segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Doutor Cyro, ou "O o sonho de ser gente - (Parte I)

Tenho feito algumas coisas muito sem futuro nesta vida, mas aqui-acolá, faço meus golzinhos de fora da área. Pequenas ações, pequenas decisões, pequenos movimentos d´alma. E na essência, no coração de tudo, está o encontro com gente. Pessoas que chegam trazendo humanidade, algum facho de luz, coisas acumuladas na estrada. É quando se dá o reconhecimento.


Há 15 dias, em meio a um churrasco, conheci um senhor de 77 anos, cabelos branquinhos, chamado Cyro de Andrade Lima. Ele me conquistou com uma frase:


“O ser humano não revoluciona, ele desabrocha”.


Meu primeiro sentido percebeu claramente que aquela alma tinha algo diferente. Colei nele. Durante quase uma hora, filmei a conversa serena daquele homem que exalava sabedoria. Em quinze minutos, deu para perceber: esse homem está transcendendo.


No sábado, uma equipe da Secretaria da Saúde foi conhecer o trabalho desenvolvido pelo doutor Cyro no Programa de Saúde da Família (PSF), em Vitória de Santo Antão. Aproveitei o bigu, levei uma câmera digital para registrar o encontro.


Encontramos a criatura à entrada do PSF. Tênis da Nike, calça jeans, camisa creme. Levava uma sacola de couro.


“É para o despojamento”, disse, com aquele sorriso sereno que foi conquistando durante a vida. Ele, que foi um dos médicos mais conhecidos do Recife, hoje faz um trabalho de formiguinha com seu grupo de técnicos da saúde. Ele nega que seja médico. É somente um agente de saúde.


Nos juntamos na cozinha do PSF. Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, técnicos da saúde. A gente queria apenas escutar o que ele tinha para dizer.


O despojamento é uma cerimônia simples, mas não estamos muito acostumados com isso. Despojar-se de coisas que já foram importantes, mas que agora vão para outras mãos, outros olhos, outros corações.


Da bolsa de couro, Cyro tirou várias coisas. Um livro de Eça de Queiroz, que não cheguei a anotar o nome. Para Cyro, melhor que Eça, só Camões. Então, ele recitou trechos de Camões. Depois, “Alma Gêmea”, do Deepak Chopra. A cada livro despojado, comentários. Todos atentos, quietinhos, bebendo conhecimentos. “Psicologia da Alquimia” foi o livro seguinte.


“Tento saber o que é a alquimia. Para o povo brasileiro, é descer à lama e pegar caranguejo”.


Lembrei agora do livro do Eça: “A ilustre casa de Ramires”, que nunca li.


Quando assumiu o primeiro mandato, depois da democratização do País, Miguel Arraes foi à casa de Cyro e disse:


“Doutor Cyro, vou levar o senhor para levar uma surra”.


Era o cargo de secretário da Saúde. Ele aceitou e foi levar as pancadas da vida. Coisa para uma prosa demorada.


Doutor Cyro foi falando. Em cima dele, um quadro com a imagem de Gandhi.Mostrou outro livro, “O médico quântico”, escrito pelo físico Amit Goswami. A editora é a Cultrix, que tem uma pá de livros bons sobre a humanidade.


“Um dia vocês vão entender que a grande coisa da vida é o sonho”, disse.


Diante daquela imensidão, dei um jeito de passar a filmadora para o Martim Palácios e peguei meu bloquinho de notas. Só entendo as coisas quando anoto, desconfio inclusive que meu cérebro está nos dedos.


“Me sinto um gafanhoto nos saltos quânticos”, prosseguiu aquela criatura que mais lembra um menino, descobrindo as coisas do mundo por uma gramática nova, um dicionário que um dia leremos, no futuro. Ele mostrou o livro de Ismael Marinho Falcão, “Direito Agrário Brasileiro”. Desceu a lenha no Tratado de Tordesilhas, e esculhambou de norte a sul a Igreja Católica, apesar de ser católico.


Da sacola, retirou “O símbolo da transformação na missa”, de Jung, que gosta muito. Cyro só não chamou Freud de santo, mas são outros quinhentos.


A cada livro, o mesmo ritual. Uma explanação sobre a vida, o sonho, as buscas humanas. Pegou “O fenômeno Humano”, de Theilard de Chardin, que descobriu o “ponto ômega”. Eu, aos 38 anos, ainda não sei o que vem a ser o “ponto ômega”, mas tenho fé e sou persistente. Um dia chegarei lá. Por último, um livrinho simples, desses do Ministério da Saúde: “Política Nacional de Atenção Básica”.


Não sei se alguém perguntou algo, se não perguntou, fica perguntado agora.


“Cheguei aqui seguindo um sonho – o de ser gente”.


Uma torrente de humildade. Um tufão de singelezas. Um redemoinho de sabedorias misturadas, coladas em muitos cadernos, que ele vem colecionando.


Cyro abriu um caderno repleto de notas, depois uma agenda. Leu alguns trechos para o grupo. O médico vendo a vida pelo olhar do todo, do completo, natureza e vida, numa ciência do desabrochamento. Arregalei os olhos e ouvidos. “Uma divagação: o sentido da vida dos seres humanos rumo ao desconhecido”. “Em defesa dos dementes”. “A revolução pelo sonho”. “Não vamos parar nunca, rumo à libertação”.


“A armadilha da globalização”, de Hans-Peter Martin & Harald Schmann (Editora Globo), e “Os 7 tipos humanos”, de Roberto Assagioli”, e “Cura energética pelo Quijong”, dos mestres Gao Yun e Bai Yin, completaram os despojos. Tinha também um livro sobre apicultura e outro sobre auto-suficiência, envolvendo plantas e coisas do campo, mas não anotei por pura preguiça.


“Prefiro ver a vida como um circo, e Carlitos como o grande mágico genial, humano. É pelo caminho do sonho que cada um chega a realizar sua própria missão”.


Como será que Cyro pretende fazer isso?


“Pela observação, diálogo, mansidão”.


Upa la-la...


Da bolsa, ainda saiu o Guerra Junqueira, a poesia lírica de “Os simples”. Cyro leu uns trechos. Leu “O caminho” e disse que passou muito tempo sem saber o que era um frouxel. Ele explicou, mas esqueci.


Por último, ele entregou uma pedra grande, pesada, bonita. Há, meus amigos, em algum lugar deste mundo, um homem de 77 anos que faz uma cerimônia do despojamento, e inclui nisso uma pedra.


Antes de uma longa caminhada pela Cidade de Deus, onde fica o PSF, Cyro me mostrou seu consultório. Três quadros na parede: dois de Charles Chaplin, outro de Dom Hélder. Leu trechos de “O último discurso”. Conversamos sobre seu trabalho. Depois fomos conhecer o projeto “Cabra leiteira” e o “Canto da Saúde”, idéias que ele está realizando, graças ao trabalho da equipe de saúde e doações.


Foi uma longa conversa-vivência, repleta de emoções, que só terminou no final do dia.


Se eu não fosse tão burro com tecnologias, botaria no ar a filmagem de Cyro fazendo Tai-Chi Chuan no alto da Cidade de Deus, em cima de uma enorme pedra.


Vou continuar esta prosa amanhã. Estou aqui, com três cadernos de anotações, que o doutor Cyro me cedeu, para ler e pensar.


Decidi que vou atrás de gente que entenda de edição de imagens para gravar uma série de depoimentos com essa criatura, esse amante da humanidade e da humildade, que tem apenas um grande projeto – ser gente.

6 comentários:

Samarone Lima disse...

Testando.
sa,a

Mani disse...

Ah, Samarone, faça isso mesmo. Um homem como esse merece um documentário!

Anônimo disse...

E por falar em humildade: hoje dando uma passadinha na Livraria Cultura na prateleira de Clarice sabe quem eu encontrei? Estuário, pois é, seu livro estava lá entre as obras dela, será que foi vontade própria? Um abraço pra ti!

Simone Pires - simonepires77@gmail.com

Anônimo disse...

E por falar em humildade: hoje dando uma passadinha na Livraria Cultura na prateleira de Clarice Lispector sabe quem eu encontrei? Estuário, pois é, seu livro estava lá entre as obras dela, será que foi vontade própria? Um abraço pra ti!

Simone Pires - simonepires77@gmail.com

Julio Vila Nova disse...

Sama, como o mundo precisa de médicos como o Dr. Cyro! É revoltante ver como muitos doutores tratam seus pacientes. Estou vendo isso agora, de perto. O avô de minha mulher, forte, lúcido, saudável, nos seus 90 anos, foi parar num hospital em Olinda por causa de uma gripe mal curada. Decidiram interná-lo, teve uma melhorinha, mas o negócio virou uma bronco-pneumonia, segundo diagnosticaram. Trataram logo de mandá-lo para a UTI (não sei quanto os planos de saúde pagam aos hospitais por cada dia de UTI, mas desconfio que não seja pouco). Mesmo na UTI, ele continuava falante,reclamando do calor, dizendo "me tirem daqui, eu sei como curar essa gripe", os médicos se revezando nos plantões de tal modo que ninguém sabia do primeiro que o atendeu, a cada turno uma outra cara, uma outra opinião sobre o caso. Bom, em três dias o quadro dele piorou, agora está com infecção generalizada, quem sabe, contraída ali mesmo. Rapaz, pense numa barra! Desculpe o desabafo tão longo!

fabiana disse...

Sama, sou editora de imagens!
Estou na tv câmara,trabalho com Maira Brito, Get...entre em contato - vamos fazer um barulho com esse homem, cara!
videosespeciais@camara.gov.br