quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Sorte

Nunca ganhei nada em sorteios, rifas, loterias. Há muitos anos, numa distração divina, acertei uns números no jogo do Bicho, e levantei uma graninha. Coisa pouca, merreis, trocados, uns trinta contos. E foi só. Nunca me considerei um homem de sorte.

Uma vez, em São Paulo, fizeram um sorteio grande num jornal em que eu trabalhava. Tinha uma cafeteira linda, perfeita, acho que era italiana, e fiquei pensando: puxa, se eu ganho essa cafeteira, heim?

Eu estava com o número 147 na mão, creio, eu lá vou lembrar um sorteio de fim de ano em São Paulo, há dez anos? Fica o 147 para facilitar o andamento da crônica.

Lá pelas tantas, a mulher do sorteio chamou o número 147. Eu fiquei olhando o papel e não me caiu a ficha. Eu via outro número. Ela chamou o número três vezes:

"O cento e quarenta e sete, está ai?"

Como ninguém se apresentou, porque o 147 era eu mesmo, perderam a paciência e sortearam outro número. A pessoa sorteada deu um pulo e correu para pegar a cafeteira.

Um amigo ao lado viu o 147 e berrou:

"Ei, o Samarone aqui ganhou!"

Era tarde, a mulher já estava com a cafeteira na cozinha de casa, fazendo seu capuccino e torrando uma boa tapioca, para tudo ficar completo.

Eu estava distraído demais com a sorte. Voltei para casa e mandei ver no velho Nescafé. Tem um conto do Júlio Cortázar em que ele compara a miséria absoluta à falta do Nescafé. Quando nem isso o sujeito tem em casa, está mesmo fodido. Mas que aquela cafeteira seria uma maravilha na minha desértica cozinha, isso seria.

Há uns dois meses, a locadora perto daqui de casa, a famosa "Altas Horas", inventou uma promoção. A cada filme locado, o camarada poderia colocar a notinha numa urna, e concorrer a um DVD. A primeira coisa que pensei foi somente uma: jamais esse DVD vai lá para minha casa, porque não tenho sorte para essas coisas. Seria até uma boa ganhar o prêmio, porque meu aparelho está engasgando em tudo que é filme, e sempre na melhor parte. A última vez que passei por lá, Vicente me informou que a segunda urna já estava quase cheia. Essa é que não ganho mesmo, pensei.

Pois bem. Ontem, cheguei em casa cansado, escutei os recados na secretária eletrônica e tinha uma mensagem do Vicente, que vem a ser o dono da locadora.

"Samarone, passa aqui, que tu ganhasse o sorteio do DVD".

Né fogo?

Passei lá hoje de manhã, para ver se eu não tinha sonhado. Como abre às 10h, às 9h55 eu estava lá. Vicente me recebeu com aquele sorrisão e foi logo pegando a caixinha, que está aqui ao meu lado.

"Mas Vicente, eu quase nem coloquei cupom nenhum..."

"Você é um homem de sorte".

Puxa, a frase ficou assim, reverberando. Homem de sorte, homem de sorte.

Saí perambulando para o Poço da Panela. Iria tomar um táxi, para ir a uma ONG, receber meu salário de professor. Quando eu vou receber o salário, gosto de pegar táxi, porque o Recife está um festival de assaltos. Naná veio passando na Kombi e me ofereceu uma carona. Economizei uns dez reais, e ainda botamos nossa conversa fiada em dia.

Acho que isso é sorte também.

Tive algumas sortes na vida. Em algumas vezes, estava distraído demais, nem percebi o presente. Em outras, estava querendo demais o que julgava merecer, e não veio. Da última vez, eu nem lembrava que tinha arriscado um pouquinho de nada, e esse quase nada ficou lá, brincando.

Parece que é isso, a sorte. Esse quase nada, que fica brincando com a gente.

12 comentários:

Sonia disse...

Reclama não, Samarone, pelo menos o DVD você ganhou. Bem que estou precisando de um, pois quase não acho mais filme em VHS para alugar. E os tais trinta contos certamente eram uma grana de respeito na época.
Mas eu insisto não desisto, como dizia a Loteria Federal; faço minha fezinha toda semana.

Anônimo disse...

sorte minha que lê suas crônicas todos os dias !!
seiva

poemusicas disse...

Comigo também, eu nunca eu nunca havia ganho nada através de sorteios. E até que faço fé. Vou às casas lotéricas, compro bônus no meu trabalho e nada. No entanto num belo dia, passaram por minha mesa de trabalho e me ofereceram, aliás me impuseram a compra de um cupom para o sorteio, na hora eu nem sabia bem o que era. Uma coisa interessante eera que o pagamento seria consignado em folha, ou seja, a pouco menos de um mês após o sorteio. Um domingo, eu estava na minha casa e o telefone tocou. Era alguém, já com brincadeira, pedinco que eu fosse pegar a TV 29 polegadas que eu havia ganho. Eu desconfiado, retruquei mas ele insistiu, foi você mesmo. Vem pegar. E eu fui. E ficou nisso, continuo como estava antes.

Dulce disse...

Acho que é, Sama. "Esse quase nada que fica brincando com a gente". Essa é a melhor definição de sorte que ouvi até hoje.
Beijos.

JJ disse...

Olá Sama,

Comigo aconteceu algo parecido tb em Sampa, qdo eu morava lá, uns 30 anos atrás. Meu primeiro sorteio foi um ovo de páscoa, na empresa de Engenharia que eu trabalhava como desenhista. Mas antes que eu pusesse minhas mãos no tal ovo, a turma toda (desenhistas, projetistas, secretárias e até alguns engenheiros), já haviam aberto o dito cujo e, bonzinhos, ainda deixaram uns 3 bonbons para mim e um pedaço do chocolate. Foi assim meu primeiro contato com a sorte!

JJ

Julio Vila Nova disse...

Sama, vê se tem Santa X Vasco na loteca e arrisca o palpite no Mais Querido, para aproveitar a boa maré dessa tua onda de sorte.

Anônimo disse...

Pois bem, se é pra falar sobre sorte, sorteios, vai a primeira história e única até agora sobre eu ser sorteada. Como você,nem espero sorteio algum, pra falar a verdade, difícil mesmo preencher qualquer cupom. Urna?Só mesmo a eletrônica(no 13, claro!). Enfim,há uns 8 anos, estava eu após um dia de simpósio, esperando o bendito sorteio. Comecei otimista: mirei o maior pacote,dentre tantos perfilados no palco do auditório.O primeiro se foi...nada pra mim...mais um..nada...o bendito pacote...nada...e fui assim, mais humildemente, decendo em tamanho minha figa, até me concentrar totalmente em uma pequena caixinha que estava quase escondida. Fiquei lá, tico e teco incansáveis. Até que veio o meu número(pode ter sido 147)e eu...nossa! Que pulo dei e que grito!O detalhe é que eu estava na primeira fila. Enfim, cheguei em casa satisfeitíssima com pacotinho na mão. Mas, qual não foi minha surpresa quando abri: uma cueca samba-canção para uma criatura mais solteira, na época, do que a Madre Tereza.Fazer o quê? Dei a meu irmão que não vestiu a bendita samba-canção, tadinha.Seu destino final foi puir amarelada no fundo de uma gaveta.Essa história de sorte e azar...creio, na verdade, que essa é a hora de Deus brincar um pouquinho com a gente e nos pregar peças ou nos ajudar um pouquinho, quem sabe? E aí ficamos como quase deuses, achando que temos a chave do prêmio. Eita!Quanto blá blá blá. Aproveita o dvd e assite "Quase Deuses", é interessante.Beijo. Magna

Anna disse...

Samarone, mais uma vez, parabéns por nos presentear com tanta poesia nas coisas simples da vida. Nós temos sorte de poder lê-lo com freqüência e emoção. Aproveito para sugerir um filme lindo, baseado em fatos reais, que para nós que trabalhamos com comunidades meio esquecidas da sorte (para não dizer governantes) é empolgante. O filme é: Vem Dançar, com Antonio Banderas. No mais, aproveite o longo final de semana curtindo bem a sorte que é ser como você é. Um cheiro de mãe.

Anônimo disse...

Sorte....
Fui sorteada há bem pouco tempo. Recebi o resultado "negativo para metástase". Isso é sorte, o resto é brinde. Viva a vida!!!!!!!!
Beijão
Naire

Anônimo disse...

Sama, manda as dezenas da mega-sena de sábado. Acho que vou arriscar seguindo o teu palpite. Abração do mano PH

Pabá disse...

rapaz do tem muita sorte mesmo visse?
felicidades.

Zeca disse...

Quais foram os filmes que tu pegasse para ganhar o Dvd?