terça-feira, 11 de setembro de 2007

Anotações da travessia Exu-Crato, parte III e o Projeto Um Milhão de Orvalhos

Recapitulando o capítulo II da saga:

Pocot, pocot, pocot, seguimos nossa jornada. Olhei para o relógio, eram sete horas e cinco minutos, e tínhamos um desafio imenso pela frente - atravessar a Floresta Nacional do Araripe – a 1a do Brasil, fundada em 2/5/1946, e chegar ao Crato, onde nasci.

Passamos por umas acácias, uns galos tardios ainda cantavam vantagem, quando passamos por mais uma cisterna de placa, aquele projeto maravilhoso de aproveitar água da chuva. Lembrei da minha época da assessor de comunicação do Projeto 1 Milhão de Cisternas no Semi-Árido, o P1MC. Na época, parecia um delírio, acho que não tinham conseguido construir sequer 30mil cisternas, e de repente vi a placa: 210 mil cisternas construídas.

Maraí começou a falar sobre um projeto seu, de aproveitamento do orvalho no Sertão.

"Será que não tem um sistema de aproveitamento do orvalho?"

Dito isso, começou a filosofar, e como conheço a fera, na próxima viagem fará o primeiro experimento.

Passamos por mais uma cruz: Edmilson de Oliveira (5/6/64 a 10/12/94).

Às 9h24 cruzamos a placa:

"Seja bem-vindo ao Ceará".

"Olha aí a jurubeba selvagem! Parece coisa de Perdidos no Espaço", comentou Iramaraí, e achei a frase muito fora de tom, para o momento sublime em que o sujeito pisa em sua terra natal. Além disso, não entendi nada a mistura de jurubeba com Perdidos no Espaço.

Fomos informados por Dona Maria, em meio a copos d´água, que estávamos a 18 km do Crato, enquanto trabalhadores de uma empresa davam um duro dos diabos, cavando buracos e cravando postes.

"São 326 postes para levar energia para esta região", me explicou um senhor barbudo e atarracado, com chapéu de proteção na cabeça. "Só faltam 40".

Fiquei em silêncio e me deu um cansaço. Ele olhou assim de jeito e completou, como se falasse de um amigo:

"É do Governo Federal".

Prosseguimos no silêncio.

"Estamos há dois meses e meio nessa empreitada".

Depois chegou outro e completou:

"Hoje eu vou tomar banho nem que seja de cuspe".

O do Governo Federal emendou:

"A gente aqui toma banho do jeito que gato limpa os olhos".

Lá pelo meio-dia, encostamos numa casa simples, onde estava uma senhora já bem entrada nos anos, que chamam velhice. Ela foi buscar água e depois ficamos sentado, sentindo o cansaço e o calor. O cachorro Sheike nos olhava com simpatia. Conversa vai, conversa vem, perguntou se a gente gostava do Lula. Ficamos calados. Ela falou com uma certa veemência, parecia mandar um recado para os povos dos mais distantes:

"Pois eu voto nele até morrer!"

Maraí deu corda, que ele é assim com Lula e amigo de Eduardo Campos. Alzira completou:

"Na última eleição, me disseram que eu não precisava mais votar. Pois eu respondi que fazia questão de votar e vou votar nele na próxima eleição".

Olhei para o teto, tinha uma lâmpada já pendurada, mas faltava a energia.

"Vai já chegar", respondeu, com um sorriso.

Compramos óleo de pequi a R$ 5,00 (para dor na garganta, esquente o óleo com um pouco de sal, gargareje e esfregue o restante na goela).

A única cruz que não anotei, por cansaço, estava a 200 metros de Alzira. Era a do filho dela, Geraldo Ribeiro de Lima, que morreu atropelado há três anos.

Ela também fez o percurso a pé, entre o Exu e o Crato, mas há muitos anos, e foi por motivo de promessa. Um dos filhos vivia bêbado, ela foi ao túmulo do marido e pediu ajuda.

"Tonho, meu filho, me ajuda, que eu não aguento mais o Zoca".

À tardinha, o Zoca chegou para a mãe e falou:

"Mãe, pode anotar. Mais nunca eu bebo".

Parou de beber no mesmo dia. Disse que tinha recebido uma mensagem do pai. Esse "Alcoólatras Anônimos" espiritual aconteceu há 12 anos, e Zoca segue invicto, igualzinho ao tio Ademar, que está sem bicar há dois anos.

"A gente tem que confiar nos defuntos", observou Alzira, que torce pelo Flamengo e tem vários quadros de times dos anos 80 pendurados na parede da sala.

Mais adiante, Maraí pega uma madeira queimada, e diz que vai fazer uma nova exposição, intitulada "O nada queimado". Aguardemos.

Mais uma cruz: "Olávio Nunis Soari. Naceu 7 do 5 de 75. Faliceu no dia 10 de 10 de 2004".

Na Floresta Nacional do Araripe, a parada para constatações óbvias: a primeira bola no pé, no meu dedo mindinho.

"Se a pé a gente chega em todo canto, para que tanta velocidade?", pergunta Marai.

Boto uma sandália e o mundo fica lindo. Recomeçamos.

"Isso é uma segóia", diz meu comparsa. Se João Valadares estivesse na caminhada, diria logo:

"Mais fresco!"

Paramos no Ibama para mais água. Fazemos uma assembléia ali mesmo e decidimos tocar em frente até o Crato, porque faltam apenas 7 ou 8 quilômetros. O guarda do Ibama diz para a gente pegar um atalho pela floresta.

Foram 2h30 dentro da floresta, até que chegamos ao Belmonte, bem longe do centro. Aí, já estávamos cansados e mal pagos. Descemos para o Crato de carona. Às 17h30 estávamos na Praça da Sé, onde meu pai comemorou o tri-campeonato da Canarinha, comigo nos braços, segundo ele.

Ficamos bestando no cansaço.

"É só pegar duas placas, botar em cima da casa e arrumar um jeito de canalizar o orvalho", prosseguiu ele, já desenhando o Programa 1 Milhão de Orvalhos.

À noite, dormimos na casa de uma amiga e não tivemos forças para perambular. Não anotei nada no caderno. A travessia estava feita. Sonhei muitas coisas boas, creio. No dia seguinte, Maraí deu um pulo da cama, parecia um garoto.

"Rapaz, estou novinho em folha", disse, antes de tomar um banho gelado.

Perambulamos pelo Crato, mostrei a igreja, fui na rua da minha avó. Defronte, a casa da família de Miguel Arraes. Ele, como não tem jeito, pediu para entrar. Conversamos com dona Alda, irmã do velho Arraes.

"A senhora conhece dona Zeneuda?", perguntei.

"Minha comadre?", respondeu ela.

"E Dona Ermira?"

"Minha afilhada?"

Zeneuda é minha avó, Ermira é minha mãe.

Então arrisquei a última ficha:

"E Flocely"?

"Muito inteligente".

Flocely é minha tia-avó.

Arrisquei dar uma volta em Seu Almir, reduto da velha guarda da boemia cratense, onde meu pai gastou muito o fígado. Ele estava lá, sozinho, com a eterna camisa do Flamengo, boné etc.

Proseamos um bocado, ele falou dos times de futebol do Crato, do meu pai, que jogava um bolão. Maraí cismou com um banco de madeira, queria saber quem fez, o ano, ficou especulando a marca da madeira, essas coisas dele. Seu almir cheirou rapé, Maraípediu e mandou ver, eu também. Daqui a pouco, os dois espirravam os pulmões para fora.

Seu Almir disse que agora só bebe aos fins de semana. Nos despedimos com um abraço e ficamos na Praça da Sé, lendo e escrevendo.

Não precisamos de uma palavra para saber que estava concluída a travessia, que estava na hora de voltar. A jornada Exu-Crato estava concluída com reencontros sentimentais não previstos.

Senti o cheiro da minha terra e do meu povo.

É outra forma de juntar milhões de orvalhos.

7 comentários:

Dimas Lins disse...

Sama,

Fiquei com uma ponta de inveja de sua expedição. Na viagem por entre árvores e orvalho, encontraste um milhão de corações humanos.

Esse Maraí é uma árvore que teima em não fincar raízes.

Um abraço,

Dimas Lins
www.estradar.com

Marília disse...

se eu já achava bonitas tuas linhas, depois dessas anotações...
inevitável ouvir gonzaga: 'estrada de canindé'.

um beijo distraído!

Anônimo disse...

Acessando um site de notícias, acabo de descobrir que o “sr.” Renan Calheiros não foi cassado. A raiva toma conta de mim e, por alguns instantes, penso que a única solução é sair do Brasil. Mas só por alguns minutos mesmo. Logo em seguida, acessei o seu site para encher novamente o meu “reservatório de orgulho de ser brasileira”. O nosso povo é maravilhoso!! Obrigada por mais um belo texto. Mariana D.

Anônimo disse...

cratinho de açucar, tijolo de buriti...

Ana Paula disse...

Samarone,
eu sou uma carioca filha de pai nordestino. Fiquei profundamente emocionada com teu relato, de travar a garganta mesmo. Como o outro amigo já disse, a gente precisa ler essas coisas pra achar que alguma coisa ainda tem jeito.
Dê um abraço por mim no Maraí que eu simpatizei muito com ele.
Obrigada por partilhar conosco essa experiência. Abraços,
Ana Paula

Els Amorim disse...

Parabéns pra vocês, Sama e Maraí. E indiretamente participei dessa travessia, não é? Pelo menos fui com vocês Recife-Exu, de carro tá pessoal, pra ser mais preciso de Ducato. Rs, rs, rs...
Um abração,
Els Amorim

Els Amorim disse...

Sama, depois vou pedir pra Iramaraí me explicar melhor o P1MO!!! Não entendi bem esse tal de "pegar duas placas... canalizar o orvalho..."
Sei não... acho que ele andou demais!!! Rs, rs, rs...
Um abraço,
Els