segunda-feira, 16 de julho de 2007

Reflexões inúteis sobre a decisão de parar de beber

Há alguns meses, participei de uma reunião dos Alcoólatras Anônimos em Fortaleza. Fui dar uma força para o meu tio, que passou a vida bebendo, e resolveu parar, antes que fosse tarde. Fui para rever o tio querido e aproveitei para matar minha curiosidade. Como deve ser uma reunião da turma que está enfrentando um desafio tão difícil quanto parar de beber? Escrevi até uma crônica, que deve estar em um desses arquivos. Meu tio recebeu a medalha: estava há um ano sem beber. sei que ele segue firme, mas não é fácil.

O que vi naquela pequena noite foi que duas coisas pesam bastante neste momento crucial, que é a decisão de parar de beber. Primeiro, se o cara é alcoólatra mesmo, se a bebida entrou nos ossos e nas células, parar de repente implica numa luta contra algo de muitos anos. Depois, os amigos não ajudam em nada, porque tudo é levado na esportiva, e socialmente, a bebida está em tudo que é lado. Na verdade, os amigos deveriam frequentar também o AA, para ver como o negócio é barra. Escrevo neste tom de brincadeira, mas sei que o negócio não é fácil.

Basta o sujeito dizer que parou de beber, que tudo fica esquisito. Você vira a esquina, encontra um grande amigo que não via há anos. Após o abraço, as perguntas iniciais sobre o que tem feito, se está casado, se tem filhos, vem a frase:

“Rapaz, vamos tomar uma cervejinha para comemorar”.

Quando o camarada resolve parar de beber, os aniversários se multiplicam, os batizados pipocam de segunda a sábado, todos os conhecidos decidem casar no mesmo mês, pelo singelo motivo de oferecer um coquetel aos amigos. Seu time resolve passa a jogar praticamente todo dia. Basta você entrar no estádio, que um amigo está com a latinha na mão:

“Pega logo tua cerveja, que estou nervoso”.

Os amigos são inimigos brutais de qualquer tentativa de parar de beber. Basta você sentar numa mesa animada e pedir um guaraná, que o mundo cai.

“Que frescura do caralho!”, diria Joãozinho Peruca.

“Tas feito fresco agora, é?”, frase típica do João Valadares.

“Só quer ser o diferente”, comentário do César Maia.

“Esse cara está com problemas”, diria Osvaldo Titio.

“Tu tas com problema em casa, meu irmão?”, frase típica de Naná.

Para dar o drible nos amigos, o melhor sistema é dizer a lapidar frase:

“Estou dando um tempinho”.

Olham para você atravessado, surgem muxoxos, mas nada que chegue a magoar, porque fica no ar a certeza de que é algo passageiro, que você vai se recuperar logo, e voltar às atividades copísticas.

Meu amigo Davi passou seis meses sem beber. Pedia um refrigerante num copo longo e dizia aos amigos que tinha Rum Montilla. Ele sabia que o clamor popular não permitiria tanto tempo longe dos gramados.

Josmar Jozino, meu dileto companheiro de redação, em São Paulo, parou de beber e aderiu à Kronnenbeer, aquela cerveja horrível, sem álcool. Funciona bem, porque ele vai bebendo e ficando com aquela voz pastosa, de quem bebeu de verdade. Na verdade, ele sente o gosto da cerveja, e parece que faz efeito. Psicologicamente funciona, é o que importa.

Com Seu Vital não deu certo. Ele parou de beber à força, indicaram a tal Kronnembeer, ele resolveu arriscar. E três dias, tomou 54 latinhas. Foi vetado pelo departamento médico. Voltou à cerveja original.

O grande perigo de quem bebe e dá um tempo, é aquela sede que o cara tem quando volta. Naná, amigo de longas jornadas, passou oito dias sem beber, e no domingo passado voltou às atividades. Amigos, o copo não ficava cheio dois minutos! O gordinho voltou com aquele sede retroativa.

Dois lugares são pouco recomendáveis para quem está querendo parar de beber - o bar de Seu Vital, no Poço da Panela, e minha turma de amigos do Monte Castelo, em Fortaleza. Nos dois lugares, o clima é todo favorável à manguaça. Em Vital, aquela conversa fiada, o botequim das antigas, a cerveja que agora está saindo estranhamente gelada, o dominó manhoso etc.

No Monte Castelo, os amigos de adolescência, o churrasco no jardim da minha casa, o cozidão que minha mãe prepara, a alegria que ela fica olhando os amigos todos juntos.

Aí é fogo. A mãe contente porque o filho está no jardim de casa, bebendo com os velhos amigos, não dá nem para o sujeito pensar em parar.

Farei o teste.

Para o tio Ademar, que deu a volta por cima, com ou sem a ajuda dos amigos.

8 comentários:

Costajr disse...

Também tive um tio alcoólatra, que também participou do AA, que também ganhiou medalha, mas o vício e os amigos, foram mais fortes. Ele morreu aos 45 anos, sem duas pernas, por causa do diabetes, sem família, um trapo de gente.

o alcoolismo é uma doença muito triste, mas o glamour da cervejinha, a aceitação social do bêbado, torna esse problema, um tabu.

Perdão pelo tom melancólico, mas não pude deixar de lembrar de meu tio Artur.

Samarone Lima disse...

É verdade, Costa Jr, esse negócio do alcoolismo é mais sério do que a gente pensa. Fiz a cronica num clima divertido, mas vi como o meu tio sofreu, até encontrar ajuda.
Pena que nem todo final tem esta volta por cima.
Abraços,
samarone

Dimas Lins disse...

Por outros motivos, tive que passar 4 meses sem beber. Estava com algumas taxas altas e o médico exigiu dedicação ao tratamento em tempo integral.

Passados os quatro meses, fui seco pelo primeiro gole e... não desceu. O sabor da cerveja estava estranho. Chegava a tomar uma taça e já ficava bicado. Notei o quanto nosso organismo fica intoxicado com a bebiba. No final das contas, passei dois anos sem beber. Depois voltei. Mas mesmo hoje, já não consigo beber com o mesmo apetite.

E pior, voltei cheio de frescura com bebiba. Se é para beber, que seja algo prazeroso.

É isso.

Dimas Lins

Claudia disse...

Um bom teste para a força de vontade. No final, o bom vai ser ver que ela realmente existe dentro de você!
Boa sorte na empreitada amigo Sama!

Evilasio disse...

Interessante esse seu ponto-de-vista. Realmente deve ser uma barra o cara ter que largar, de uma hora pra outra, algo que j� faz 'parte de sua natureza'. Mas fica a li�o da supera�o.

Anônimo disse...

Concordo em número,género e grau, a todos os comentários, citados aqui, sobre o alcoolismo.Tive um tio, que morreu em consequência deste problema crônico. Mas,tu vir à Fortaleza, mês de ferias, Pedim, Pepo, jardim da Ermira... Sei não viu, não apostem muito nesta empreitada! VIDE O TÍTULO DESTA CRÔNICA!!
NETÃO - FORTAL

Anônimo disse...

Sama, me engana que eu gosto! Gostou da frase? k k k
Melhor não ir a Fortaleza agora. Os amigos do Monte Castelo vão perder a referência e pensar que vc realmente não está bem. De repente, te internam e a confusão está feita. kkk
Brincadeiras à parte, torço por vc.
Um abraço do mano PH

Leonardo Jr. disse...

Dimas,

Alguém que bebe Frevo(as vezes até meio quente) não pode ser tão exigente, pode?