domingo, 17 de junho de 2007

Anotações dos velhos cadernos



Com imagem de João Lin

1

Tinha acabado de chegar ao Recife, depois de seis anos morando em São Paulo. Era julho de 2000, e eu estava com 31 anos, novinho em folha. Lembro que aluguei uma pequeníssima casa, na Rua dos Arcos, e a mudança estava a caminho, graças à ajuda do velho e sempre Gustavo. Encontrei agora há pouco, neste eterno trânsito entre duas Cidades (Cabo e Recife), um velho caderno de anotações, que não chega a ser um diário, mas esboços de crônicas jamais escritas, poemas nunca publicados, pensamentos soltos como folhas em meio aos vendavais. Compartilho algumas notas aleatórias.
2

Me veio a imagem de um homem bêbado, em cima do telhado, chorando pela morte de sua mulher. Esse homem eu conheci de fato, e há algo de mais dramático nisso tudo, porque a gente chora em todo canto, quando dói demais. Buscar o telhado parece uma tentativa de se aproximar dos deuses e o desejo de afastamento do mundo, onde estão os homens. Não vai passar um amigo em cima do telhado, a qualquer momento, e perguntar “ei rapaz, por que você está chorando aí em cima?” Seria uma intromissão exagerada na dor alheia.

3

Está lá, também no caderno, Seu Heleno, que morava na casa de Luzilá, em uma casinha mais recôndita. Era um gentleman, quando não bebia. Quando tomava suas muitas garapas, ficava mamadinho e passava a falar muito. Era um bêbado que conversava com as paredes, as plantas, os animais, o vento, os seres presentes e ausentes. Em sua santa sabedoria, falava muito pouco com gente. Um dia, cheguei para visitar Luzilá e ele começou a falar comigo, em “Cachaçanês”, o idioma da cachaça. Se tivesse bebido, teria entendido tudo. De cara, não deu. Fiquei mole de tanto rir.

4

Certa vez, Luzilá arranjou dinheiro para Seu Heleno comprar a chapa. “Ele comprou a de cima, bebeu a de baixo”, me contou Luzilá. E era engraçado ver aquele homem falar em cachaçanês, com os dentes superiores que não encontravam nunca os inferiores. Ele jamais poderia bater com a língua nos dentes.

5

Alguém me emprestou uma rede para a primeira noite na casa vazia, não sei quem foi. Quando deitei, senti um perfume que se misturava ao mofo. A rede certamente esteve guardada durante muito tempo, até que cheguei, inesperado, pedi uma rede emprestada à vizinha. Ocorreu à pessoa, que mal me conhecia, colocar perfume, para aplacar o mofo. O nome disso é delicadeza.

6

Seu Manuel, vendedor de Guaiamum. Sobre ele, registrei apenas o seguinte: “trata-se de um homem que gosta muito de conversar”. Ele morreu há alguns meses, vítima de um choque elétrico absurdo. Morreu e conversamos muito pouco.

7

Itamar, o cachorro da vizinha, uma velhinha dessas que adoro conversar. Foi a filha quem o batizou, o cachorro, claro, de Itamar. “Meus cachorros têm todos nomes mais simples. É Champanhe, Veludo, Piaba, Corcel”, diz a velhinha. Depois que saí, escutei ela dar um berro que sacudiu o bairo: “Itamar!”

8

No reencontro com os amigo, estava uma moça muito calada. Era tão calada, que não lembro de uma frase, das 9h às 12h, quando ficamos conversando. A única frase que ela disse, a certa altura do campeonato, foi “aqui tem uma cioba muito boa”. Diria que ela era superlotada de silêncio, e amava peixe cozido.

9

“Acho que vou dobrar. A gente não dobra trabalhando? Vou dobrar bebendo”, diz um sujeito no Mercado de Casa Amarela, e só faço tomar notas.

10

Minha profissão é esta: tomar notas.

11

Estava cuidando de um jardim, ao lado da casa nova, quando passou a velhinha de Itamar, o cão já citado. Ela me olhou silenciosa, ficou quieta, vendo a movimentação toda para arrancar mato e plantas umas belezas poucas, mas necessárias. Ficou em mais silêncio ainda, até que disse: “ Agora está morando gente aqui”. Tradução simultânea: “também gosto de coisas bonitas”. Sorri e ela emendou:

“Vou chamar você de meu filho”.

12

Chico me falou de sua separação. A mulher estava indo morar com outro sujeito, abandonando-o mesmo de verdade.

“Quando estiver passando fome, venha que eu lhe dou de comer”, disse ele para a mulher, antes de ela ir embora. E ela foi. Não sei se voltou. Creio que não, ele teria falado.

13

Estava chovendo muito, naquele julho de 2000, o Recife parecia Macondo. Estava na casa de Luzilá, mais uma vez, e conversávamos sobre chuvas e essas coisas molhadas. Ela Luzilá, contou que um ano, estava muito triste com um monte de goteiras por toda a casa. “Estava chateada mesmo”, disse, até que veio uma tromba d’água, e poucas horas depois, sua bela casinha estava quase submersa, com quase dois metros de água. Era a famosa cheia de 1976.

Pelo menos ela não tinha mais a chateação das goteiras.

14

“O meu caos é Deus, o impenetrável, e ninguém mais”, diz Rilke.

15

“O homem caminha na direção daquilo que o ultrapassa, como se isso quisesse dizer: na direção de si mesmo”, diz Lou-Andreas Salomé.

16

A alma como um pátio interno que não necessita pedestres.

17

A alma é a única subversão em que acredito.

18


A inesquecível e insuportável figura do garçom omisso.

19

Conheci Arlete em uma viagem para o Crato. Me mostrou álbum repleto de fotos. Eram apenas mãos. Viajava muito pelo mundo, e estava a confeccionar um “album dos acenos”. Nunca mais a vi. Lembro de suas mãos, miúdas e marcantes. Mãos de gente que olha o mundo pelas palmas, como se as pupilas fossem cheias de linhas da vida.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lindas crônicas, Samarone. Como sempre me emocionas com as tuas anotações e sensibilidade.Parabéns!!!
Um abraço

Anônimo disse...

é engraçado, estou com 31 anos, já cheguei ao Recife há 15 anos, mas como desconfio que não se esgotam os encontros com nós mesmos, rilke e lou-andreas salomé, nessa nova cidade aonde chego a cada ano, a cada dia, pela transformação dos olhos, têm sido duas das vozes mais importantes nesse eterno encontro. e logo eles dois estão na tua crônica das três décadas e um ano a mais, coincidência. estou sempre de mudança dentro de mim mesma e o caminhão não está a caminho porque o que tenho guardado insiste em ser levado pelo meu próprio corpo, às vezes pesa. é, pensando bem, seria ótimo colocar tudo num caminhão e mandar para o outro lado do mundo, mas aí eu seria uma pequena coisa sem história, não, melhor assim, uma pequena coisa com cicatrizes, mesmo com toda a complicação. gostei muito do "estava com 31 anos, novinho em folha", “o novinho em folha” me anima um bocado...
un petit bisou pour toi e claro, um beijo na ponta dos pés também, como uma bênção para a tua dança, que vai além da caminhada...