quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Conciliação

De repente, a memória é uma esfera cintilante, que percorre corpos e terras, e dela não temos domínio. Somos anfíbios repletos de tristezas, contradanças, alfabetos remendados, colados ao vidro da sala. O menor sol desliza para as estrelas, no movimento contrário. A lua sai do mar enrugada e cansada.

Olho nos olhos de minha mãe, vejo os de minha avó. Estão aqui, estão ali, nas fotografias que vou contrabandeando, pegando emprestado para sempre, para colocar em minhas entranhas.

Volto à pedagogia das perguntas. Não sei a hora em que nasci, prejudicando terrivelmente o possível mapa astral, que me diria o ascendente e pedaços do rumo. Soube que houve muita perda de sangue, como se eu já começasse brigando, rangendo, esperneando, sem ter ainda a minha ração de palavras para prover.

Dos meus antepassados, vou garimpando os meus pedaços. Uma cômoda cheia de gavetas era meu labirinto. Aos três anos, vi a porta da casa aberta, e fui embora, pensando que era assim mesmo, a vida, uma porta aberta pronta para seguir. Ora, não é assim que fazem os cães? Mas perdi meu faro e fui encontrado muito longe, num espeço que já nem me lembro.

Ouço conselhos melhores que os livros de auto-ajuda, mas eles escapam sempre, então peço ajuda ao alto.

Mas no fundo, não há respostas, simplificações. Só a memória habita, pondera, refaz. Não sei nada. O que havia me prometido agora me escapa.

Lembro do dia em que prometi nunca voltar. Caminhei assim, como um irreversível, até que meus exércitos nem mais sangravam, de tantos combates perdidos.

Então parei. A esperança não tinha escapado com os fiapos de luz - estava apenas fora do lugar.

Descobri, e quase me acalmei. De derrota em derrota, até a cambalhota.

8 comentários:

Anônimo disse...

A memória, o menor sol - e a lua que sai do mar enrugada e cansada. Família da conciliação. Lindo, poeta, na busca e seguindo.

Beijos
Bianca

Anônimo disse...

A idade da razão

Anônimo disse...

imshalaaa...

Anônimo disse...

ah, samarone lima
troco todo o meu corpo, tudo o que tem dentro e fora dele, pela poesia, que nos prende à vida e nos liberta a alma.
un petit bisou pour toi

Anônimo disse...

Vixe, Sama! Cada crônica uma emoção maior. Passa por NH pra gente conversar um pouco. Abração do mano PH

gustavo disse...

para o imbecil que escreveu aqui certa vez dizendo que tu "faz tipo", desejo a ele apenas isso que tu mostra aqui de forma tão singela: uma dose de alma, um pouco de paz, algumas buscas, um coração tranquilo...

G.

Anônimo disse...

Sama,
Andei dando um tempo na net. Vez em quando, escrevo para os amigos e só. Assim, não vi nada além da minha caixa postal nos últimos tempos. Soube por uma amiga comum do carnaval que fizeram por vc ter usado as palavras "frango e viado" numa crônica, quanta frescura!!!!!!! E quando eles, os frescos, chamam os heteros de "bofe", "racha" ou "trava" ? Isto é ofensa ou uma simples e conhecida forma de identificarem os homens e mulheres de opção sexual diferente da deles? Quem lhe conhece sabe que você é incapaz de ofender sequer um torcedor do Sport, quanto mais uns insanos e desvairados que anônimamente lhe agridem com palavras loucas nesta maravilha que é o Estuário. Como dizia minha mãe: "Palavras loucas, ouvidos moucos".
Beijo solidário
Naire

Anônimo disse...

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.