quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Algumas aventuras nos ônibus recifenses e adjacências, com o povo em geral

Manhã de quarta-feira, 6h40, Cabo de Santo Agostinho, a 45 quilômetros do Recife, creio. Espero o famoso "Centro do Cabo", para ir ao Recife, pegar o Alto Santa Isabel e chegar ao Poço da Panela. Vivo agora entre duas cidades, ambas de quatro letras: Cabo e Poço. O sol da manhã é rasgante, o ônibus (R$ 2,45) não chega nunca. Uma senhora ao meul lado, irada, diz que o povo é muito besta, que só funciona mesmo quando tocam fogo em dois ônibus, só assim eles respeitam a gente. Eu reparo. Ela tem uns 50 anos, cabelos brancos, parece cansada de tudo. Cansada e indignada. A longa fila aguarda, bovinamente, pacientemente. O fiscal fala ao celular. Uma turma vende vale-transporte por 15 centavos a menos.

O ônibus chega com quase 20 minutos de atraso, fico no fundão, do lado da janela. Daqui a pouco, todo mundo vai chegando, todos vão se falando. Quando o ônibus sai, sou informado que ontem teve uma confusão no mesmo ônibus, envolvendo os passageiros, o motorista e o cobrador. O motorista andava aos solavancos, e a turma do fundão começou a esculhambar. Quase o cacete come, a sorte é que três camaradas, os mais brabos da turma, não estavam. "Foi Deus", diz um gordinho simpático e suado nas axilas. É o gordinho clássico, simpático, sorridente, que busca a harmonia do grupo. Ele diz que vai votar em Lula porque "Lula é como sardinha: ruim com ele, pior sem ele".

Começo a tomar minhas notas. Ônibus é meu laboratório de criação, Raimundo Carrero que me desculpe. Lá pelas tantas, a mulher ao meu lado, a mais conversadora, olha curiosa e comenta.

"Tua letra é muito miúda. Não dá para entender nada".

Quer saber o que faço. Digo que sou professor de literatura, ela quer saber o que é literatura, explico que é livro bom, ela acha bonito, diz que tenho cara mesmo de professor. É sempre assim. Se eu dissesse que era campeão nacional de boliche, diriam que tenho cara de jogador de boliche. Ela me conta a gênese do grupo. Todos se conheceram ali, no range range do ônibus, o que sai às 6h45.

"Fomos ficando amigos. Vai chegando um, fica amigo. Se tu viesse com a gente todo dia, entrava no grupo".

Eu acho lindo e bem menos orkutiano.

"Esse ano, vai ter amigo secreto".

Conversamos umas coisinhas. Conto sobre minha tia-avó, que mora no Cabo, e do período que morei por lá, entre 1992 e 1994. Ela escuta atenta. A viagem segue, sem solavancos. Há um sorriso frequente nas pessoas, uma alegria de estar vivo. Lembro da Adélia Prado, quando diz que "ser brasileiro me determina de modo emocionante". Falam que Maria Helena, candidata à presidência, é sapatão. Lula está eleito, para todos os fins. Ernesto, o nome do gordinho é Ernesto. O meu ex-cunhado, ele rasgou a Bíblia, diz minha amiga do lado. O mal se acaba por ele mesmo. O motorista de ontem é um papudinho. Ele veve bêbado e leva gaia. A mulher ao meu lado, a que estava olhando minhas anotações, se chama Eliuza. Na saída, ela me dá um alô:

"Ei, psiu, foi um prazer te conhecer".

Aceno e sorrio. O ônibus segue.

Desço no Forte das Cinco Pontas, pego o Alto Santa Isabel (R$ 1,65). Já são 8h13. Na Rosa e Silva, uma mulher passa a roleta, e deixa a sua mãe ou avó na parte da frente, que é onde as empresas de ônibus deixam os velhos. Pede ao cobrador para avisar, quando chegar ao "Agamenom", que vem a ser o Hospital Agamenom Magalhães.

Perto do Hospital, o cobrador avisa.

"Ó o Agamenom".

"Ei, avisa aí para ela descer!"

"Óia, ela tá aqui não, visse!"

A velhinha desceu, por conta própria, na parada anterior. Confusão no coletivo.

"Desce logo, mulher, vai atrás de tua mãe!", diz alguém.

A mulher desce, aflita. Alguém no Recife perdeu a própria mãe, em plena manhã. Dou testemunho do acontecido.

O ônibus vai chegando perto da entrada do Poço. São quase 9h. Desço junto com uma senhora de uns 60 anos, que mora na comunidade. Ela anda puxando da perna direita. Pergunto o que foi.

"Desde cinco horas estou no Agamenom, tentando marcar uma ressonância. Saí agora, sem conseguir nada", diz.

Vamos caminhando. Ela diz que chegou a ficar quatro meses sem andar.

"Parece que é a tosporose", diz, arrastando a perna.

Tenho que falar com Davi, vou quebrar à direita.

Ela vai caminhando lentamente, com o passo arrastado.

8 comentários:

Anônimo disse...

Bem, só tenho a dizer que tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador.

Johnny Papoula disse...

Sama, cara.
Preciso dos teus livros.
Quero usar os para indicar aos alunos, como te falei pessoalmente.
Cara, entre em contato.
3493.8035.
Papoula (ou João Carvalho)

Adri disse...

"Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?"

Anônimo disse...

Eu adoro escutar histórias dentro de ônibus, pq retrata o nosso povo.

ivanzinho disse...

Oxen, Papoula é professor onde?

samarone disse...

Papoula, vou te ligar. Tenho ainda uma sobrinha nde "zé", dois ou três números de Clamor e Estuário está para ser relançado.
câmbio.

Ivanzinho, deixe o cara, meu irmão.

luiz lira disse...

O onibus é de certa forma um elevador na horizontal. O cobrador funciona como o acessorista que escuta conversas que são interropidas.Um ótimo laboratório para tuas crônicas ricas.Abraços ecológicos Ser Humano.

Anônimo disse...

Além de delicioso, seu blog me brindou nest post com uma boa definição deste ônibus tão velho conhecido. Estás trabalhando no Cabo? Trabalho no CMC.
Abraços
Ana