maravilha como “Os sete loucos”, que já reli tantas vezes, que já sei páginas interias decorado, apesar da péssima memória que sempre tive.

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Soube outro dia da morte da querida Elita, da Editora Bagaço. Fiz um projetinho com a Bagaço, na época em que estava na Universidade, e ela foi sempre uma mulher generosa. Nos víamos sempre de manhã, aqui no Poço, quando ela passava, em suas caminhadas. Agora, não a vejo mais, isso é a morte. Vai um abraço para Elita, de coração.

6 comentários:

Anônimo disse...

O Recife é isto ai.MERDA

Luiz disse...

Sama, conheço um sujeito barbudo, alto, magro, óculos, que daria uma bela colaboração à pasmaceira se abrisse um sebo nesse canto tão sossegado do mundo que é o Poço de Panela. Posso lhe garantir que cliente é o que não faltaria.

No mais, o Recife é isso aí. Somados mortos e feridos, poucos se salvam.

keila aquino disse...

Bem... apesar da "pequenas agressões" ao nosso Recife citadas acima, ele tem seus encantos e pessoas que encantam, sim!!!
Valeu pela dica sobre os livros!

Anônimo disse...

Oi belo menino, como todas as reivindicações já estão claríssimas no seu texto, vou direto aos positivos, para agüentarmos seguir vivendo no presente antes de mudarmos o futuro. Podemos mudar, não podemos?
É realmente uma pena, o Recife cheio de histórias, repleto de almas e vivos que merecem ser lidos em cada esquina e nos resta este quase vazio. Mas nos momentos mais difíceis sempre recorro ao Box do Augusto, lá da Rua da Roda, que não chega a ser uma Livro 7, mas vale ser visitado de vez em quando. Augusto sempre tem umas coisas boas. No cartão dele, anunciando a Livraria Augusto no Box 14, está escrito: “Compramos e vendemos livros novos e usados, raros e esgotados”. Dá para matar um bocado de saudade por lá e o preço é sempre convidativo.
Quanto aos meninos da nova escola, que bom que terão uma nova escola, com aulas e professores diferenciados, que já estão mudando o destino destes entre os outros tantos espalhados pelo Brasil e outros países do mundo que nem imaginam ter a mesma chance.
Agora sobre o futuro, a idéia de um sebo no Poço é algo que me alegra a alma. Estou pronta a ajudar no que for preciso.
Recife é sem dúvida uma bela cidade para se viver, mas como todos os outros lugares, no mundo inteiro, sempre pode ser melhorada.

Beijo do tamanho do mundo

Anônimo disse...

elita? elita ferreira.. soube por você. lembrei de ter lido um livro dela quando estudava no colégio apoio. ela foi lá, era encantadora, tanto que nunca esqueci seu nome. é assim mesmo..
mas.. que sonho seria esse sebo-com-chorinho, numa tarde de domingo aí no poço.

Maria Moura disse...

Sama, adorei a idéia de um sebo no Poço da Panela, com um chorinho ao fundo e um cheirinho de café perpassando o ar caliente das tardes recifenses...
(excelente point para o fim de tarde!)
Deixo aqui minha sugestão:
Depois de dois bares e muita dor de cabeça, que tal abraçar essa idéia e transformá-la em realidade?
Até eu encararia 4 horas de viagem para curtir um pôr-do-sol no Poço, tomando um cafezinho e folheando alguns livros contigo...
Um cheiro.