quinta-feira, 31 de maio de 2007

O umbigo


Com ilustração de João Lin

Estávamos voltando de Brasília Teimosa, após uma deliciosa aula de campo com meus alunos, quando o carro que ela dirigia começou a atravessar aquela ponte que não sei o nome, aquela que faz a ligação do Pina com o Recife, como se tudo não fosse Recife. Então ela, que estava dirigindo, disse a seguinte frase:

“Foi aqui que joguei o umbigo das minhas crianças”.

Fiquei mudo, puxei meu caderninho e anotei a frase. Certas coisas que as pessoas me dizem, assim, no meio do dia, são como uma oração, uma bênção, um clarão, daí meu amor pelas palavras.

Então fui puxando assunto, até que ela me contou. É descendente de italianos, nasceu em Nova Bassano, perto da serra gaúcha, e cresceu em Passo Fundo, onde morou até os 21 anos. Conheceu um Pernambucano e veio pra cá.

Isso vem de família, contou. A mãe enterrou seu umbigo debaixo de uma árvore, “numa sanga”. Olhei no Aurélio, sanga quer dizer “pequeno regato, que seca facilmente; escavação profunda no terreno, produzida pelas chuvas ou por correntes de água subterrâneas”. Minha amiga disse que sanga é “uma vertente de água límpida”, e achei muito mais bonito a definição da minha amiga, que a do Aurélio, que Deus o tenha. Fica a versão da minha amiga, enquanto dirigia.

“Dizem que onde você enterra seu umbigo, você não sai”, completou.

Pensei que ela fosse dizer aquelas loas sobre o amor à terra natal, aquele discurso de raízes, mas ela foi para o outro lado.

“Pois quero que meus filhos sejam do mundo”.

Contou que o pai, imigrante italiano, chegou à Bahia, viu que as coisas não estavam boas, então se mandou para o Sul, onde fez a vida, casou, teve filhos. A família cresceu sem este sentimento de pertencer a um lugar específico.

“A gente tem isso, não temos fronteiras”.

Como não sou besta nem nada, fui fazendo perguntinhas e tomando notas.

“Depois que você sai de um lugar, você não é mais de lugar nenhum, é do mundo”, disse.

Lembrei que nasci no Crato, depois morei em Brejo Santo, Imperatriz, Pentecostes, Fortaleza, Recife, Cabo de Santo Agostinho, São Paulo, Recife de novo, Cabo de novo, onde estou agora, e percebi que é isso mesmo. Eu não sou mais de lugar nenhum do mundo, sou do mundo. Meu umbigo ficou em alguma sanga da vida, creio.

Minha amiga inventou uma história linda para os filhos. Que jogou os umbigos no rio e os peixinhos comeram, uma coisa bem bacana. Sempre que passam pela ponte, as crianças querem saber mais detalhes, e ela vai acrescentando, ornamentando, embelezando mais e mais, e eu dou graças a Deus, porque o mundo está precisando mesmo é de beleza, essa beleza simples de inventar uma história para os filhos.

Eu gostaria muito de estar passando por uma ponte do Recife, qualquer dia desses, e encontrar uma mulher com os olhos marejados, com o vento balançando seu vestido e cabelos. Uma mulher que tivesse acabado de jogar nas águas do Capibaribe o umbigo de seu filho.

Eu não perguntaria nada, apenas reduziria o passo para ver a cena. Ela sorriria e comentaria, por uma necessidade humana de compartilhar com um desconhecido emoções profundas:

“É o umbigo do meu filho”.

Eu sorriria e ficaria feliz. Só isso.


Para Ana Luiza Funghetti, claro.

12 comentários:

Anônimo disse...

Oi Sama,
é linda a história do umbigo. O meu minha mãe jogou no alto mar...Neta de pescadores deu este fim aos umbigos da família.
Mas tb conheço a história do umbigo salvador.A mãe de uma amiga minha guardou o umbigo dela e foi através dele que o médico conseguiu fazer um tratamento para curar um tipo de câncer com os restos de sangue que ainda tinha lá . Bem, são as histórias da vida......Depois dessa, acho melhor todo mundo guardar os umbigos.
Adoro seu blog
Ana

Artur Perrusi disse...

Grande Samarone,

descobri somente agora teu blog. E que bela descoberta. Já que não está escrevendo tanto no blog do santinha, o estuário será um bom substituto. Poderei voltar, enfim, a ler a tua prosa. Parabéns, e guarde com cuidado o teu umbigo. Perdeu o umbigo, lascou-se, já dizia minha avó! (Hehe...)

Silvia disse...

quando nasci minha mãe fez do meu umbigo adubo de roseira. ela acreditava que enterrando aquele pedacinho da cria ao lado da rosa traria mais perfume e mais beleza ao seu rebento. a roseira ficou em garanhuns, de onde saí pequeninha, caminhei, voltei, caminhei de novo, sem porto. a rosa comeu o umbigo e depois de muito tempo soube que a plantação se desfez. não sei para onde foi a rosa do meu umbigo, mas em qualquer lugar onde tenha chegado deve ter cultivado um riso, acho que as rosas têm esse poder. bom, sigo caminhando e quanto aos desejos da minha mãe, ela jura de pé junto que foram atendidos. o umbigo alimentou a rosa e se misturou com a terra fértil de uma plantação de vidas petaladas. todas as vezes que a minha mãe conta essa história, ela fica feliz e só isso já vale o mundo, mesmo que a rosa já tenha morrido.
belos ditos belo menino...
un petit bisou pour toi

naire valadares disse...

Sama,
Todos os umbigos da minha família foram jogados em alto mar. Isso é uma tradição trazida por minha avó materna do imenso Portugal. Agora, comecei a jogar os dos netos. Dizia minha avó, que se faz isso para ningúem se afogar. O meu foi bater em terra árida e se um dia o sertão virar mar eu não morrerei afogada.
Beijo
Naire

Julio Vila Nova disse...

Beleza de prosa, cabeleira! Poesia, poesia...

Anônimo disse...

Oi, Sama! Sou irmã da Ana Luiza e nos conhecemos em janeiro, na Kabum. Difícil escrever para um poeta, mas impossível deixar passar em branco este momento tão emocionante para mim. Acredito sim que, "depois que você sai de um lugar, você não é mais de lugar nenhum, é do mundo". Ainda não parei a minha peregrinação.
Vou perguntar a minha mãe em que local ela enterrou o meu umbigo!! Parabéns pelas lindas palavras.

Um beijo,

Luciana Funghetti.

Anônimo disse...

Poxa sama,

que momento lindo.Minha mãe sempre me diz que jogou meu umbigo na ponte Maurício de nassau( aquela que começa na Av. Marquês de Olinda, no Recife antigo)e ficou olhando ele até perdê-lo de vista. Por acaso ou não é por ela que eu tenho que atravessar todos os dias para ir ao trabalho já há quase 5 anos. Não sei onde meu umbigo foi parar, mas sempre viajo e sempre volto pra cá.

Valeu nos fazer relembrar desse momento tão delicado.

Um beijão.

Simone Pires

Daniela Carvalho disse...

O meu umbigo, só Deus sabe onde foi parar, mas o do meu filho tá guardadinho dentro do meu armário há 11 anos, ainda não tive coragem de me separar dele. Quem sabe um dia...

Samarone Lima disse...

Caramba, agora vou ter que perguntar à minha mãe onde ela jogou meu umbigo...
samarone

Anônimo disse...

Eu precisava ler uma historia assim.
Obrigada.

adoro o blog

Anônimo disse...

Sou a mãe da mininha que teve seu umbigo enterrado ao pé da roseira de onde nascia lindas rosas vermelhas, de pétalas macias, perfume suave, orvalhadas com se fossem lágrimas, entreabertas como se quisesse ver o mundo aos pouquinhos. Naquele momento eu era a roseira.

Anônimo disse...

puxa vida belo relato, leva a reflexao das nossas raizes e o medo do desconhecido, de uma mudança repentina e tb ajuda a ver que ela tem razao e como a simplicidade de um relato consegue se tão cheio verdade
mais uma vez parabens