sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Zé Butico

Sento num banco de praça à guisa de tomar algumas notas soltas. É noite. Ao lado, numa quadra de futebol de salão, uma pelada vai caminhando, acirrada, entre gritos e chutes. Há skatistas e ciclistas. Passa uma senhora gorda, com seu cachorro pequeno e bem cuidado. Reparo bem. O animal, daqueles que tomam banho com água quente e xampu, usa uma pequena roupinha. Faz côcô, ela puxa um saquinho da bolsa, recolhe o material radioativo e coloca no lixo.

Ao lado, um homem brinca com um cachorro, um vira-lata de primeira grandeza. Fico espiando. Não parece um homem e um cão. Parecem dois meninos, de idade incerta. Lá pelas tantas, o homem vem sentar no banco ao lado. Tem uns 50 anos, é aquele sujeito troncudo, atarraxado, de carne dura. Parece as gentes do sertão. É baixinho e usa um bigode fino.

Ele senta, o cão fica ao lado, altivo. Depois, o animal sai para uma volta ali por perto. Vai caçar uma arvorezinha-mictório, creio, para aliviar a barra.

“Como é o nome da fera?”, pergunto.

“Zé Butico”, responde, com um sorriso.

“Ele tem três anos, é o rei do parque”.

Daqui a pouco, o cão volta, fica perto.

Chamo Zé Butico com os dedos, ele me trata com desdém e um olhar ausente.

“Zé Butico! Zé Butico!”, chamo animadíssimo. Nada. O cão me ignora olimpicamente.

“Quando as cachorras dele estão viçando, ninguém chega perto, que ele quebra no pau mesmo”, me explica o sertanejo.

A conversa já pegou. Sei quando isso acontece.

“Enconteri ele no posto de gasolina. Botei o olho nele e disse - é Zé Butico, o nome desse cachorro. Vi que ele também foi com a minha cara".

E ficou assim mesmo. Amor à primeira vista.

Pensei em assoviar, mas o meu amigo, que tem uma intuição fortíssima, me alertou:

“Nem adianta chamar assoviando, que ele não vem”.

Teimoso que sou, dou uma assoviada suave, aquela que todo cachorro atende, mas o cachorro ignora. Mais freesco!

“Agora, basta eu dizer Zé Butico! – que ele vem”.

Nessa hora, o frango do cachorro olha para ele, entendendo tudo. Eu acho que eles até fazem esse negócio combinado.

A conversa foi rendendo. Daqui a pouco, toca o celular do meu amigo de praça. Ele chama o cachorro, e a coisa começa a virar um espetáculo de circo.

“Eu viro a orelha dele e boto o celular. Ele fica feliz”.

Então, ele chama o Zé e vira a orelha dele. Coloca o celular juntinho, e o canino abre aquele largo sorriso. Não sei se algum dos meus leitores já passou pela experiência estética e existencial de falar ao celular com um cachorro. Se fez isso ontem, informo que presenciei a cena, e que o cão se chama Zé Butico.

Acabada a ligação, meu amigo passou à definição psicológica do animal.

“Ele não gosta é de cheira-cola e velho que é ruim. Ele dá uma mordida que parece um leão”.

Surgiu outra dúvida: como ele sabe que alguém está cheirando cola? Treinamento na Polícia? E como descobrir quando um velho é ruim? Terá o cachorro um sexto sentido apuradíssimo, contra os malas da terceira idade? Por sorte, não faço parte de nenhum dos dois grupos. Mas, a título de precaução, paro de chamar Zé Butico com aquela animação da amizade recente.

Daqui a pouco, meu amigo resolve sair.

“Vou aqui, pegar uma cerveja. Vê como ele não sai do canto, até eu voltar”.

O homem sai, Zé Butico olha, com aquele cansaço das lidas do dia e as preocupações da carne, fora as encenações no parque. Sabe que estamos falando dele, o pilantra, e segue atrás do seu dono.

A madame volta com seu cachorrinho, e me parece sem nenhuma personalidade, mesmo que tenha seu côcô recolhido.

Sinceramente, eu sou mais mesmo é o Zé Butico.


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9 comentários:

Ivanzinho disse...

A melhor parte da crônica foi o "a guisa". Sama, vou falar a verdade. Não fui pro teu não-lançamento pq minha mulher não deixou. Pense numa desculpa perfeita hehehehe.

Anônimo disse...

Samarone, quanta custa o novo Estuário ??

samarone disse...

Vai custar R$ 25,00.
samarone

Larissa Villaça disse...

Eu gostaria de comprar a segunda edição. =)

e-mail: tralalalali@yahoo.com.br

Brigada e abraços.

Anônimo disse...

Sama gostaria de comprar a segunda edição.
anafpsa@gmail.com

Um abraço
Ana

Mariana disse...

Mariana Mesquita
marimesq@gmail.com

Cheiro!

Anônimo disse...

tá, vou comprar o estuário, mas quero o zé...
silviacrivellare@hotmail.com

Anônimo disse...

também quero comprar - filipedesouzaleao@yahoo.com.br

disse...

Eu quero também !!!
Ainda vale ??

Josemando
pergunte@yahoo.com