domingo, 19 de fevereiro de 2006

O menino com a bola, a pelada e outras besteiras de sempre

São 12h47 do domingo, o sol vai rasgando o Recife e estou na esquina aqui de Seu Vital, conversando lorotas com os amigos. Estou numa cadeirinha daquelas de ferro, junto com o velho Diazepan, bebemos uma cerveja para relaxar. O dia está lindo, não há uma verruga nele. Lucidélia traz um tira-gosto e tanto: cebolinhas cozidas, uma delícia, recomendo. Nana vai e vem para todos os lados, armando uma mesa com frutas, para tira-gosto. Defronte, na igreja de Nossa Senhora da Saúde, mais um casamento. Quantos casamentos já assisti na vida? Uns 100, creio, talvez mais. É a vantagem de morar ao lado de uma igreja, a gente sempre vê muitos casamentos. A noiva é linda e o noivo tem lá seu charme, usa um terno branco que se garante. À saída, jogaram arroz neles, igualzinho ao cinema. Eu me considero um sujeito de sorte, por ter um domingo assim, tão doce, sereno.

E surge uma cena do nada, que se torna motivo desta crônica. Vem andando um garoto, de uns 14 anos. Ele está só de calção, descalço, o cabelo cortado bem curto. É um moreno escuro, mas não chega a ser negro. Vem com uma bola de futebol, fazendo embaixadas. Sim, ela caminha e vai tocando uma bola, sem deixá-la cair, com uma habilidade impressionante. Deixo tudo de lado e passo a reparar no menino. Não, não é um menino, é um menino com uma bola. Os dois, o corpo e a bola, se transformam em uma coisa só.

Ele está descalço, vem andando, não repara no casamento. A bola vai ficando macia no pé dele. Nada mais tem importância, nesta manhã de domingo. É ele e a bola. Os dois são um. Aliás, somos dois – o menino com sua bola e eu. Não tem importância nenhuma o chão de pedra e o mormaço. Ele está acariciando a pelota com os pés.

E me vem então este sentimento amoroso com o futebol, que os intelectuais não entendem. Na verdade, não sei o motivo de me encantar tanto com o futebol. Talvez seja porque futebol e vida, para mim, se entrelaçam. Meu nome, por exemplo, veio de um jogador do Fluminense, que meu pai adorava. O Samarone do Flu de 1969.

A pelada do domingo é a minha grande festa corporal. É quando grito, chuto, dou bicudas, solto o bicho dentro de mim. Cada partida é uma decisão. Eu queria ver algum homem brasileiro que aceite perder a pelada do domingo sem ficar contrariado. Do domingo ou de qualquer outra data. Perder a pelada é começar mal o dia, ver o adversário crescer. A maior solidão de um ser humano é a de um sujeito que vai buscar a bola dentro da rede, depois de levar um gol.

Há muito mistério em uma pelada, tenham certeza. Por um breve momento, naquelas quatro linhas, todos são iguais. Todo domingo, jogo com desempregados, porteiros, motoristas, zeladores, encanadores. É quando me sinto mais próximo à igualdade de um país desigual. Posso levar um drible de um cachaceiro e me sentir um merda. Posso dar uma solada em um cara que me acha um burguesinho metido a gente boa. Posso mandar um cara que mal conheço se foder, porque perdeu o gol debaixo da barra.

Pago R$ 1,00 para ajudar no aluguel do campo, e R$ 5,00 para ajudar a pagar a bola oficial, que Batman comprou no crediário. Todos pagam a mesma quantia. Eu acho isso lindo, é uma partilha.

O futebol ensina tantas coisas. Ensina que nunca a vitória é fácil, isso todo mundo já sabe, mas viver isso, sentir isso, é diferente. Hoje mesmo, logo cedo, na pelada dos Caducos, meu clube e minha fé, enfiamos um 6 x 0 no primeiro tempo, Dinho Papeira estava o cão, fez cinco gols. No segundo tempo morgamos geral, erramos a marcação e o time adversário cresceu. Resultado: teve um momento em que a partida chegou ao dramático 6 x 6, o meu time todo desorganizado, e Ruy alardeando que iria virar.

Então, virei bicho, briguei com o time, gritei, fiquei louco. No final, ganhamos de 9 x 6 e me senti responsável pela vitória. Vitória não, me senti responsável pela superação. Saí de campo ensopado de suor, exausto, joguei um balde de água na cabeça e me veio aquele cansaço pleno, a exaustão repleta de sentido. Fiquei sentado, respirando, o suor escorrendo por todos os poros.

Me veio um sentimento muito simples, mas que talvez ainda nos salve enquanto povo: nós, brasileiros, ainda sabemos brincar. Uma pelada na manhã de domingo, aqui onde vivo, é este pequeno exercício de muitos homens se encantando com uma bola, e dialogando em pequenos toques para os corpos que correm. Cultivamos a noção de espaço no mesmo tempo. Dialogamos com poucas palavras: "toca", "passei", "na direita", "pega!", enfim.

Pena que ainda não aprendemos a ser iguais fora das quatro linhas.

Um dia chegaremos lá. E seremos um povo parecido com este menino, que vem andando e equilibrando a bola nos pés, feliz somente por existir.


Para Peitao, Papeira, Sérgio, Cioba, Hércules e todos os amigos da pelada dos Caducos.

4 comentários:

Anônimo disse...

Show de bola Sama!!!!
Bjs.

Karyna disse...

Tu é muito arretado, mesmo, na escrita, Sama!

Se deliciar com o cotidiano é pra poucos. Muito poucos. Sua escrita sempre tem a ver com a simplicidade, o dia-a-dia, as pequenas coisas que (pelo menos pra mim) realmente valem a pena. Adoro isso!
Como diria o povo mais velho, Deus o conserve assim!
Beijo

Anônimo disse...

Maravilha!
Você escreve com a alma. Se espressa maravilhosamente bem.
bjs, amiga desconhecida

Andreia Santos disse...

Sama, pelas suas lentes e palavras, passei a ver o futebol de outra forma. Beijosss