sexta-feira, 25 de maio de 2007

A descoberta dos mundos: os livros entrando na vida dos jovens

Texto publicado originalmente no "Suplemento Cultural", sob a batuta do Raimundo Carrero.
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O Pedro disse logo nas primeiras aulas que não era muito chegado a livro. Achava aquele negócio de ficar um tempo quieto, com um livro nas mãos, quase uma perda de tempo. “Quando começava a ler, batia uma preguiça, dava sono, eu não seguia”, diz. O Herivelton, que é da Igreja Batista, lia a Bíblia e quase nada mais. “Tentei algumas vezes pegar outro livro e me submeter, mas não conseguia”. Com Aldemir, a coisa era mais complicada. “Eu tinha um descaso geral, passava batido. Lia por ler. Não tinha essa relação que vivo hoje com os livros, feito marido e mulher”.

Pedro Henrique, 18 anos, é morador do bairro de Tejipió. Atualmente está terminando de ler o volume II de “Mitologia Grega”, de Junito de Souza Brandão, um calhamaço de mais de 300 páginas. O volume I ele devorou em três semanas. Já leu também “Olga”, de Fernando Morais, “As aventuras de Robinson Crusoé” e está terminando “O mais longo dos dias”, de Cornelius Ryan. Recentemente descobriu uma biblioteca do avô, meio abandonada, e começou a resgatar livros para sua casa. Está montando sua própria biblioteca.

Herivelton dos Santos Oliveira, vinte anos, mora nos Coelhos, está lando “Contos Brasileiros, volume III”, daquela famosa coleção “Para Gostar de Ler”. Nos últimos meses, aprendeu a dividir a Bíblia com outros livros. Já leu “Futebol ao Sol e à Sombra”, do uruguaio Eduardo Galeano, e se atreveu a mergulhar no mundo do Graciliano Ramos, com “Vidas Secas”. “Quando chegava na sala de aula, os colegas falavam entusiasmados do que estavam lendo. Como eu não lia, ficava todo por fora”, lembra. “Me influenciou ver ao meu redor todo mundo lendo”, lembra.

Aldemir Félix, que gosta de ser chamado de Suco, o que vive uma relação de “marido e mulher com os livros, tem 19 anos e mora em Brasília Teimosa. Depois de ler Pablo Neruda, descobriu que as coisas que tinha na cabeça, e não conseguia colocar para fora, se chamava poesia. “Comecei a escrever, a vomitar palavras. Tive crise de verme de palavras, diarréia de palavras. Está virando uma doença psicológica”, diz, com o exagero dos poetas. Antes de dormir, escreve no celular, e no dia seguinte, passa para o papel. Atualmente, organiza os poemas para um livro, intitulado “Poemas sujos para corações limpos”.

São três histórias que chamam a atenção, entre os 80 jovens que freqüentam a Escola Kabum!, de Arte e Tecnologia, um projeto da Oi Futuro, realizado pela ONG Auçuba, desde maio do ano passado. Três jovens que não liam, ou liam muito pouco (geralmente por obrigação da escola), não davam importância aos livros, e agora estão mergulhados neste universo. Esse caminho da Literatura que, como todos sabem, é uma paixão sem volta.

Escrevo este texto, portanto, para compartilhar uma paixão. Eu, que leio e escrevo há muitos anos, estou agora, com meus quase 40 anos, encarregado de transmitir não propriamente um conhecimento, mas uma paixão. Sou o educador da Oficina da Palavra, uma das disciplinas oferecidas pela Kabum! Não venho trazer segredos milagrosos ou propostas pedagógicas, apenas compartilhar. Com alguma sorte, refletir sobre os projetos sociais que são desenvolvidos aos montes, em nosso País, e conseguem deixar de fora os livros como fonte essencial para a construção do caráter, de inspiração para a alma, em tempos cada vez mais ásperos.

“Do que é que tu gosta?” – Não adianta chegar para jovens com a lista dos livros do Vestibular. “Iracema”, “A moreninha”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Memórias de um Sargento de Milícias”, para você que lê o Suplemento Cultural, pode ser bacana e animador, mas para quem ainda não entrou na floresta dos livros, é um saco, algo que dá sono, preguiça, dor de cabeça. A melhor coisa a fazer, para abrir caminhos, é descobrir o que os jovens gostam.

Descobri que Pedro adorava coisas relacionadas à Segunda Guerra. Fui à minha biblioteca, encontrei “O relatório de Buncheald”, uma descrição detalhada de um campo de concentração, com aquelas fotos tenebrosas. O livro é um tijolo. Pedro, o mesmo que achava leitura perda de tempo, ficou com os olhos brilhando. Levou para casa e simplesmente devorou o livro. “Na página 10, 15 de qualquer livro, eu deixava pra lá”, conta. Hoje, quando tenho tempo, fico lendo”. Depois de um silêncio, ele explica o que sente. “Parece que estou dentro da história”. Depois do “Relatório”, ele se agarrou com “Olga”, e sem nenhuma preguiça, leu inteiro.

Herivelton, que gosta de futebol, se amarrou nas pequenas histórias de Eduardo Galeano. Quando algum jornalista ou escritor ía à escola, conversar com os jovens, prestava sempre muita atenção. “Essas visitas do pessoal da área ajudaram muito. Eles contando a paixão pelos livros, dá vontade de ler. Isso me ajudou muito a escrever e até compor”, diz. Ele toca violão e faz suas músicas. “Hoje, procuro tempo para me dedicar a isso”.

O caso de Suco chega a ser intrigante. Com ar e postura rebelde, no início ficava arredio. Quando pegou Pablo Neruda, levou um choque poético. Como tem um jeito muito irreverente e contestador, catei da minha biblioteca “A imprensa livre de Fausto Xolff”, e “O homem e seu algoz”, livro de contos. Suco literalmente teve um surto literário.

Num desses domingos, estava lendo Fausto xxx, quando sua namorada o interrompeu.

“Estás me traindo com os livros”, disse ela.

Suco estava há quatro horas ininterruptas lendo, extasiado. Deu um belo carão na namorada, que o estava atrapalhando, e só terminou depois de seis horas de leitura. “Fui vencido pela fome”, diz. Hoje, a namorada já não estranha sua quietude.

Projetos literários – Os não-leitores começam a colocar no papel suas idéias. Outro dia, Suco assistiu a um documentário sobre “Poetas Marginais do Recife”, do jornalista Pedro Saldanha, e ficou atacado de inspiração. Na parada de ônibus, quis anotar uma idéia, mas o ônibus chegou.

“Me deu uma idéia, eu quis escrever, mas estava sem caneta. Fiquei todo agoniado. Uma mulher ao lado me perguntou: ‘Filho, você está se sentindo bem?’. Eu disse para ela que estava com diarréia”, conta. Chegou à Kabum! com dor de cabeça. “É que a idéia ficou espremida”, diz.

Lívia Damares é um dos poucos casos de jovens que chegaram à escola com uma carga boa de leitura. Tem 18 anos, mora na Bomba do Hemetério, e já tentou Vestibular para Letras duas vezes, sem sucesso. Quando teve sua primeira paixão adolescente, escrevia cartas para o amado, buscava nos dicionários palavras bonitas, para encantar. “Escrevia muito para ele, mas nunca mandei”. Nos momentos tristes, Lívia também sempre escrevia. Na escola, uma professora de Literatura “fazia um auê” em torno dos livros, e ela começou a freqüentar a biblioteca.

Depois, começou a freqüentar o Sesc Casa Amarela, que tem uma boa biblioteca, e os livros foram para sua casa, mesmo que apenas por uns dias. Lembra com paixão o primeiro livro que a emocionou: “A marca de uma lágrima”. Estava com 11 anos e chorou muito.

Hoje, Lívia sente uma diferença. Descobriu a importância da poesia. Antes, ela acha que “escrevia bobagens da minha cabeça”. Consegue agora fazer uma ponte do que lê com os contos, crônicas, poemas que tem em mente. Fala coisas já cheias de estilos, como “está sendo uma mudança muito grande na minha visão literária”. A mudança maior, no entanto, está relacionada com o ato de escrever. “Antes, eu só escrevia quando estava triste. Agora, sempre tenho um papel e uma caneta à mão”.

Suco diz que seu mergulho no mundo da poesia, não tem nada de “modinha” ou paixão efêmera. “Quando eu escrevo, sinto liberdade. O homem só é livre quando escreve e passa a dizer o que sente. Não tem mais patrão, chefe, nada. Tem liberdade e independência.

Enquanto enche cadernos de poesias, coisas que estavam acumuladas em sua cabeça há algum tempo, Suco filosofa. “Ninguém pode mandar em sua leitura. É a independência de si próprio. A pessoa ganha asas para voar. Quando escrevo, quebro a lei da gravidade”, diz.

Nada melhor que um poeta recém-nascido.

6 comentários:

Anônimo disse...

Por isso que acredito que ainda vamos sair dessa. Excelentes relatos.
João Valadares

Anônimo disse...

a saída é simples: educação, envolvendo arte e esportes. basta vontade política e compromisso da classe dominante.
lendo esse texto, dá pra notar que não é muito complicado educar.

Thiago disse...

Pow Sama... belo relato.. e inspirador.. Além de futucar com muitas saudades...

Parece que estou sentado no canto da sala... escutando estas figuras incríveis da Kabum!... conversando com Suco, Herivelton, Lívia, Pedro..

Manda muitos abraços para todos, faça esta caridade para mim.. Talvez assim a saudade diminua um pouco..


Paulino, da Aracaju chuvosa.

Julio Vila Nova disse...

Parabéns, Cabeleira! Belo trabalho! Mostre a Suco o site abaixo, ele deve gostar de ouvir um poema de Neruda dito pelo próprio:
http://leaoramos.blogspot.com/

Anizio Carlos da Silva disse...

Muito bom! Já tinha lido esse texto no Suplemento Cultural. Aliás, faz tempo que não lia; no começo da juventude eu sempre pegava, gostava das crônicas do Zé Cláudio etc. e tal.

Um abraço.

Jean Pierre Chauvin disse...

Prezado Samarone,
conheci esse seu texto sobre a paixão pela leitura e escritura por intermédio de uma nova amiga, também professora de redação, a Bet.
Ela certamente sugeriu que eu o lesse devido a minha provável identificação com suas aulas motivadas e motivadoras.
Enfim, ela acertou. Você merece mais que cumprimentos: merece que sua nova se espalhe pelo planeta. Terei minha quota nisso: vou espalhar, semear seu texto para os alunos a quem leciono.
Parabéns!
Um abraço
do colega JP.