quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Sobre as idades para algumas coisas ou todas as coisas

Há quase um ano, neste Blog, escrevi um texto sobre esta frase: "Não tenho mais idade para isso".

Então vi que mudei meu jeito de pensar algumas coisas, o que para mim é uma bênção.

Hoje eu penso assim que o sujeito diz "Não tenho mais idade para isso”, quando deixou de ser criança, e definiu os tempos por etapas, na lógica de adulto, e geralmente adulto chato. Há idade para tudo, e idade para não ter mais idade. Melhor é a idade insuperável, eterna, aquela de começar um projeto louco, adormecido no fundo das gavetas, no meio da tarde ou no meio da vida, ou no meio de nada.

Tenho uma mãe que passou 25 anos casada, creio, tomando conta dos filhos e da casa e de tantas outras coisas. Depois que separou, já uma quarentona meio cansada, não descansou. Fez um curso de auxiliar de enfermagem, encarou um concurso público, e hoje trabalha no maior hospital público de Fortaleza, aos 63 anos. Está longe, muito longe de se aposentar, e quando esse benefício estatal chegar, vai ter idade para muitas outras coisas. É voluntária de um casa que abriga portadores de HIV. Uma vez por semana está lá, com seu sorriso generoso, com idade para tudo. Ultimamente descobriu que tem idade para começar a estudar inglês, e está lá, no seu "to be or not to be" da vida.

Gosto de gente que brinca com a idade, que faz o tempo virar ao avesso. Gente que zomba do calendário, que desdenha dos relógios, da areia das ampulhetas. Gosto de gente que vende as coisas e viaja para o outro lado do mundo, para realizar o sonho de vender as coisas e viajar para o outro lado do mundo. Gosto de gente volta do outro lado do mundo com outro mundo nos olhos. Gosto de gente que cansa de esperar e dá um cheque no contracheque. Gente que não espera adoecer para se rebelar com certas formas de vida. Gosto de gente que adoece e não se rebela com a doença, mas com a vida que levava, e se renova sem pressa.

“Não tenho mais idade para isso” é uma espécie de desistência, de cansaço. É um hino às definições e classificações. A alma tem idade para tudo. Gosto de gente que deixa o último semestre de um curso universitário para começar outro curso, mesmo que não seja universitário. Gosto de gente que cansou de competir e resolveu curtir com o clima de competição na empresa.

Tenho um irmão da vida que fez um concurso numa dessas universidades famosas, que arrota ser “a terceira maior do Brasil”, foi sacaneado na seleção, e quando estava com um formulário para recorrer do tal concurso, páginas de esclarecimentos e questionamentos, olhou o entardecer.

Então ele se perguntou: “para que isso tudo?” - e foi lá, olhar o poente, cheio de redenção.

Já tive muitas idades, e carrego-as todas em mim. Coloco meus autores prediletos em destaque, nas prateleiras das livrarias, tentando encobrir os best-sellers. Continuo tentando dar trote nos amigos ao telefone, mas nunca consigo. Um dia terei idade para conseguir dar trote nos amigos e mais ainda nos inimigos.

Cada vez mais acredito na força dos que brincam. Os sérios carregam fardos de verdade. Outro dia, esqueci um livro numa livraria e quando fui buscar, veio o vigilante com uma prancheta. Brinquei com o esquecimento-do-livro-em-uma-livraria e ele me respondeu o seguinte:

“Por favor, assine aqui”.

Uff, a dureza dos homens sérios. A insuportável casca de pedra dos homens que dizem cumprir ordens. A grosseria dos que não têm uma pitada de humor. Os histéricos de buzinas potentes. Os doentes da falta de licença.

Estava andando hoje com um amigo, após um almoço semanal que é nosso presente, quando surgiu uma moça linda, caminhando à nossa frente.

“Isso não é um andar, é uma promessa”, disse ele, e ficamos apreciando. Logo descobrimos que ela tinha saído da rua das Pernambucanas.

“Nada mais apropriado”, completou, e rimos feito crianças.

Eu quero sempre ter idade para isso. Para fazer o adulto rir como criança. Para recomeçar por alguma estrada nova, ou velha mesmo. Para ir ao outro lado do mundo, nem que seja para descobrir que o barato mesmo era aquela velha rua do Recife com uma praça coadjuvante. Ou para ficar do outro lado do mundo plantando sonhos, feliz por ter vivido tantas coisas lindas no Recife ou qualquer cidade do mundo, porque nossa paisagem é o que levamos por dentro.

Quero sempre ter idade para fazer como o meu amigo Marquinhos, hoje no trânsito. Ele me viu na parada do ônibus e me chamou, de dentro do seu carro. Eu, lógico, obedeci. Ele não sabia para onde eu ia, nem eu sabia para onde ele ia. Mas fomos. Começamos a conversar, o celular dele tocou e lembrei de algum filme antigo.

“Tu tás lembrado Rin Tin Tim?”, perguntou, com um sorriso.

Não sei onde o sujeito arranja um toque de celular para relembrar de um cachorro veloz de década passadas, mas é por ai que eu gosto de caminhar.

De preferência, bem devagar.

11 comentários:

Anônimo disse...

belo! belo ! belo! Samarone !!!
você me encanta !!!

cozinha criativa disse...

Tão linda quanto à do menino que colecionava palavras... e continua colecionando.

Aline

Anna disse...

Meu filho, cada dia você fica mais especial. Não sei aonde vai chegar tanta sensibilidade e ternura pra falar das coisas simples da vida. Eu também, depois dos 50 anos, me aposentei e fiz pós-graduação e fiz concurso novamente e, por acaso, passei em primeiro lugar e estou novamente envolvida com o paraíso que é a sala de aula. Pra que olhar a certidão de nascimento se a alma da gente ainda está novinha em folha? Um 2007 mansinho como você merece e tudo de bom para as pessoas que não se importam com a idade cronológica e continuam parando diante de um pôr-de-sol, de uma flor ou de uma noite estrelada.
Beijos de mãe.

Anônimo disse...

sama, essa de hoje tá demais! linda, linda!
vai uma formosurazinha de presente:

"_Não... O que mais poderiam fazer comigo? Ter tido uma infância não é o máximo? Ninguém conseguiria tirá-la de mim... _ e nesse instante Joana já começara a ouvir-se, curiosa.
_Eu não voltaria um momento à minha meninice, continuara Otávio absorto... Nem um instante sequer.
_Mas eu também, apressara-se Joana em responder, nem um segundo. Não tenho saudade, compreende? _ E nesse momento declarou alto, devagar, deslumbrada. _ Não é saudade, porque eu tenho agora a minha infância mais do que quando ela era..."

(Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem)

beijinho
silvinha

Anônimo disse...

oi!
Obrigada, Samarone! Que felicidade comecar 2007 assim, com uma cronica taooo linda!
Eu também mudei tudo, mais de uma vez...Sem me importar ou pensar se tinha ou nao idade para isso ou aquilo...Talvez "nao tenha idade" para pára de sonhar ou tentar...de novo!
Feliz 2007!
abracos,
Claudia

Anônimo disse...

Como sempre, emocionante. Um 2007 manso.
Abraços,

Lucila disse...

Linda. Bateu fundo. 2007 de muitas emoções.
bjs.

Anônimo disse...

Só você mesmo...Estava achando meu dia um tédio, tudo dando errado e me deparo com esse texto...Perfeito! Feliz 2007! =**

Michele disse...

Seu blog foi uma bela descoberta de 2007.

Abraços

Adri disse...

Assim. É por aqui que eu gosto de caminhar...

Mary disse...

Perfeito!
Só não tenho mais idade pra ser infeliz!