terça-feira, 1 de maio de 2007

Travessias

Há momentos em que a vida parece testar a gente. Agüenta? Então segura mais essa. Agüentou? Então vai mais um bocadinho. E devagar, sem perceber, o sujeito vai segurando a onda, fazendo o que não imaginava. Essa coisa eu chamo de travessia.

Falo isso por conta de uma jornada em hospitais, emergências, enfermarias do Recife. É uma realidade de quem tem uma parente de 80 anos, uma tia-avó, internada de repente, em meio a uma crise aguda do rim (sim, ela só tem um), e dores à beira do insuportável na coluna, por conta de duas vértebras quebradas, fruto das quedas da vida.

Nessas horas, a vida parece que faz o seguinte: cobra, mas dá força, numa cerimônia secreta.

Calhou que o destino final da minha tia, para se recuperar também de uma infecção urinária, acabou sendo um hospital no Janga, a 60 km do Cabo, onde moramos. A turma do aquecimento global vai ficar meio fula da vida comigo, mas o que ajudei a esculhambar a camada de ozônio, a bordo do Fiat da tia, não está no gibi. Amigos, o que gastei de combustível fóssil, é de fazer chorar. Era um vai e vem interminável, levando trazendo parentes e agregados. Cada vez que eu chegava à clínica, olhava para o céu e sentia o calor aumentando. Detonei umas duas geleiras, e três esquimós estão com câncer de pele por causa do meu exagero. Para equilibrar, estou usando o ventilador somente no dois, e só abro a geladeira quando tenho certeza do que quero.

Em 15 dias, me ocorreu somente uma coisa – ou eu levaria as coisas com uma pitada de humor, ou acabaria internado. É que tem muitos momentos na vida, nessas crises, em que a gente parece que está sendo testado.

Quando um médico olha para uma pessoa muito querida, de 80 anos, e diz que ela vai ter que entrar na hemodiálise naquele momento, dá vontade de chorar e dizer que é muita malvadeza, mas a vida está testando. Você tem que agüentar, meu velho, ou então tudo se esculhamba ainda mais. Rosa, a fiel escudeira da tia, esperou ela entrar na sala da hemodiálise, para fazer o tal cateter, e soltou as lágrimas. Eram umas lágrimas para lá de sofridas, eu garanto, as lágrimas da Rosa.

Todo mundo já teve (ou tem) um parente num hospital, sabe como é importante aquele soro, para ir ajudando a recuperar as forças. Quando a enfermeira não consegue encontrar a veia, depois de vários dias de internação, é que o camarada sente faltar um pouco do chão. É hora de respirar fundo, fingir que olha para a TV, enquanto a agulha chafurda no braço, que parece uma peneira.

Neste vai e vem, você vai encontrar todo tipo de médico, pouquíssimos afeitos ao preceito básico de olhar o paciente e escutá-lo com uma certa humildade. O doutor Flávio Medeiros, por exemplo, é um inovador da Medicina. Inventou uma consulta que não demora mais de dois minutos e meio. É um oi, tudo bem, como a senhora está, uns cutucões ali, outros aqui, tira a pressão, escuta o coração e vai embora. Presenciei o mesmo procedimento quatro vezes. Dizem que ele é o dono do Hospital Santa Cecília, acho que deve ser mesmo. Tempo é dinheiro, dizem os empresários.

Mas não faça muitas perguntas ao doutor Flávio, que ele não gosta. Fica irritado, fecha a cara, quando você, um reles parente, quer detalhes do quadro de uma pessoa querida.

“O quadro é estável”, foi a frase completa que consegui arrancar dele, em 10 dias de internação.

O material que fui anotando nos meus caderninhos daria uma ótima seqüência, tipo “nos corredores do Santa Cecília”.

Certo dia, um médico pediu outra radiografia da tia, a segunda em três dias.

Questionei, perguntei onde estava a anterior, fiz aquele escarcéu básico, até que o doutor Flávio me entregou a radiografia.

Minha tia estava no apartamento 11, ele me entregou uma radiografia do apartamento 105-B.

“Doutor, essa radiografia é de outro paciente”, eu disse.

“Ah, é mesmo”, me disse ele, como se fosse uma troca de um suco de laranja por um de maracujá.

Pela graça divina, nos hospitais ainda encontramos gente como Zezé, uma enfermeira baixinha e atarracada, com um eterno sorriso, mesmo quando dobra o plantão e está exausta.

É daquele tipo de gente que trabalha com tanto cuidado, bota tanto carinho em cada gesto, que a gente até esquece um médico evasivo e acredita na cura.

Quando a tia recebeu alta, a Zezé veio se despedir. Deu as mãos, olhou para minha tia nos olhos e disse que queria encontra-la em um local bem bonito, menos em um hospital.

A tia, que já estava se sentindo bem, ficou melhor.

Para a Zezé, que olhou minha tia nos olhos.

14 comentários:

WoLfMaN_ disse...

Samarone... sou seu velho fã desde que vc era colunista do JC... suas cronicas me inspiram... hoje estou como sua tia: internado... mas bem longe da minha terra querida (estou no rio de janeiro), longe das pessoas que gosto e realizando um tratamento duro (estou fazendo um transplante de medula...), assim como vc resolvi escrever sobre isso : http://www.diariodeumtransplante.blogspot.com, desejo sorte a você e a sua tia... continue escrevendo suas belas cronicas... elas me inspiram a continuar vivendo... abraços...

cida guilherme disse...

Samarone

Desejo boa saúde a tua tia Flocely. A tua dor, sobretudo a de veres uma pessoa amada não ser atendida com amor, é a de tantas outras pessoas, inclusive a minha.
Espero que consigamos encontrar muitaz Zezés nesse mundo da medicina curativa. Digo da curativa, porque da preventina conseguimos encontrar bem mais pessoas comprometidas com o próximo.

Um grande abraço e boa sorte aí pra ti e para tia Flocely

Anônimo disse...

um beijo imenso para a Zezé, pela simplicidade de olhar e sorrir. Um olhar cheio de ternura para essa mulher que dá lições de vida a cada luta, a tia. E un petit bisou pour toi.

Mauricio disse...

Caro Samarone,
Desejo saúde e muito bom humor para sua tia, que ela derrote mais esta.
Quanto aos comentários sobre os médicos dos hospitais Recifenses, concordo em tudo que você falou. Eles se transformaram em apenas um meio de garantir a transferência dos pagamentos do governo ou planos de saúde para suas ricas contas bancárias, tratando a todos com números e sem sequer se preocupar que aquilo que está na frente deles é um ser humano, com família, esperanças e sonhos, ou seja, as mesmas coisas que eles têm e pensam em fazer com o dinheiro que ganham. Da clínica mais popular do SUS ao melhor hospital particular, a realidade é essa: exames, exames e mais exames, sem explicações e nem maiores indagações, a não ser a báscia : "qual seu plano de saúde"? Que eles nunca precisem passar pelo que nos proporcionam.
Abraços.

Anônimo disse...

Eita que Tia é mesmo uma danadinha. Feliz Aniversário, Poeta. Grande beijo.
Adri

Marlon Vila Nova disse...

Ainda bem que ainda existem "Zezés" por aí. Um beijo pra ela.
E saúde pra sua tia.
Abração!

Carol disse...

sama, que tu titia fique logo boa. que fique tudo azul. tb fico p da vida com medicos feito esses. costumo dizer que a pessoa tem que ter um advogado e um mèdico na familia pra ajudar, pq a gente nao entende nada né?. Eu estou aqui em barcelona, preparando pra começar o caminho no sabado. xero pra tu pelos teus caminhos. to com um blog pra economizar nos emails
www.caminhodebolinho.blogspot.com.

Julio Vila Nova disse...
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Anônimo disse...

Samarone,

Sou uma dos 3.033 leitores anônimos deste blog, constantementes presenteados por tuas sensíveis palavras e te acompanho desde o JC. Através das tuas crônicas conheci um monte de - grandes e íntimos - amigos que me acompanham e tornam mais suave a minha vida diária, como Gustavo de Castro, Juan Gelman, Roberto Juarroz, Antonio Porchia, Erri de Luca e Thoreau (fiz este ano a minha declaração de imposto de renda lendo A Desobediência Civil e podes imaginar os meus sentimentos...), ontem à noite lendo um comentário teu no blog de Gustavo, ganhei mais um amigo - presente também da generosa chuva que mata as muitas sedes e renova as palavras - Paul Celan e descobri um poeta de rara profundidade que nos diz que “já é tempo de saber! /Tempo da pedra dispor-se a florescer, de um coração palpitar pelo inquieto...” E, neste dia de hoje, em que se aprofundam as tuas raízes e os teus saberes, teu aniversário, só posso te agradecer e te homenagear pela boca de um poeta que possa te traduzir e a teu grande e iluminado coração.

"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."

Jalaluddin Rumi (1207-1273)

Muitos beijos e que continues a nos ofertar o teu florescer, as tuas inquietações e a tua luz.

Renilde Fraga

Ela disse...

Bela história e qu exemplo de força, determinação e fé! São donas Zezés que nos enchem de esperança no ser humano.

Flávio Medeiros... Hum... Anotei.

Anônimo disse...

Bonitinha as palavras do Samarone Lima, Assim como ele mesmo disse esculhambar a camada de ozônio e causar câncer em três esquimós e com seu exagero derreteu até geleiras, assim fez com palavras exageradas quando falou sobre o renomado e querido médico o então Dr: Flávio medeiros. Caro Samarone, com todo respeito como tenho a todos os seres, inclusive a voce, aqui retrato minha indignação ao seu infeliz comentário que com palavras bonitinhas arrancou solidariedade à inverdades sobre o tratamento de sua tia avó, pelo Estimado Dr: Flávio . E é com o mesmo exagero que te informo que sou testemunha de tratamentos perfeitos realizados pelo Doutor acima mencionado. Ele salvou a vida da minha mãe numa cirurgia arriscadíssima e com muita competencia. Com mais exagero ainda te pergunto porque levou sua Tia avó de tão longe , justamente para o DR: Flávio atendê-la ? Não não não ! Ja sei ! foi indicação de alguém. Julgo eu, pois com a fama de compentente e até santo doutor Flávio, penso eu que foi por seu sucesso como Médico o qual tenho como um santo. Portanto suas palavras foram muito bonitinhas as quais te faço a segunda pergunta ? Quantas vezes em Oitenta anos de vida você cuidou desta tua tia? Não precisa me responder. Guarde na tua consciencia, para que com exagero, se arrependa de querer se promover com textos bonitinhos e poucas ações humanitárias. Um abraço.
Gustavo scherer Franccini – Recife - Pe - 9195-9606

Anônimo disse...

e-mails de gustavo sherer franccini

joaojacobina@uol.com.br

Ludmila Pinheiro disse...

Amigo.
Acredito que não estamos falando do mesmo médico, pois o Dr. Flávio Medeiros que conheço e um dos donos do Hospital Santa Cecília do Janga é um homem excepcional e muito integro. Operou seis pessoas de minha família, e todos com êxito. E uma delas estava desenganada e está muito bem há cinco anos. Eu sou cliente dele e agradeço por ele ser um cirurgião maravilhoso e um médico muito humano. Creio que você esteja muito equivocado ou esteja num momento de extrema amargura de vida. Não aja de forma leviana
Fique em paz!

celia goncalves disse...

Caro amigo, não o conheço, mas conheço bastante o Dr Flávio Medeiros, a quem voce se refere com desprezo e descortesia. O referido médico, não só é meu médico como de toda minha família, que saem de boa viagem para se consultar no janga. Acredito que houve algum fator externo, e que nao foi bastante analisado pelo senhor, pois o Dr Flávio que conheço é uma pessoa bonissima, de uma honestidade e correção ímpar. Por diversas vezes, já levei para o mesmo, pessoas para ele consultar, que nao tinham dinheiro para pagar consulta , e o mesmo sempre atendeu com a maior boa vontade.
Fica aqui registrado meu protesto, no que se refere ao Dr. Flávio Medeiros.

celia gonçalves