segunda-feira, 23 de julho de 2007

Nossa matança na terra

O Brasil inteiro chora os mortos da queda do avião da TAM, é realmente muito triste, lamento e sinto muita dor, mas preciso lembrar dos que morrem sem sair do chão, numa tragédia coletiva que parece não ter fim - e que não sai nos jornais.

Do dia 1o de maio a 23 de julho de 2007, foram assassinados, em Pernambuco, 925 seres humanos, informa o site www.pebodycount.com.br

Não vi nenhum editorial de jornal, TV, revista, nenhum artigo indignado, mostrando a dor das famílias e o tamanho da tragédia. Não pensem que anotei errado ou que o site apurou com exagero. Quatro jornalistas da nova geração resolveram publicar, diariamente, os nossos mortos quase anônimos. É importante ver o trabalho do Carlos Eduardo dos Santos, João Valadares, Rodrigo Carvalho e Eduardo Machado. Olho todo dia. Hoje mesmo, a grande briga da Polícia é pelo aumento salarial.

Os dados são confirmados pela própria Secretaria de Defesa Social. Do Dia do Trabalhador até hoje, menos de três meses, o número de assassinatos em Pernambuco daria para encher quatro aviões da TAM. Outros 125 cadáveres ficariam para outro vôo. Só no mês de junho, 350 pessoas foram assassinadas. Dá um vôo e meio.

Cada vez que olho o site, fico assombrado. Mais assombrado fico com o silêncio, a passividade, a normalidade com que olhamos esses números. São 925 mortos, 925 corações, 925 famílias, 925 sonhos, 925 desesperos. Morrem aos poucos, cada dia uma média de 12, em todo o estado. Ficam por ali, em matagais, em casas pobres, em terrenos, em botecos caindo aos pedaços, esperando a chegada de um carro do IML. Depois, algum familiar vai fazer o reconhecimento. Fico pensando nas 925 mães, nos 925 pais, irmãos, amigos.

Sempre detestei os tempos histéricos. Transitamos da euforia das medalhas, no Pan-Americano, onde cada atleta parece vencer a pobreza e a miséria única e exclusivamente por causa do esporte (o que é uma grande mentira), e vamos aos plantões macabros dos mortos da aviação. Nossa grande tragédia não está nos céus, está na terra.

Mas no fundo, está certo um pensador que gosto muito, Todorov. Ele diz que um morto é um sentimento, um milhão de mortos, é uma informação.

Aceito de bom grado dividir nossa dor e indignação dos desastres aéreos com esses anônimos, que morrem diariamente em Pernambuco e no Brasil.

Até o final do dia de hoje, serão 12 assassinatos na terra do frevo e do maracatu.

Queria que virassem 12 sentimentos, e alguma informação.


A todos os mortos, por acidente, ou por assassinato.

11 comentários:

Sirley disse...

Bem lembrado Sama, fora os que morrem sem entrar nas estatísticas.
Ainda hoje estive com uma jornalista que informou ficar sabendo que no Rio de jnaeiro, onde ocorre o "PAN", os políciais ainda estão ocupando as favelas e trocando tiros com bandidos e nessa troca muitos inocentes continuam morrendo, porém, os notíciários colocam todas as mortes, ou mortos, como elementos suspeitos. Isso é extermínio coletivo com apoio do Estado.

keila aquino disse...

Queria dividir com vcs caros amigos e leitores desse blog um sentimento que vem tomando conta de mim faz um tempo! Tenho me deparado com essa realidade assustadora de violência e fico muitas vezes me perguntando aonde isso vai acabar...E o sentimento que vem em mim é o de desânimo.
Fico sem enteder como há tanto descaso diante da situação, tantos olhos fechados, tanto "faz de conta que estou trabalhando"... isso por parte dos homens que gorvernam como dos homens(profissionais) que têm que se deparar com a violência em sua rotina diária!
Mas por outro lado vejo o qto a polícia, seja em nosso estado seja em quaquer outro do Nordeste ou Brasil, anda desmotivada, despreparada, desvalorizada.
Não venho levantar bandeira em favor de nenhuma classe mas como tenho um convívio direto e diário com policiais militares e seus dependentes, posso perceber uma realidade que a maior parte da população desconhece.
Precisamos motivar, preparar, treinar, equipar nossos policiais pra que haja sim a participação efetiva e eficiente deles no combate a violência. Sei que não é só de salário que o homem vive mas que ele precisa disso pra manter sua familia e estar em condições reais pra se deparar com situações perigosas durante a sua jornada de trabalho.
A população precisa de uma política de combate a violência que inclua investimento nas polícias como também um trabalho de reaproximação da polícia com a sociedade. Sem falar do combate a diminuição da desigualdade social.. Precisamos disso e com urgência! Antes que tenhamos que criar nossos filhos e netos aprisionados em suas moradias desconhecendo o real prazer de viver!!

cometaurbano disse...

Sama,

dor é sempre dor. Dor que se naturaliza, é perversidade. O texto é comovente. Creio que vc deveria enviar para um destes cadernos de reflexão (se é que podemos chamar assim) de um dos grandes jornais para que a leitura fosse mais coletivizada. Abração do mano PH

Ana Luíza disse...

É isso mesmo Sama,
vamos continuar denunciando com nosso trabalho esse "quarto mundo" que esxite no estado de PE e como isso nos deixa indignados.
um beijo.

Costajr disse...

Sou Pernanmbucano, e embora more em Brasília, há 4 anos, tenho com Recife uma relação telúrica.

De fato, as mortes em Pernambuco, a violência contra as mulheres, a falta de respeito nos hospitais públicos, evidenciam outras crises no Brasil, a saber, crise na educação, social, na saúde e por aí vai.

Contudo, o acidente da TAM tem sim, uma importância capital. Tentar minimizá-lo, lembrando outras tantas mortes, que de resto, são causa de dor também, é um equívoco, penso. Os passageiros do boeing da gol e do airbus da tam morreram pela inépcia das autoridades, uma tragédia anunciada. Sem esquecer das mortes citadas por você, não podemos, nem devemos, relativizar essas mortes com outras, igualmente trágicas.

Samarone Lima disse...

Costa, entendo sua preocupação, sei da importância do acidente da TAM, apenas quis levantar outra questão absolutamente silenciada e tão trágica quanto.
Vamos nos falando.
Abraço,
samarone

Dimas Lins disse...

Um milhão de morte também são sentimentos. A diferença é que a comoção é maior. A morte de pessoas mais abastardas também são sentimentos. A perda é irreparável e a dor igualmente insustentável. Nenhum novo aeroporto ou um reverso funcionando corretamente trará de volta as pessoas.

Quanto às mortes silenciosas no Estado e no Brasil, elas devem sair do silêncio e ganhar discussão nas ruas. O Estado precisa ser repensado, a polícia precisa ser repensada e a justiça precisa ser repensada.

AS mortes são informações porque a dor da gente não sai no jornal. Apesar das atrocidades diárias, ainda precisamos manter a nossa capacidade de se indignar.

Um abraço,

Dimas Lins

Anônimo disse...

"Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra que, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou".
(Adélia Prado)

Dói latejada.
Aos que ficam no meio da dor.

Amandinha Melo disse...

Engraçado Samarone, falei sobre isso exatamente hoje.

Concordo em número, gênero e grau.

Ana disse...

Sama...

fui dormir na casa de papai essa semana e estava pensando exatamente nisso. O excesso de notícias do caos aéreo tem procurado esconder o caos terrestre e, comentando com meu velho, ele disse: "é que aqui em baixo todo mundo é pobre".

Jamesrusso disse...

Querido Samarone,

Rapaz, tu queres que a imprensa nativa explore mais ainda a violência no estado? Ouxe, basta a Folha de Pernambuco explorando a imagem dos inúmeros cadáveres... acredito que a violência no estado é bem explorada pelos jornais daqui. É raro, mas infelizmente tive q discordar de vc nessa crônica...abraços e espero lhe encontrar novamente por aí.

Seu fã, James Russo