quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Anotações sobre Eliete

A melhor cabeleireira do Recife chama-se Eliete, não sei o sobrenome, e seu pequeno salão, no Alto José do Pinho, é o lugar mais confortável para aparar uma vasta cabeleira, como a minha, por exemplo.

Lá, é possível escutar a tesoura fazendo zap, zap, zap, sabendo que ela, Eliete, não vai depenar a vasta peruca, como fez a Lucidélia, no final do ano passado, nem passar produtos de origem misteriosa, que podem transformar um quase black power, que é o meu caso, num Ronnie Von do subúrbio, que foi o meu caso, em 2002, eu quase choro.

Em Eliete, é possível ver as revistas todas de artistas, como Caras, Quem, Nova, referentes a 2003, e parece que os artistas só fazem mesmo é casar, jurar amor eterno e separar, meses depois, além de revistas misteriosas sobre coisas jurídicas e de arquitetura, que não sei onde ela arranja.

Só mesmo em Eliete é possível escutar Geraldo Freire, o “comunicador da maioria”, arranjar uma cadeira de rodas para alguém que precisa, de fato, de uma cadeira de rodas, enquanto ela diz "meu deus, o povo sofre tanto..."

Eliete é o melhor lugar do Recife para escutar as conversas das mulheres sobre amores, separações, reencontros e saudades, como se o salão fosse um grande espaço psicanalítico, onde todas dão palpites sobre tudo, e os homens ficam sabiamente calados, porque não entendem do assunto.

Só mesmo em Eliete, para saber que ela acabou de comprar um carro (um Siena, sei lá), e que agora, toda a família quer andar no seu veículo, "até para ir ao centro do Recife", uma coisa realmente muito chata.

Em Eliete, e somente lá, uma cliente gordinha pode informar que comprou uma Kombi há muitos anos, sim a famosa Kombi, e só usa uma vez a cada quinze dias para ir a Carne de Vaca, uma praia, com a família, e que nem adianta nenhum parente pedir o carro, porque só vai mesmo para a praia e ponto final.

É lá, em Eliete, que a mesma gordinha vai informar que a citada Kombi foi levada a uma oficina para ver algum problema, e o mecânico disse que o único problema do carro é que ele precisava rodar, porque estava ficando encruado, quem não souber o que é encruado, não é recifense, tem que ir ao Aurélio, o pai dos burros.

Só mesmo em Eliete para saber que ela perdeu seu grande amor no Carnaval do ano passado, um acidente de moto, e que ela só não morgou para a vida porque os amigos disseram que ela tinha que reagir, e ela reagiu na raça, mas sente falta, todos os dias, daquele negro alto, forte, que adorava se arrumar todo para ir dançar com ela na Aspás, que Deus o tenha.

Só ela, Eliete, pode passar um cremezinho no cabelo para “tirar as pontas secas” e mandar você esperar meia hora, e você vai esperar meia hora tomando uma cerveja no bar de seu Biu, que chegou ao Alto José do Pinho há 40 anos, e quem vai atendê-lo é Flávio, com uma voz de locutor de FM e AM, que tem um programa na rádio comunitária do Alto.

Só lá, no intervalo de Eliete, você poderá chamar Ailton “Peste” para tomar uma cerveja, e ele, um educador social em Olinda, vai contar como tem sido a vida na periferia, com aquele sorriso generoso e franco, que falta à elite rica do Recife fodido.

Eliete é o único lugar do Recife em que uma pessoa descreve a primeira lembrança de violência assim: um assassinato perto da sua casa, quando tinha 12 anos, por causa de um cachorro que mordeu o vizinho, e você vai escutar, incontinente, que o Alto José do Pinho se tornou um lugar calmo, pasmem, depois que a delegacia foi retirada dali.

Eliete, que ainda me chama de “professor”, apesar de eu estar há três anos longe das salas de aula, e subitamente, eu me sinto um singelo professor de escola primária, no subúrbio.

Eliete, que ainda não aprendeu a dirigir, mas vai aprender, pela graça divina.

Eliete, esta sonora composição do povo brasileiro, feita de raça, amor, simplicidade e beleza, construindo a vida em um pequeno salão, menor que uma garagem.

Eliete, que lava meus cabelos secos com um pequeno balde, mas olha as pessoas nos olhos e lava também o coração de toda maldade.

12 comentários:

Anônimo disse...

Marone, só Eliete mesmo p/ cortar esse teu balaio. A bicha deve ser o cão chupando manga mesmo. Ela cobra em dobro para cortar o teu cabelo né?
João Valadares

Julio Vila Nova disse...

Que belo texto, velho Sama. Parabéns pelo talento de irradiar nas palavras a luz das pessoas !

Andreia Santos disse...

Ahhh Sama!!! quero ver teu new look!!! vc é bonito de qualquer jeito mesmo...
beijosss meu lindo

Claudia disse...

faça o favor de mostrar esse texto a Eliete! Ela pode não entender o que é blog mas ficará orgulhosa com as suas palavras do mesmo jeito!

Juliana disse...

Concordo quando disseram pra vc mostrar esse texto pra Eliete. Se foi capaz de me emocionar, eu q nunca a vi e que nem sabia de sua existência, será capaz de dar alegria ao coração tão sincero dessa mulher tão espetacular q vc descreveu!
Parabéns pela sensibilidade! Belo texto.

di matteo disse...

Cortastes o cabelo? Putz. Pagando promessa?

Agora estamos com os pontos de referência em baixa. Antes era o seguinte: "Porra, quem é o Samarone?" - "É aquele ali com a camisa do Santa Cruz e com o cabelo que é mais fácil chegar na lua do que no pé."

No mais, como sempre, um belo texto.

Anônimo disse...

Obrigada mais uma vez por mais um texto...Feliz Natal e um Ano Novo repleto de mais pensamentos, energia e paz.
Vc não sabe o qto os seus textos me fazem bem.
Abraços

Anônimo disse...

Querido amigo,

Muito lindo seu texto, assim como a nossa amizade que começa a florescer.

Um beijo da sua amiga.

Anônimo disse...

Sama, vou ligar para Ermirinha dizendo que vc cortou o cabelo (he he he). A velha vai cair de emoção. Já que arriscaram que vc fez promessa, o meu palpite é que vc perdeu alguma aposta neste final de ano para deixar passarem a tesoura no teu black power. Beijão do mano PH

Anônimo disse...

Os leitores estão emocionados com a notícia de última hora: Sama deixou que cortassem os seus cabelos. O mundo tá acabando mesmo. Um abraço.

Anônimo disse...

Pronto, agora tu vai poder fazer palestra pro Ronaldo Lessa lá em Alagoas sem fazer o povo do UNICEF passar vergonha. E se botar perfume então, é capaz de renovarem o contrato...

Inácio

Anônimo disse...

Samarone,

Beijo para sua mãe. Só cria lambida faz coisas lindas como essas. Feliz Natal e um Ano Novo tão maravilhoso como vc.
Naire