domingo, 8 de outubro de 2006

O homem dos olhos azuis, (ou A partilha das intensidades)

Ela trabalha como voluntária em um hospital que atende portadores do HIV e já me contou muitas histórias de amor, perdas, reencontros, frustrações, dores. Ontem, ela me ligou de Fortaleza, e conversamos longamente. Foi então que me contou a história do homem de olhos azuis.

Ele chegou ao hospital inconsciente. Era já um senhor de uns 70 anos, forte, aprumado, aqueles homens do interior, acostumados às lidas com a terra. Ficou em uma enfermaria sozinho, e naquela solidão, iria caminhar para os últimos dias.

Então, a minha amiga chegou para o seu plantão e ficou sabendo dele. Foi visitá-lo. Como faz habitualmente, se aproximou com aquela delicadeza das pessoas que convivem com a dor e começou a conversar com aquele homem. Não lembro agora o nome dele. Ela, a minha amiga, se chama Mirtes. É um tipo de gente que faz o mundo ser mais bonito, mais intenso, mais mundo.

Cada plantão, Mirtes visitava o senhor inconsciente, mergulhado em sua penumbra. Ela sequer sabia a cor dos seus olhos. Chegava mansamente e falava as coisas que sua intuição mandava, mesmo sabendo que não teria resposta. Dizia para ele não ter medo, que não estava sozinho, que tinha gente cuidando, que ficasse tranqüilo. Mais que falar, ela tocava em suas mãos, passava a mão no rosto. Acho isso uma reverência.

Até que um dia, Mirtes tomou um susto. Logo que chegou ao hospital, uma enfermeira a procurou.

“Ele voltou!”

Sim, depois de várias semanas naquela solidão da enfermaria, na solidão do próprio corpo, o homem despertara. Mirtes foi ao seu encontro. Olhou para aquele senhor e viu um par de olhos imensamente azuis, um azul que nenhuma literatura poderia definir. Azul-esquecimento, azul-saudade, azul-ternura, azulíssimos olhos de um senhor idoso, agora brilhando.

Emocionada, ela tocou em suas mãos e começou a falar:

“Amigo, que bom que você reagiu...”

“Eu reconheço essa voz. Era a pessoa que conversava comigo”, respondeu ele.

Ela confirmou. Sim, estivera várias vezes com ele. Conversaram longamente. Ele disse que só tinha medo de uma coisa. Era quando uma voz metálica chamava algum médico ou enfermeira, pelo auto-falante do hospital.

“Eu achava que a voz iria chamar meu nome, me chamando para o inferno”.

Riram um bocado. Ele repetiu várias vezes que reconhecia muito bem a sua voz, era a mulher que sempre falava com ele. A Mirtes contemplou aqueles olhos azuis sereníssimos com a felicidade dos extremos. Deve ter juntado os cacos das tantas perdas dos últimos meses, os olhares que fecham e não voltam a brilhar para o luminoso da vida.

Um belo dia, o senhor voltou para sua cidade, no interior do Ceará, e nunca mais se viram.

Mirtes me contou essa história ontem, ao telefone. Não sei o que há, mas ultimamente tenho escutado histórias assim, intensas.

Faço aqui a partilha das intensidades.


Para Mirtes Machado, que não lê coisas na Internet, mas lê a alma de tantas criaturas...

6 comentários:

Anônimo disse...

Os teus olhos podem não ser azuis mas a tua alma é transparente, tuas palavras belas. Você também lê a alma das pessoas e não só lê, traduz e nos sensibiliza e encaminha ao encontro do outro.

E quanto ao lançamento do livro, será hoje em seu Vital? Por favor retorne pois quero comprar 3 exemplares.

Daniela Carvalho disse...

Intensidade é o que não falta nas suas palavras...
Gostei da entrevista no Diario, boa sorte com o livro!

Mandrey disse...

Belo texto, Samarone.

Preciso dar um jeito de "voar mais cedo do trabalho" para comprar o seu livro.

Anônimo disse...

Gostaria de ter ido ontem, lhe dar mais um beijo. Continuo no meu "estuário", cercada de verde por todos os lados. Adorei a entrevista no Viver.
Beijo
Naire

Anônimo disse...

Sama,
Poderias informar o telefone de seu Vital? Quero comprar teu livro, mas não quero dar a viagem perdida, quero ligar antes para saber se tem...obg.

samarone disse...

telefone de seu vital: 3442.5473
ele só fecha o estabelecimento à tarde, para uma soneca.
abraços,
samarone