segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O homem-árvore

Estou trabalhando com um homem-árvore.

Ele sai caminhando comigo para um almoço barato, em algum botequim perto da Secretaria de Saúde, e enquanto vou pensando em algo sem futuro, ele me cutuca:

"Já visse que copa mais linda?"

Então olho para a copa de uma árvore que não tinha reparado, que está sempre ali, talvez há décadas. Talvez décadas sem um olhar que a proteja.

Estamos comendo algo, dois dias depois, quando ele olha para o lado de fora e arregala os olhos:

"Sama, vê as árvores!"

Encerra momentâneamente o afã de comer e comenta:

"O que mais me impressiona nelas é de onde surgem".

"De onde?", pergunto tontamente, como se não soubesse desde o jardim da infância que árvore surge do chão.

"Da terra".

Ele fica me olhando com aquela cara de descoberta, mas a primeira descoberta minha é sobre o valor das palavras. Chão é uma coisa muito dura. Terra é algo acolhedor.

"Parece que a terra não dá nada, e ao mesmo tempo propicia o solo para crescer uma coisa tão dura e forte como uma árvore".

Dias depois, saímos para um passeio sentimental pelas ruas bucólicas do Poço da Panela. Vamos eu, ele e Naná, o meu gordinho predileto. Enquanto a conversa segue frouxa sobre alguns amigos nossos que resolveram adoecer, dou chutes em pedrinhas, e penso como a vida é breve.

O meu amigo olha para uma árvore, cheia de franjas, e diz o nome.

Tenho muitos problemas de memória, esqueci o nome.

Depois ele arranca um pedaço de uma planta que sai de algum muro, leva para nossa amiga Bebete, que se recupera de uma pequena cirurgia.

Chegamos para a visita com uma planta de presente.

O homem-árvore virou homem-planta.

Bebete promete plantar o galhinho em algum lugar da casa. Quando a gente planta coisas, algo muito pequeno vai nascendo, mas depois cresce, e às vezes fica muito grande, como uma árvore. Às vezes fica miúda, como uma flor, mas o tamanho das coisas não tem importância, o que vale é a beleza.


Para Iramarai, que olha e sabe das árvores.

8 comentários:

Dimas Lins disse...

Sama,

Esse negócio de homem-árvore foi genial. Por certo ele é protegido pelo IBAMA e velado pelo Green Peace.

Como sou também esquecido e não sei se o fiz de manhã, na dúvida vou regar as plantas quando chegar em casa. São plantinhas miúdas, mas que deixam minha casa com cara de lar.

Um abraço,

Dimas Lins
www.estradar.com

Gerson disse...

Muito boa Sama! Parebéns pelo seu Blog, continue sempre nos proporcionando boas leituras, cada vez mais raras hoje em dia... Abraços...

Carol disse...

ai que coisa linda... um brinde para o que se planta!!!
um xero no teu coração Sama

Anônimo disse...

entre o tamanho e a beleza, fico com o olhar. de que valeria a beleza sem um olhar cuidadoso que lhe dê comida para seguir embelezando outros?
há flores que fenecem no mesmo dia em que se abrem, são as efêmeras. há belezas que só sobrevivem ao tempo se talhadas nas retinas do momento.
sim, a iramarai, que empresta seus olhos com delicadeza.
un petit bisou pour toi

Anônimo disse...

Até 30 de setembro, o sistema público de comunicação alemão Deutsche Welle e a Organização Repórteres Sem Fronteiras recebem as inscrições para o 4º The BoBs-Best of the Blogs.

O concurso é realizado em dez idiomas: alemão, árabe, mandarim, espanhol, francês, holandês, inglês, português, russo e persa. Os blogueiros podem cadastrar suas páginas, em 15 categorias diferentes, no endereço www.thebobs.com

Boa sorte, Sama!

Anônimo disse...

adorei. Quero dizer que João Lin é muito legal.

Anônimo disse...

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ipê tava vivo

Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo

Anônimo disse...

Olha
Um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado
Adivinhou a primavera...

Poeta, estive naquele prédio dos cinemas, na Rosa e Silva, descobri uma loja de cd, adivinha o que eu achei? Brasileiro Profissão Esperança. O presente que eu lhe dei, nem sei se você gostou... enfim, o presente voltou pra mim! Roda mundo, roda-gigante, roda moinho, roda pião...
Beijinho.
Adri