quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Como se recuperar de traumas

Quando eu era pirralho, adorava o Esporte Espetacular, dia de domingo. Era o programa mais aguardado da semana, porque sempre gostei de ver os detalhes dos jogos. Até hoje tenho esta mania. Vou ao estádio, mas no outro dia, preciso confirmar tudo pela lente da TV, e descubro que muitos lances eu não vi direito, por motivos os mais diversos.

Pois bem. Meu pai chegava, na metade do programa, apertava o pitoco da TV, desligava solenemente e me mandava lavar o carro.

Sinto muito, amigos, mas eu sou da época em que não havia o que se discutir com o pai. Era estranho e inexplicável aquela maldade, mas adulto, vamos e convenhamos, é um bicho esquisito. Daqui a pouco, lá estava o mané aqui, bastante infeliz, lavando o carro, doido para arranhá-lo todinho, mas não cairia bem, o velho iria descobrir, e o trauma seria pior.

Então, desenvolvi um Método Pessoal de Recuperação de Trauma (MPRT), em fase de sistematização. Dia de domingo eu começo sempre jogando uma pelada, no glorioso escrete dos "Caducos Futebol Clube", depois peço à Dona Fátima para fazer uma jarra de suco de maracujá e me deito na rede. Assisto ao Esporte Espetacular de cabo a rabo. A cada bloco do programa, o trauma vai passando. Diria que estou quase curado - deste trauma, claro.

Lá pelas tantas, meu pai (o velho não era fácil) inventou que eu e meu irmão, o Antônio José, tínhamos jeito para cantar. Empombou com uma música antiquíssima, que dizia:

"Teco, teco teco na bola de gude, era o meu viver..."

Amigos, que suplício. Eu cantava às duras penas, absolutamente tenso, e até hoje não me dei ao trabalho de perguntar ao Tonho se ele sentia alguma alegria. Parecíamos dois cantores caipiras, desafinados e envergonhados, cada um suando mais frio que o outro.

Me recupero do trauma de uma forma bastante simples, inclusive indico isso no meu método: hoje em dia, eu não canto nem Parabéns. Acho inclusive a invenção do Caraokê uma idéia maligna, e na minha lista de amigos do peito, desconheço algum que ouse pegar um microfone para acompanhar aquele troço.

Quando eu era pequeno (que infância, amigos!), comi um troço que saiu queimando a língua, a garganta, quase que me lasco todinho, era um negócio para usar em limpeza, fortíssimo, e pensei que fosse umas bolachinhas. Parece que era Soda Cáustica, e garanto que o negócio não é fácil de engolir.

Para me recuperar do trauma, passei a evitar ingerir venenos e produtos de limpeza em geral. Tem funcionado muito bem.

Tendo sobrevivido à infância, cheguei à fase posterior, que chamam adolescência. Um belo dia, o diretor da escola me convidou a "não continuar no colégio, no ano seguinte", e saí do convívio com minha turma maravilhosa. Foi traumatizante ir para outro colégio, longe dos meus amigos.

Além disso, o novo colégio tinha uma feira de ciências fraquíssima. No ano anterior, minha equipe tinha devorado todos os prêmios da escola, e logo em seguida, por conta da expulsão, me vi dissecando laconicamente um sapo, tentando mostrar um sapo dissecado, o que, obviamente, me resultou em comentários os mais perversos e notas baixíssimas.

Me recuperei deste trauma evitando visitar feiras de ciências. A partir daquele momento, também decidi nunca mais dissecar sapos. Como não tive recaídas, funcionou muito bem.

Já adulto, tive uma época traumatizante. Na Casa do Estudante, todos me achavam feio pra caramba. Olhando as fotos daquele período, acho que a turma estava certa, mas o ruim foi ter levado o assunto a sério. Chamava uma moça para dançar, e vinha sempre um não.

"É essa minha feiúra crônica", pensava, voltando para casa com as mãos nos bolsos, absolutamente desolado.

Foi muito difícil este período. Aqui vai uma sugestão: se você conhece alguém bem feio, não o chame de "feio", que magoa bastante a pessoa, e ela fica se sentindo mais feia ainda.

O trauma só foi passando com o avançar dos anos, quando a natureza cansou de me maltratar. O excesso de cabelos também me ajudou a tapear um bocado, e tenho seguido sem alardes, um pouco mais harmônico.

Vou parar por aqui. Tem dias que eu escrevo e falo tanta besteira, que está certa Dona Fátima. Ela de vez em quando me olha bem séria, depois que falo alguma asneira tremenda, e diz:

"Samarone, tu tem certeza que é um jornalista e professor?"

Eu tomo então uma golada boa do suco de maracujá, peço para ela sair da frente da TV, para eu ver o Esporte Espetacular, e respondo:

"E apois".

18 comentários:

Anna disse...

Samarone, meu filho, pra que seriedade? O bom mesmo é pensar e falar asneiras. Diga a dona Fátima que professor bom é aquele que fala bastante asneiras e no meio delas dá seu recado. Falo por experiência. Agora aquela de cantor, me lembrou que na minha infância, quando chegava alguma visita, eu e minhas 3 irmãs éramos chamadas para a sala para cantar, segurando na pontinha da saia: "eu levo a vida cantando, ai Lili, ai Lili, ai lô, por isso sempre contente estou, ai Lili, ai Lili, ai lô!" Cantávamos até o fim e depois ganhávamos um beijo da visita e saíamos da sala porque "criança não pode escutar conversa de adulto." Todas nós tínhamos um sério trauma por conta disso, até o dia em que resolvemos cantar no coro da Igreja durante as missas e exorcizamos tudo. Um cheiro de mãe.

Anônimo disse...

olhe meu cara, para quem um dia se achou cheio de traumas, você é muito bem resolvido....Dá para indicar que atalhos uso para este método?

Catarina Raquel disse...

Poxa, adoro esta música que teu pai te ensinou... Aprendi num vinil antigão de trilhas de novelas, acho. Está na voz de Gal Costa.

Primeira vez que leio suas crônicas. Tenho muitas traumas de infância, mas não fui muito hábil em desenvolver Métodos Pessoais de Recuperação de Traumas.

Um abraço,
Catarina

Leitora assídua... disse...

Sama...
Eu sempre leio suas cronicas, já li seus livros e como você, sou jornalista.
Queria lhe pedir um favor, do tipo que não sei se é possível pedir aos escritores e cronistas: Um texto personalizado! =D

Eu tinha um relacionamento de muitos anos e por conta de ciumes ele esta no fim...

Você já passou por isso? O que acha desse mal tão feio, o ciume...

Obrigada!

jamille disse...

O que a gente faz com nossas experiências de vida nos transforma no que somos hoje. E vc, meu querido, é especialíssimo e único, Cara-pálida!
beijos.

samarone disse...

Leitora assídua, mande um email para mim (samalima@gmail.com), que não me furtarei em escrever um texto personalizado para salvar teu amor. Quero dizer...vou tentar, né?
abraço,
samarone

fabiana disse...

vixe, Saminha, pois eu te acho tao lindo que nunca vou ter coragem de te conhecer.

Anônimo disse...

e apois! essa de hoje tá massa...
kkkkkkkkkkk, truamas, quem não os têm...mas, esses teus metodos para superação são ótimos.Jogar futebol, beber suco de maracujá e assistir ao esporte espetacular....Sim, para terminar, eu também... não te acho feio, não.Normal, como diria minha filha.

keila aquino disse...

Eita Sama, quem não tem traumas??
Acho que todo mundo.
Tenho uma coisa pra te falar... eu adoro Karaokê! rsrsrsrs
Mas nem por isso deixo de ser sua amiga, ok?
Mas me diz uma coisa (se não for segredo, claro!): por que cargas d'água vc foi "convidado" a se retirar da escola, hein? rsrsrsrs
Outra coisa! Essa história de reprimir seus dons de cientista tb não foi legal... afinal, dissecação de sapos faz parte do aprendizado, não? rsrs
Agora, tô achando que vc tá querendo é elogios... Então lá vai mais um: vc é uma gracinha, viu?
Beijos!

cometaurbano disse...

Sama, suas crônicas curam qualquer trauma. he he he. Abração do mano PH

Anônimo disse...

Sobre esta coisa de se recuperar de traumas, conheço um cara que diz que so se casou para poder tomar uma lata de leite moça sozinho, uma vez que na casa dele eram 10 irmaos e tudo tinha que dividir. E que ate hoje sempre tem uma latinha de leite moça aberta na geladeira...

Anônimo disse...

Sama, hoje dei minha passadinha por aqui para desanuviar e tomar minha dose semanal de bom humor e humanidade, e resolvi olhar tambem os blogs que tu recomenda. Entrei no "cartas a juca" e me deparei com o seguinte texto:
"E eu não podia dormir, pensando que era uma garota má por pensar, como hoje, que os índios são todos vagabundos que querem beber, vender cestos e viver pescando com o dinheiro do governo.
Aliás, comprei um cesto de uma índia, quinze reais. Não uso pra nada. Ela deve ter bebido bastante, a preguiçosa. Mas no mês passado, quando o comprei, ainda não tomava Stelazine, e, me senti culpada ao vê-la na calçada, sem nem sequer uma garrafinha de cachaça ao lado. Agora passou. Hoje mesmo um índio passou com seus cestos inúteis e nem cogitei comprar algum."
To indignada. Indica mais ela nao, Sama, racismo nao combina com teu blog.
EStou escrevendo como anonimo, porque da um trabalho do cao se increver aqui, mas meu nome é Ana Paula Maravalho, e meu imeio é maravalho@hotmail.com

Julio Vila Nova disse...

Samarone, divulga aí tua participação no festival Literário do Recife, com a reedição do Estuário. Qual é o dia/hora/local ?

samarone disse...

Ana Paula, vou dar uma reparada no texto que tu cita.
julio, estou definindo a data do lançamento. Avisarei.
abraços a todos.
sama

betita disse...

Sua "psicologia" para traumas é melhor que a minha.
Chêro!

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Fala sério né Sama, acho legal que vc tenha conseguido se recuperar de seus traumas, mas fico feliz por eles terem acontecidos, principalmente com vc, porque afinal quem conseguiria lidar com eles tão bem como vc, e divulgá-los de forma tão aproveitosa para aqueles que precisam aprender a lidar com os seus?