sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Coisas bestas para fazer no exterior

É muito bom viajar para o exterior, eu mesmo já viajei pra caramba, conheço um montão de países, se pudesse viajava o ano inteiro. Mas o que é bom mesmo é curtir com os lugares comuns, aquele negócio de ficar tirando onda com os chavões internacionais.

Lembro que fui a Paris em 1995, fiquei um mês inteiro perambulando, hospedado na casa de Luzilá, tomando aqueles cafezinhos bacanas, olhando a francesada passar, até que certo dia resolvi ir à Sorbonne. Puxa vida, o berço de um bando de gente sabida, esses caras que influenciaram parte da humanidade, aquela coisa toda, um glamour do conhecimento, das Ciências Humanas, que adoro. Fiquei olhando tudo, com uma inveja danada daquela moçada que circulava, alguns certamente com bolsas de estudo, eu sou um sujeito fissurado por bolsa, seja ela qual for, até bolsa a tiracolo.

Pois bem, não sei se foi a emoção ou uma baguette vencida, o fato é que senti uma dor de barriga devastadora. Quando menos vi, estava usando o sanitário da Sorbonne. Puxa, que dia glorioso! Que alegria, dar minha contribuição à legendária Sorbonne! Demorei bastante, me deliciando, rindo daquilo tudo. Procurei uma caneta para escrever alguma besteira, mas estava sem caneta, que vacilo.

Terminei, dei a descarga, me organizei e saí com o peito estufado. Já perguntei a vários amigos e nenhum deles usou o sanitário da Sorbonne. Inácio, único amigo que já leu e cita trechos de “Crime e Castigo”, de Dostoievsky, nunca freqüentou o WC da lendária Universidade. Fico pensando: pra que ler tanto?

Uns dois dias depois, fui ao Louvre, porque já fui chique. Andei, andei, era gente do mundo tudo, fui andando com meu passinho de camundongo, até que esbarrei numa multidão, olhando um pequeno quadro. Amigos, juro que não dava dois palmos da minha mão, uns 50 centimetros pra cima e pra baixo. Era ela, a famosa Monalisa, do Leonardo da Vinci, dependurada na parede.

Me aproximei, olhei a criatura, aquele quadro que valia uma verdadeira fortuna, que aparece em tudo que é de calendário desde que sou pirralho, vi bem de perto e senti mesmo foi uma enorme decepção. Mas isso é que é a Monalisa?

Informo a quem estiver interessado em comprar a Monalisa: é um quadrinho meia boca, chinfrim mesmo, pequeno. De perto, ela é aguadíssima, não pegaria uma ponta na novela das seis. Eu até tinha simpatia pela moça, mas de perto, olhos nos olhos, ela não faria sucesso nem no ônibus do Alto Santa Isabel. Me deu vontade de dar uma vaia, mas vaia é uma coisa que o sujeito precisa de muita personalidade para dar sozinho. De um lado, japoneses, de outro, americanos. Atrás de mim, mais japoneses ou vietnamitas, eu nunca sei, acho que eram os japas mesmo. Não, japonês não é um povo que sabe vaiar como o nosso, Pernambucano. Tive que segurar a vaia, para não causar problemas aos seguranças do Louvre. Usei-a depois contra os rubronegros daqui, no Arrudão.

Em 2000, fui ao Central Park, em Nova York. Sinceramente, é uma Parque da Jaqueira dez vezes maior, um Ibirapuera mais largo, com mais flores. Não vi nenhum famoso, como Woody Allen, Susan Saradon, ou aquela gostosona da Elizabeth Shue. Nenhum bacana jogando o pedaço de pau, para o cachorro trazer na boca, como acontece no cinema. Sequer um reles, um magérrimo, desdentado pipoqueiro. Fiquei perambulando, chateado com Hollywood, que vende tanto gado por lebre. Nem pedrinha para chutar tinha!

Na República Tcheca, visitei a casa do Franz Kafka. Puxa, o sujeito viveu num muquifo mesmo. Apesar de a rua ser bonitinha, o Franz teve uma habitação meio ordinária. Não tinha sequer um armador, para ele pendurar sua redinha. Por isso saíram aqueles livros angustiados, concluí. Tirei uma foto na frente, acho que já perdi a foto, mas hoje deve ter gente fazendo o mesmo que eu, dez anos atrás, buscando as pegadas do Franz, me perdoem a intimidade. Depois disso, nunca mais fui em casa de escritor. Melhor ver os livros mesmo.

Por falar nisso, fui visitar o túmulo do Proust, lá em Paris. Rodei, rodei, aquele Pére Lachaise é imenso, morreu muita gente mesmo, desde que criaram a França, acabei chegando lá e imediatamente me senti idiota. Primeiro, porque só li o primeiro dos livros dele, aquele “Em Busca do Tempo Perdido”, aquele em que ele come um biscoito e quase goza. Depois, eu fiquei me perguntando: que diabos estou fazendo aqui?

Há milhares de coisas para se fazer no exterior, como tomar uma cerveja num boteco velho, ir a um cinema na periferia, ver uma pelada no meio da rafaméia, assistir um jogo de dominó. Agora, o sujeito sai do Brasil e vai olhar o túmulo do Proust?

Sinceramente, tem épocas que a gente é otário e não sabe.

Uma das melhores viagens da minha vida foi para a Argentina. Ficávamos no andar superior do albergue, em Buenos Aires, os três patetas: eu, Gustavo e Daniel Raton. Começávamos a conversar inutilidades às 8h da manhã, e quando menos notávamos, já eram cinco da tarde. Enquanto isso, dezenas de turistas passavam, com seus guias de viagem, mapas de lugares obrigatórios, máquinas fotográficas.

Ficamos vários dias assim. No íntimo, sentíamos uma certa solidão naqueles bandos de turistas, sedentos por fotos e emoções. Eles falavam de lugares, não das pessoas. Não trocaria aquelas longas conversas dos três patetas, por nenhum passeio pela encantadora Buenos Aires.

Nesta mesma viagem, aconteceu algo encantador. Eu estava escrevendo um texto, estava um calor dos diabos e faltou energia no quarteirão onde funcionava o albergue. A faxineira, uma boliviana, me ofereceu a casa dela, que ficava ali perto, para que eu não interrompesse o meu trabalho. Aceitei, lógico. Ela me levou e me apresentou sua companheira, uma senhorita argentina, que me preparou um café. Sim, viviam juntas e se amavam muito, me contaram depois.

Fiquei ali, numa casinha apertada, o ventilador rangendo, na casa-da-esposa-da-zeladora-do-albuergue. No quarto delas, havia várias fotos de mulheres nuas.

Existe passeio mais lindo que esse, ser recebido no meio do amor de duas mulheres, no coração de Buenos Aires?

ps. obedecendo ordens superiores, continuo publicando meus poemas e poemas alheios no blog www.quemerospoemas.blogspot.com

7 comentários:

Anônimo disse...

bateu uma saudade tabacuda...
pra falar de leseira não tem ninguém melhor.
mas fica tirando onda não que eu quero minha foto do túmulo de proust, viu?

Anônimo disse...

Samarone
Muito bom viajar mesmo... Adorei a crônica!
Saudades de colocar a mochila nas costas e percorrer lugares maravilhosas.
Espero que logo você possa prosseguir com muitas e muitas viagens e também, curtir uma nova bolsa...
Grande abraço, Priscila

Gustavo disse...

Dar nome às viagens

Ninguém é mais Maria.

Não se põe mais Maria
no nome de ninguém.

Nem de Raimundo.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Maria
também não queria nome
Raimundo.

Gustavo.

Andreia Santos disse...

Ah que otima crônica para uma sexta-feira!!! Vc relatando suas viagens e eu viajando nas suas palavras. Que maravilha...Adorei!
Beijosss

Adri disse...

Porque estarei incomodando você uns instantes amanhã... ou depois de amanhã, vou me desculpando. Gafes de toda sorte, lapsos, timidez paralisante, isso tudo não é privilégio seu. Perdoe antecipadamente, Samarone, a falta, o excesso, o rubor, o tremor nas mãos, é que vou ter com o Poeta autor desta deliciosa crônica. Não é pouco. Mais uma vez, obrigada...

Anônimo disse...

Viajar e visitar pontos turísticos é coisa de neófito. Já fiz tudo isso, um estresse. Lembro da primeira vez que fui à Europa, sabe aquela coisa "A europa em 30 dias", eu fiz. Gastei um dinheiro danado e muita sola de sapato para ver o que imaginava ser a oitava maravilha do mundo. Só vc mesmo para lembrar dessas coisas e fazer a gente rir por ter pago o mesmo mico.
Beijão
Naire

Carlos Besen disse...

há tanta coisa boa nesta crônica que: comentar é uma necessidade e um desânimo.

Digo: belo belo, abaixo as formalidades, os rituais de nada com nada.

Abraços imensos