quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

O que sobra das derrotas é a vida

Acabei de confirmar a participação como palestrante na calourada dos alunos de Comunicação da Unicap, na próxima semana. Eu gosto muito desses encontros, porque há uma boa troca e lembro do período em que fui estudante de Jornalismo na mesma Universidade. É bem provável que o debate seja no auditório que freqüentei muitas vezes, em busca de algum conhecimento ou, no mínimo, de algum encontro, alguma palavra que ajudasse a pensar os caminhos de um jovem estudante universitário latino-americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importante, e vindo de Fortaleza, ainda imberbe.

Então vai acontecer aquilo que me deixa meio sem graça, mas é parte do script. Vão falar onde me formei, dos livros publicados, dos lugares onde trabalhei, do mestrado etc. Como sempre gostei muito de mudança, passei por muitos lugares. E mais uma vez, vou passar o filminho na cabeça, lembrando algo que deveriam citar também na trajetória de qualquer pessoa: os inúmeros fracassos.

Lembro que o “Zé”, meu primeiro livro, foi enviado para várias editoras, e quase todas recusaram olimpicamente, até outro dia eu tinha as cartas informando que o livro não era viável, naquele tom respeitoso e cordial para dizer que seu trabalho é uma merda. Um dia, uma editora de Minas Gerais me telefonou, dizendo que tinha achado o livro lindo e que iria iniciar a edição, fiquei muito emocionado, mas é preciso lembrar dos muitos “nãos” que fui colecionando, até ver o livro nas minhas mãos, no maio dos meus 29 anos. O detalhe é que a distribuição foi um desastre, e muita gente jamais conseguiu comprar o livro, o que foi uma vitória com fracasso, porque todo escritor quer ser lido. Bateu na trave.

Tentei reeditar o “Zé” pela Objetiva, que publicou Clamor, mas levei um não bastante redondo, e nunca mais se falou nisso nem de outro projeto de livro-reportagem que eu vinha alimentando há alguns anos.

Consegui fazer um mestrado muito bacana na USP, um núcleo de pesquisas sobre a América Latina, mas não lembram que fui reprovado em outras três tentativas (duas na PUC-SP e uma na Unicamp) porque me faltava “consistência teórica” e outros requisitos intelectuais de maior monta, mas que, pela graça divina, não lembro.

Tentei emprego na Folha de São Paulo umas três vezes, e recebi simpáticas cartas negativas em todas elas, naquele mesmo tom gentil e delicado, dizendo que agradeciam meu interesse pela vaga, mas informavam meu curriculum não tinha a qualificação necessária ou suficiente, sei lá. Ou seja: nem da primeira fase do processo de seleção eu passei, que bicho burro da gota, era o que eu pensava.

Mandei uma seleção dos meus poemas para dois concursos da Prefeitura da Cidade do Recife, e nas duas oportunidades não recebi sequer uma medalha pela participação, aquela "menção honrosa", que é uma espécie de pirulito para o menino não chorar muito. Para me consolar, estou publicando os poemas aos poucos, no meu blog de poemas (www.quemerospoemas.blogspot.com)

Outro dia uma grande amiga minha, Luzilá, quis me elogiar em sua coluna das terças-feiras do Diário de Pernambuco e falou com um certo orgulho que eu tinha sido “repórter da Veja”, como se fosse algo muito importante. Eu fiquei envergonhadíssimo, quase saio comprando todos os jornais da cidade, para que ninguém soubesse, porque foi o período mais triste de minha vida profissional, eu nunca vi uma máquina tão poderosa de destruição de coisas e pessoas, tanta boçalidade e arrogância num mesmo espaço, e num determinado momento eu achei que não tinha chegado ao ponto máximo da carreira, mas ao ponto em que mais me envergonhava da profissão, foi uma decepção e fracasso juntos.

Fracassei em vários projetos literários (nunca consegui editar minha coleção de frases nem os relatos de viagem) e experimento meio-fracassos quando escrevo crônicas meia-boca neste Blog, a sorte é que tenho escrito muito, e dá para tapear um pouco, e o povo gosta mais de comentar quando acha bom do que quando o texto está aquela coisa insossa.

Tive meus fracassos no amor, que doeram muito, mas segui. Por sorte, tive poucos fracassos nas amizades, que sempre foram perenes, mesmo as mais distantes e silenciosas, acho que tenho um talento com as amizades, uma vocação fraterna e afetiva para não me perder dos que são da minha praia.

De sorte que vejo o mundo com uma minúscula e simpres frase do poeta norte-americano Robert Frost: “a vida segue”.

Minha anotação o pára-choque do meu caminhãozinho: o que sobra das derrotas é a vida.

10 comentários:

Anônimo disse...

Deixa de chorar pitanga zé mamão. Tu é fera federal.
João Valadares

Andreia Santos disse...

Sua história é fantástica. E que graça tem a vida se nunca ouvirmos um NÃO bem redondo???? Parabéns por tudo.
Abraços

Anônimo disse...

Pois é amigo, através dos fracassos adquirimos o famoso fortalecimento. O passado é só lembrança. Olha só o que seu amigo fala no comentário a cima: ”Tu é fera federal”, bom escutar isso, não é?
beijo de uma amiga que não conhece.

Mariana disse...

Ainda bem que você vive muito, Sama. Beijo

Geórgia Araújo disse...

Sama querido, acho que você está com TPC (tensão pré-caranaval), mas não se preocupe, a prévia dos Barba já se aproxima e aí você vai ver, quando o dia chegar, aquele cachorro raivoso ou deprimido que está vivendo em você, dá lugar a um indivíduo alegre e cheio de energia.
Entendeu? Se não, pergunta para a primeira mulher que você encontrar, que ela te explica.
Beijos mil!

Anônimo disse...

Sama,
será possível que até os teus fracassos tem um "que" de impulso? Sorte no amor. O resto vem junto.

Anônimo disse...

Vitoria e derrota são as mesmas coisas.

joaquim disse...

O quê é a vida sem derrotas e tristezas?

fabiana disse...

"Gloria a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!"

Jamille disse...

Martha Medeiros escreveu certa vez que pessimismo é acreditar que ouvir um não seja uma barreira pra realizar nossos planos. Tem gente que fica paralisado diante de um não. Tem gente que vai à luta e mais cedo ou mais tarde encontram um SIM! Hoje vc tem três livros publicados, o terceiro, inclusive, eu ainda espero vc dizer que ta me esperando pra eu ir buscar! Beijos.