segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

A mulher que perdeu os medos

Foi na semana passada, e como dizem os psicólogos, estou elaborando o diálogo, pela rara intensidade. Eu conversava com duas pessoas, na despedida de um amigo, a o papo seguia bom, cheio de coisas ricas, delicadas, falávamos de coisas da vida (acho melhor não citar o nome porque nem todo mundo quer ver seu nome em uma crônica, e daqui a pouco não vão querer conversar mais comigo, porque posso publicar conversas) e nenhum dos três sabia contar piadas, creio.

Fomos trocando impressões sobre os mais diferentes temas, lembrando coisas de nossas vidas. Uma disse que foi apaixonada por um menino do Jardim I até a 4a série, então rimos muito. A outra disse uma frase e tanto: “Desde que eu me lembro, estou apaixonada por alguém”. Ela tinha um pôster do He-Man em seu quarto, e cada vez que acordava, dava um beijo nele. A amiga confessou que também adorava o He-Man, mas não só adorava mesmo, não chegou a ficar apaixonada pelo super-herói. Minha lembranças de infância são meio ruis, porque fui um pirralho que leu pouqíssimo gibi e assistiu pouquíssimo desenho animado, não sei o que eu ficava fazendo nas muitas horas vagas da infância.

Até que, em um determinado momento da conversa, uma delas me disse que não tinha mais medo de nada. Ela disse que nada, absolutamente nada, lhe dava medo. Perdeu todos os medos.

Fiquei assombrado. Como assim, sem medo de nada?

Então ela me contou que no ano passado perdeu a irmã mais nova, vítima de uma doença. Não entrou em detalhes, e nem precisava. Mas o que ela mais temia na vida era perder aquela irmã tão amada, e foi justamente o que aconteceu. Uma esquina torta no meio da vida. Um safanão da vida, a morte precoce de quem se ama.

Hoje, ela não tem mais medo da solidão, da morte, de ficar desempregada, nada. Simplesmente perdeu o medo, nada mais que isso. Ele foi embora, junto com aquela dor, que só posso mesmo imaginar. Não havia convencimento em suas palavras, não se tratava de nenhuma tentativa de demonstrar força, mas pelo contrário: É como se tivesse chegado ao ponto mais frágil da vida, quase um graveto, aquele graveto quase quebrou, mas depois ela conseguiu se redimir, sobreviver, florescer.

Quando ela terminou de falar, fizemos um breve silêncio, e dos seus olhos vazava uma luz muito forte, serena, que guardei como quem está recebendo um presente para a humanidade inteira.

Achei justo compartilhar com vocês, num dia muito triste.

8 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, Samarone
As vezes a vida nos deixa assim, sem medo de nada, de nada mesmo... Perdi uma filha há quatro meses e também fiquei assim.
MAs, a vida contnua e temos que seguir em frente, não é?
um grande abraço da amiga desconhecida

Maria disse...

Essa amiga é uma delícia, né Sama? Tô para encontrar companhia igual.
Adorei o texto. Adorei a conversa.
Beijoca!

Ana disse...

Eu tô me achando!
Adorei a crônica, adorei a conversa, adorei você! Obrigada pelo presente que eu considero dos mais preciosos!

Joana Macambira disse...

Momentos antes de ler esta crônica eu tava voltando pra casa e conversando com minha filha de 11 anos sobre as paixões que tive na infância. Isso porque ela tá toda apaixonada por um menino do colégio. Pensando bem, até os meus 20 anos eu sempre tava apaixonada. Quando eu cursava a segunda série teve um , Enoch, que foi uma paixão muito boa. Minha maior felicidade foi quando rolou de eu dançar quadrilha com ele. Minha paixão mais remota data dos meus 4 anos de idade. Mas muita doidêra já aconteceu, e recentemente eu tava me ressentindo de que há anos não me apaixonava realmente por ninguém. E como é ruim ir dormir e não ter em quem pensar. Aí acabava perpetuando alguma viagem do passado. Há poucos dias apareceu-me um vate que tem mexido aqui dentro. Veio pra me libertar dos fantasmas e me fazer sentir no agora.
Quanto ao medo, o tempo tá se encarregando de ‘domesticá-lo’ diante da realidade da vida.

Joana Macambira disse...
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Anônimo disse...

tristeza, contrário, feliz e distante. apenas um nesse instante poderia trazer felicidade.
amanhã eterna eternidade, de alguém que vinha adiante.
tão perto, assim, ali no horizonte, me escondo de toda realidade.

Anônimo disse...

A morte, que coisa mas triste!!! Tb perdi pessoas que amava. Há 5 anos, perdí 2 primas-irmãs (moravamos quase juntas) num acidente de carro terrível!! Achei que a vida ia acabar nessa hora pra mim, que com meus 17 anos nunca mais conseguir-ía aproveitar da vida sabendo que 2 meninas de 13 e 19 anos tenham deixado a vida sem chegar a conhece-lá.. E pouco a pouco aprendí a viver com essa falta, a não chorar mais vendo as fotos e, até, a viver uma vida ainda mais intensa, para tal vez compensar a que elas nunca viveram. Hj, não posso dizer que não tenho medo de nada, muito pelo contrario, hj, mas que nunca, tenho medo de repassar por esse momento. Não é da morte que tenho medo, pelo menos da minha morte, mas um medo horrível de, de novo, perder, que seja pela morte ou não, as pessoas que amo.

Em quanto a paixão, lastimo ter que admitir que me apaixonei tão poucas vezes na vida que hj sinto essa falta na minha vida.

Obrigada Sama por nos fazer refletir sobre as coisas, as vezes graves e as vezes fúteis (elas tb precisam ser refletidas)
bjo

Anônimo disse...

Escrevendo esse comentários acabo de me dar conta que faz já 8 anos e não 5.... A dor está ainda tão presente que nem parece que passou tanto tempo...
Mas é assim que a vida nós leva.