sexta-feira, 29 de junho de 2007

Anotações de um plantonista em clínica renal

Chama-se Centro de Tratamento Renal (CTR), a clínica onde minha tia está fazendo sua “Diálise Peritoneal”, em Prazeres, no município de Jaboatão dos Guararapes. Trata-se de uma nova versão da famosa hemodiálise, só que o processo é pela barriga, uma engenhoca cheia de novidades. Os dois tipos de tratamento são por caminhos diferentes, mas buscam a mesma coisa - fazer, por meios mecânicos, o que os rins já não conseguem. Todo mundo está careca de saber que os rins limpam o sangue, e outras coisas que não lembro.

No caso da minha tia, temos que falar “o” rim, porque ela descobriu, aos 79 anos, que nasceu com apenas um rim, o esquerdo. Como ela tinha muitas dores na coluna, passou a vida tomando tudo que é tipo de analgésico, especialmente um tal de “Benzerol”, que frita os rins. Foi por aí que a coisa começou a complicar. Aviso aos meus leitores para não tomar o Benzerol, porque vai dar errado.

Duas vezes por semana, ela vai para a clínica, entra às 14h e só termina tudo no dia seguinte, lá pela tardinha. Nos revezamos eu e a Rosa, braço direito de tia há muitos anos. Rosa fica no primeiro turno. À noite, o marido dela, o Elton, vem me buscar. Assumo meu plantão a partir das 19h. No dia seguinte, lá pelas 8h, a Rosa vai me render. Semana que vem, a tia deve começar o tratamento em casa, de formas que meu plantão vai ficar mais fácil, porque moro na mesma casa que ela.

Para quem nunca acompanhou um parente em “diálise peritoneal”, o negócio é simples para quem está vendo, mas chato para quem está fazendo. Uma máquina chamada “cicladora” bota líquido na região do peritôneo, o líquido fica um tempão na barriga, e depois a máquina vai tirando o líquido. Isso seria bem legal, se o negócio não fosse tão demorado. É o mesmo processo, durante 24 horas. Já sei tudo sobre cicladora e diálise peritoneal, porque fiz curso e recebo o certificado na segunda-feira.

Tia às vezes fica sozinha num quarto, então esse é o dia do melhor plantão. Ao lado, tem uma cama daquelas de hospital, que a gente ajusta a manivela e sobe uma das partes. Tem uma TV também, das pequenas, mas lastimavelmente, não transmite os jogos do Santa Cruz, o que a torna um objeto decorativo.

Pois bem, como eu vinha dizendo, eu chego lá pelas 19h11 e Rosa me conta como foi a tarde, falo com tia, dou um beijo nela, vejo o ambiente, sei apenas com uma olhadela se ela está legal ou está meio enjoada de tudo. Como sou um cearense meio esquisito, levo minha garrafinha com água quente e minha cuia de chimarrão. Numa sacola, vários livros e cadernos. Olho a maquininha de tia, e vejo quantos litros de água ela já absorveu, tomo um cafezinho e fico por ali, aguardando os fatos.

Até às 22, mais ou menos, converso com tia. Ela adora me contar as coisas da família, e vou anotando, porque como eu já disse outro dia aqui, eu não sou propriamente um jornalista, mas um anotador de coisas que depois viram um texto. No último plantão (dia do jogo do Santa Cruz contra o Ituano, no Arruda), ela me contou de sua viagem ao Rio de Janeiro, nos anos 60, com sua mãe, Elisa. Foi um passeio na memória por Botafogo, caminhadas de mãos dadas com sua mãe, visita ao Cristo Redentor, isso tudo ciceroneado pela sua irmã, Lenita, que trabalhava no Hospital da Aeronáutica. Ela me disse uma frase fantástica, eu que adoro frases:

“Segurar na mão de minha mãe, me dava confiança”.

Depois, ficamos em silêncio, mas nossos silêncios são bons. Eu simplesmente fico olhando para ela. Respeito seu sofrimento, sem buscar frases de consolo. Estou ali, em harmonia com ela, e creio que ela sente um pouco de proteção, de afeto, de cuidado. Depois, ela começa a cochilar. Se a coisa estiver indo bem, a máquina não vai apitar. Se tia se mexer muito, a cicladora vai fazer uns “piiiiiiii” altíssimos, e tenho que tomar providências. Primeiro, falo para ela mudar de posição, ela muda de leve, depois mexo na máquina. Aperto “stop”(em inglês, quer dizer “parar”), e em seguida, o “play” (o “play” todo mundo sabe o significado). O andamento da noite vai depender muito do funcionamento da máquina e de tia. No plantão passado, deu tudo certo, hoje vamos ver como vai ser.

Fico por ali, lendo minhas lorotas, revisando coisas, bebendo chimarrão e café, porque adoro chimarrão e café. Nos dias de jogo do Santa, acompanho pelo radinho de pilha. Foi lá que escutei o empate com o Paulista (um time de Jundiaí), após estar perdendo de 2 x 0. Foi lá também que agonizei o segundo tempo inteiro, na vitória contra o Ituano (de Itu, of course), o reles 1 x 0. Tia também torce pelo Santinha, mas não fico comentando as jogadas, para ela não ficar nervosa.

A madrugada é longa, os minutos vão congelando à medida que vamos chegando naquele período interminável, entre duas e quatro da madrugada. Quando tia adormece, fico mais tranqüilo e me dedico a leves passeios pela clínica. Nestas investidas, descobri uma salinha com umas cadeiras supimpas, muito confortáveis, com rodinha e tudo o mais. Então dou uma rapinada, boto na porta do quarto, e aproveito a luz do corredor para praticar dois dos meus esportes nacionais – ler e escrever. Se no Pan tivesse essas modalidades, eu era medalhista, pelo menos um bronze eu pegava.

De vez em quando, entro no quarto, olho se tia está bem. Às vezes, pergunto se ela está com sede, ela geralmente diz que sim. Bebe água num canudinho, depois ajeito o lençol, e ela volta a dormir. Volto para a poltrona e fico lá, lambendo meus livros e anotando minhas besteiras.

Durante o dia, a clínica chega a ter 200 pacientes de hemodiálise. De noite, só tem mesmo tia. Esporadicamente, mais uma pessoa no quarto, o que quebra todo o clima. Além disso, perco o direito à cama com manivela. Outro dia, naquele imenso espaço do CTR, só tinha mesmo o vigilante (que dormia, pra variar), um enfermeiro, eu e tia. Só os quatro, mais ninguém.

Dificilmente durmo. Fico preocupado com a maquininha, e quando o sujeito dá um cochilo, ela parece adivinhar: começa o “piiiiiiii” terrível. O sujeito dá um pulo na hora e perde o sono sete vezes. Aqui vai um conselho: se você quer dormir bem, não coloque uma cicladora ao lado de sua cama.

Quando vai amanhecendo o dia, começa a chegar a primeira turma da hemodiálise. São turnos de 40 pessoas. Meu Deus, é um povo lascado, que chega de Komby, em ambulâncias remendadas, Fusca, tudo que é jeito, gente que depende de prefeituras, essa coisa bem brasileira do se vira como pode. Mas algo me chama a atenção: é um povo de uma animação, de uma fé na vida, de uma falta de desespero, que chega a comover. Tem gente que está há cinco, sete anos fazendo aquele troço, três vezes por semana, quatro horas por dia, e não fica se lamuriando.

Neste momento, devolvo rapidamente a cadeira que peguei escondido, porque detesto levar carão, e tia está acordando. As dores na coluna chegam de jeito, ela reclama, e fazemos um esforço para ela sentar um pouco. Depois, uma mulher muito simpática traz o café da manhã, que tia nem prova. Café com leite, pão e uma papa de hospital, que todo mundo sabe como é. Tomo o café que tia não quer, guardo o pão para alguém com fome. Lá pelas 8h, Rosa chega, para seu novo turno, trazendo algo que tia goste para comer. Então tia come, e vai começar mais um dia.

Dou um beijo nos cabelos brancos dela, e vou cuidar da vida, porque acabou mais um plantão, e deu tudo certo.

Chego em casa e Bambam, o vira-latas de tia, está eufórico. Late, dou explicações, digo que tudo correu bem, faço afagos nele, e ele fica sossegado.

E assim, a vida vai seguindo. Qualquer dia, coloco a foto de tia Flocely aqui, para vocês verem como é linda a criatura.

4 comentários:

Daniela Carvalho disse...

Essa sua ternura pela tia Flocely me comove.

zizi disse...

não é a ternura que há em você,
é o seu olhar inaugurando ternuras.

és um companheiro insuperável.

beijos em ti
e todo amor a tia flô.

João disse...

Sama, coloquei a carta ao Procópio no PEbodycount. Muito boa. Olha, quero ir amanhã na inauguração. Liga p/ mim assim que puder.
João Valadares

Dimas Lins disse...

Sama,

Admirador das suas crônicas no Blog do Santinha, entro no Estuário pela primeira vez, por indicação de Artur Perrusi, leitor assíduo. Confesso que não sabia que o Estuário era seu,se soubesse, teria vindo a mais tempo. Para não cometer outros equívocos como este, de passar batido em blogs tão interessantes, vou revisar todos os links do Blog do Santinha e entrar de um por um. Aproveito para dizer que estarei colocando um link do seu blog no Torcedor Coral.

Agora, vamos à crônica. Fico impressionado com a sua capacidade lírica de escrever sobre as coisas do dia-a-dia. No final, são estas coisas que importam. O carinho e amor pela tia querida chegam a comover. Torço muito por ela e espero que o carinho e amor da família amenizem este tratamento tão incômodo.

No mais, virarei fã de carteirinha e, sempre que possível, estarei por aqui.

Valeu pelo excelente trabalho.

Um abraço,

Dimas Lins
www.torcedorcoral.com