terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Começar de novo (memórias do inesquecível)

Há dois meses estou morando no Cabo de Santo Agostinho. Deixei para trás a minha pátria espiritual, que é o Poço da Panela, no Recife, tema recorrente de muitas de minhas crônicas. Lá no Poço era amigos dos reis, membro-fundador da Troça Carnavalesca Mista “Os Barba” e estava conquistando uma vaga de titular na zaga dos Caducos Futebol Clube (assumindo a vaga do Mudo, que vinha jogando mal pacas), tinha conta em seu Vital e podia voltar cheio dos canecos para casa, sem correr o risco de ser atropelado – o bar de Seu Vital ficava a 53 metros da minha casa.

Além disso, no bar de Seu Vital, eu tinha um pendura histórico, de cinco anos, e conseguia colocar meus livros para vender numa boa, dando apenas um pequeno percentual ao dono do estabelecimento, a “taxa-prateleira”. Isso sem falar em Luísa, a adorável Lulu, que eu via sempre de manhã. Foi lá em casa que ela aprendeu a dizer “água”.

Uma leitora, a Dulce, sugeriu até que eu escrevesse sobre essa mudança, como deve ter sido difícil, porque é uma mudança brusca. Depois de cinco anos de Poço, a tarefa não é fácil, mas vamos lá, Dulce, vamos lá.

Primeiro, está tudo bem. Não fico aqui da janela do primeiro andar procurando o boteco de Seu Vital. Eu, com esta alma de cigano, me adapto bem a qualquer situação, com exceção de uma penitenciária, que deve ser um espaço bastante desagradável para viver, por causa do excesso de companhias. Antes, morava sozinho, numa casinha azul, número 51, que parecia uma capela. Tinha quintal e um primeiro andar com vista para o bar, que é ótimo, mas tinha um contratempo: os amigos ficavam telefonando, perguntando se eu não ia tomar “só uma”, uma mentira gigantesca, porque no Poço, ninguém toma “só uma”. Muitas vezes caí nessa conversa fiada.

Agora, moro num primeiro andar da casa da tia-avó, dona Flocely, que daqui a uns dias chega aos 80 anos. No térreo, moram a tia e Renato (filho de Rosa), que tem 16 anos e também torce pelo Santa Cruz Futebol Clube, a exemplo deste que escreve e da tia. Rosa trabalha com tia há vários anos e é a mãe de Renato, como acabei de dizer. Nunca queira levar um carão de Rosa. Ela é brava. Ela, ao contrário de tia, eu e Renato, torce pelo time que ganhar. Na Copa, ela torcia contra o Brasil, só para se ter uma idéia.

“Bambam”, um pequeno e charmoso vira-lata, é o reizinho da casa e tem um latido estridente. Ele usa sua voz potente, até que você coçe a cabeça dele. Semana passada, chegou “Pedrita”, mais vira-lata ainda, encontrada na rua por uns camaradas que fazem entrega num depósito ao lado. Bambam anda enciumado, mas eu já disse a ele que isso é besteira, ciúme não leva a nada. Ele não tem me escutado. Há outros animais na casa: um galo e duas galinhas, que nunca irão virar um guisado (criados pelo Renato há uns dois anos) e dois passarinhos, de idade incerta, que, se não me falha a memória, são canários. Guico, o pai de Renato (e ex-marido de Rosa), vem dar de comer aos pássaros todo dia à tarde. Guico trabalha na Prefeitura do Cabo há vários anos, e só o chamo de “Camarada Guico”, apesar de ele não ser comunista. É que tenho umas manias.

O dia começa às 5h03 da manhã, quando o galo de Renato solta gritos lancinantes e absolutamente desnecessários. Renato nem se mexe, porque tem um sono pesadíssimo. Eu me mexo e acordo, mas acho bom, apesar de achar o galo repetitivo e, em certo momento, muito do exibido.

Ao contrário da minha casa no Poço, que não tinha horário para nada, aqui as coisas tem hora e algumas regras, que tento seguir. Geralmente não tomo café, porque sou um ser estranhíssimo – só tomo café decente mesmo quando fico hospedado em hotel. Acho o máximo aquele negócio de comer frutas, depois pão, queijo assado, café, ovo etc. Mas só tenho esta fome matinal em hotel. Em casa, eu tomo um cafezinho e fico por ali, vendo o que rola. O almoço é perto de meio dia e sempre almoço com tia, Rosa e Renato. À tarde, eu trabalho no primeiro andar, onde moro. Na janta, Rosa já não está (vai para casa lá pelas 15h33) e jantamos eu, tia e Renato. Renato tem a mania de fazer o prato e comer vendo TV, o que não é muito bom para a saúde, dizem os especialistas, mas ele nem liga. Renato detesta os norte-americanos e copia CDs para mim no computador que ganhou de tia.

Depois da janta, eu e tia ficamos conversando um bocado sobre as coisas da vida. Ela só encerra o papo para ver a novela “Bicho do Mato”, que por sinal é bem ruinzinha. “Cidadão Brasileiro” era muito melhor. Aqui, só dá a TV Record, não sei nem quem apresenta mais o Jornal Nacional, o que é ótimo para a saúde psíquica. Eu lavo os pratos da janta, para facilitar a vida de Rosa no dia seguinte, e dou uma molhada nas plantas. Aqui também tem jardim, mas Lulu não conhece ainda.

Encontrei um barzinho aqui perto, o “Caldinho do Mário”, daqueles com tamborete alto, o cara tem que beber no balcão. O bar tem de tudo um pouco, menos caldinho, mas são coisas da vida, melhor não pensar muito para não endoidar. Ele é gente boa, apesar de torcer pelo Náutico, mas sou mais Seu Vital mesmo. A dose de enraizada aqui custa R$ 0,50 e um pedaço de charque, para tira-gosto, é R$ 0,20. Um ovo cozido é R$ 0,30. O atendente, que já me conhece, avisa quando o ovo é do dia anterior, e mesmo assim eu como.

Dia de terça e quinta de manhã dou aulas no Recife. Pego o Fiat de tia emprestado de vez em quando, mas não abuso. De vez em quando, vou no ônibus Centro do Cabo, que me deixa no Cais de Santa Rita. Uma viagem otimista tem durado uma hora. A pessimista dura uma hora e meia. Vou lendo, olhando a paisagem e cochilando, em doses absolutamente iguais. Volto fazendo a mesma coisa. A passagem custa R$ 2,45. Gasto quase R$ 40,00 por mês só de passagens, vou encaminhar um pedido de aumento ao Ricardo Mello e Michela, meus chefes na escola.

Aqui escuta-se muito a Rádio Calhetas FM (98,5). “Marcos Pereira é enfermeiro, perdeu a identidade, CPF e uma camisa. Favor entregar na rua X, número x, Calhetas, ou aqui na Rádio”. Não consegui anotar o nome da rua, nem o número. Se alguém encontrar, favor avisar ao pessoal da rádio.

A vida vai seguindo. Acho que estou começando de novo. Está tudo bem. Quando sinto saudades do Poço, é uma coisa boa, umas lembranças lindas, muito vivas.

Acho que é o que chamam por aí de inesquecível...

13 comentários:

Sonia disse...

Logo, logo você faz um pendura no Cantinho, entra pra corte do rei local e amansa a brabeza da Rosa.

Tiago Nobel disse...

E tu faz uma falta tremenda no poço... sempre que vou visitar tio davi e tia ana acho que irei lhe encontrar sentado em seu vital, observando mais um casamento, junto com valter, e colocando gelo na canela inchada por conta de uma lapada que levou na pelada dos caducos...

abraço forte!

Tiago

Simone disse...

Oi Sama,

adorei a precisão com que dona rosa larga (15:33), nem um minuto a mais nem a menos? kkkk...

Só você mesmo!
Um forte abraço.

p.s: os barbas sai quando? tô fechando minha programação pré e carnavalesca, queria ver se dava pra encaixar. :) :)

Magna disse...

ai ai...e pra que mais da vida, né não?Sorte pra Pedrita, mas daqui uns dias Bambam se rende aos encantos dela.Beijos.Magna

Anônimo disse...

Boa sorte neste recomeco, Samarone!
Abracos,
Claudia

Daniela Carvalho disse...

Belo recomeço!

Anônimo disse...

Samarone,

Que vidinha... Aproveite... Fiquei com inveja.
Conceição Cardoso

Anônimo disse...

adorei

Anônimo disse...

Já te disse que tu escreves de forma etinografica!
Lendo tuas crônicas passei a conhecer muito bem as pessoas que moram no poço e o próprio poço da panela, joguei dóminor com a rapaziada, tomei algumas talagadas, joguei com os caducos, briquei com a lulu, sai na troça dos barba, fui a um enterro entre outras coisas que fiz lá no poco... Lembra, e, agora estou começando a conhecer o cabo de santo agostinho detalhadamente.
Lembranças a tia flocely (numca a vi, mas, se encontrar ela na rua juro que a reconheço).
Um grande abraço,
Sirley

Anônimo disse...

Frangolino,
tô precisando falar contigo. Liguei p/ o Cabo, mas tu num tava fidirapariga.
João Valadares

Arley disse...

Samarone, alguém já te diss que vc parece o Richard Dreyfuss no filme Tubarão do Spielberg.
Não o conheço pessoalmente, foi o Paulo, teu irmão, que me mostrou uma foto sua. Na hora notei a semelhança.
He he he

Samarone Lima disse...

o richard dreyfus não tem uma cara de maluco naquele filme?
caramba...
samarone.

Arley disse...

O pior é que tem.
he he