terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A palavra que conserta a vida

Por obra do destino, voltarei a ser professor. Ganhei de presente uma disciplina com o delicioso nome de “Oficina da Palavra”. A partir de abril, trabalharei com jovens de 16 a 19 anos, de bairros menos favorecidos desta cidade imensa e desigual, que é o Recife. Durante 18 meses, junto com outros profissionais, tentaremos buscar novos caminhos profissionais e humanos para 80 jovens, num belo projeto que envolve muita gente bacana, sob a batuta do querido Ricardo Mello. Por ora, só posso informar isso, para as coisas fluírem bem.

E me vi novamente preparando aulas, pensando nos caminhos a seguir. Fui à Biblioteca Central da Universidade Católica, levando meus cadernos e alguns livros. Passei o dia inteiro em meio aos livros, naquele clima delicioso de biblioteca.

E logo que cheguei, me veio uma torrente de lembranças. As mesmas mesas, as cadeiras iguais, as prateleiras não mudaram, desde a primeira vez que pisei ali, em 1988. São 18 anos, meu Deus! Foi ali, naquele mesmo lugar, que comecei a minha grande aventura com a escrita, com os livros, com a descoberta dos mundos. Lembro que morava numa pensão ali próximo, e dividia o quarto com dois camaradas. Sei que os nomes deles estão anotados em meus inúmeros diários, mas não é o caso de futucar o passado com vara curta, é só uma constatação.

Lembro de um, que trabalhava vendendo seguros, algo assim. Ele chegava do trabalho e abria uma latinha de Pitu, ficava a bebericar e fumar seus cigarros. Era magro, aquele que bebe e vai ficando magro (porque tem cara que bebe e vai ficando gordo). Quando eu voltava da Universidade, ele ainda estava em sua melancolia profunda, entre os goles de aguardente e o cigarro forte, que eu não achava ruim. Quando a faxineira vinha limpar o quarto, arrastava com a vassoura um monte de latinhas vazias, que estavam debaixo de sua cama, e eu ficava impressionado com sua sede. Não sei que destino levou. O outro era um rapaz do interior. Se não me engano, sonhava em morar no Rio de Janeiro, tomara que tenha conseguido, é bom realizar sonhos. Ele sempre botava um pano na janela, para não entrar sol de manhã, e isso era muito bom.

Fui preparando as aulas, pensando em como a palavra poderia ajudar na formação desses jovens que encontrarei. Enquanto isso, olhava para os funcionários e tentava o precário reconhecimento de lembranças antigas. Minha memória é péssima, acho que por isso escrevo tanto. Tinha uma gordinha simpática que sempre me atendia com um sorriso, não lembro seu nome, mas lembro de seu sorriso. Não a vi. Terá se aposentado? Muita coisa muda em 18 anos, mas creio que seu sorriso não mudou, deve ter melhorado. Com o tempo, o sorriso das pessoas melhora.

Lá pelas tantas, as aulas foram ficando prontas, pelo menos na minha cabeça, mas o filminho continuou passando. As aulas, os amigos de turma, os primeiros estágios, até que chegou a hora de viver disso, do jornalismo, viver da palavra, por assim dizer. Conquistei, às duras penas, o ofício de Jornalista. Depois de vários anos, retornei para ensinar na mesma Unicap. Teria que repassar este amor às palavras e aos textos aos meus alunos. Lembro da apreensão que fiquei, antes de entrar em sala de aula, e da grande dica que Gustavo me deu, antes da primeira aula:

“Você não precisa mudar nada porque vai ser professor. Seja você mesmo, que vai dar tudo certo”.

Foi o que tentei fazer, não sei se cheguei a realizar plenamente o que planejei, mas guardo muitas lembranças lindas.

Agora, terei pela frente 80 jovens de bairros menos privilegiados do Recife, para caminhar e descobrir novos mundos. O nome da disciplina é “Oficina da Palavra”.

E me vem uma percepção mínima, mas que me serve, me ampara e me orienta: a palavra muitas vezes consertou minha vida. Em outras, ela me salvou.

18 comentários:

Anônimo disse...

Tocante. É chover no molhado, mas você escreve muito bem.
Aninha

Anônimo disse...

Compromisso, encontro, compartilhar, cidadania, crescimento e ética, são algumas das palavras maravihosas para se dividir com essa turma. Boa sorte, Sama. A palavra realmente muda o mundo. Beijão. Magna.

Ana disse...

A palavra é mágica, sim!
Tomara que estes jovens percebam a oportunidade que estão tendo!
Que lindo projeto!
Boa sorte!

fabiana disse...

que otimo, Saminha.
Mas tu vai responder as perguntas dos teus alunos?
olha la, grande principe!

Andreia Santos disse...

Sama, fico feliz por você e por esses jovens. O projeto já é nobre e vc o completa, pq tenho certeza que vc fará um excelente trabalho. Sucesso meu querido! Beijos

Anônimo disse...

Faço parte de uma ong e trabalhamos com projetos, em 2005, trabalhamos com jovens de risco. Fizemos uma qualificação com eles com uma carga horária de 240 h. Foi um período muito bom. Nesse projeto, trabalhamos com: Cidadania, elevação de escolaridade, informática básica, avançada, computação gráfica e manutenção de micros.Adorei trabalhar com esses jovens. A palavra é mágica sim, faz milagres!!! Sucesso pra você.
Bjs da amiga desconhecida.

Claudia disse...

Você conseguiu seu intento como mestre sim! Fui sua aluna e lembro que esperávamos ansiosos a aula do nosso amigo samarone, já que ultrapassastes a barreira de professor para algo muito mais sólido e duradouro.

Lembro de um dia em que você elogiou um texto meu. Nem lembro se foi o texto todo, mas ainda assim o elogio me marcou tanto que ainda o tenho guardado comigo.

Esses jovens vão estar em ótimas mãos!

Anônimo disse...

Querido Samarone,

Segue para vc a dica de um site sobre literatura onde vc pode ver excelentes dicas para construção de textos na opção "oficina literária" e também na "oficina poética". Isso para os seus alunos pois vc já é macaco velho. http://portalliteral.terra.com.br/
Beijos,
Eu

Anônimo disse...

Complementando a dica:
"O aniversário é nosso, mas o presente é seu. A partir desta semana, o Portal Literal vai oferecer uma oficina literária on-line totalmente gratuita para comemorar seus dois anos. Durante três meses o premiado escritor Antonio Fernando Borges, autor de "Não perca a prosa: pequeno guia da grande arte da escrita", "Que fim levou Brodie" e "Braz, Quincas e Companhia", usará toda a experiência acumulada como professor de oficinas literárias da Uerj para ajudar nossos leitores a desenvolverem seu potencial criativo. Cada uma das 12 aulas semanais será dividida num texto introdutório, material para ler e refletir, fundamentos técnicos e um exercício. As aulas são abertas a qualquer um que acessar o Portal Literal. Mas quem quiser acompanhamento pessoal do professor deve enviar um conto para o concurso Exercícios Urbanos. O melhor texto ganhará um vale-livro no valor de R$ 300. E os 10 primeiro-colocados receberão um endereço eletrônico especial para mandarem seus exercícios semanais, que serão analisados e discutidos diretamente com Antonio Fernando Borges.
"
Essas são as informações disponíveis no site. Boa Sorte.
Abraços,
Eu

Adri disse...

Fico feliz. Há coisa melhor? Não há. Bons momentos...
Beijo.

Anônimo disse...

tocou-me a palavra,
assim meio de banda,
sem rimas ou melodias,
de jeito tão estranha,
e lá pelas tantas,
eram tantas e muitas,
que deixei todas,
dentro das loucas artimanhas.

Cecília disse...

Seu blog é simplesmente maravilhoso!!! Delicioso de se ler. Parabéns!! Sinto-me extasiada quando leio textos que me remetem ao fato ou local relatado.
Já está adicionado a meus favoritos.
Boa sorte com o projeto.

Thelma disse...

Boa sorte, guri!!! Vai ser alegria pura...para ti e para eles!

Tiago Martins disse...

Eu não cheguei a ter o privilégio de ser seu aluno na católica, mas tive a sorte de lhe "achar" como amigo e ter você na minha banca (um grande ritual de passagem) com essas palavras delicadas que sempre constrõem novos rumos! Desejo a mesmo sorte que vc me desejou naquele dia tão importante pra mim! Abração!

Sonia disse...

Hoje, ajudando a neta de 13 anos num trabalho que testava compreensão da escrita, eu disse a ela, que estava irritada com a inutilidade de tudo aquilo: a línguagem é a chave para todos os outros saberes.

Karyna disse...

Boa sorte, viu? É sempre boa esta perspectiva altruísta/egoísta de ajudar a melhorar o mundo e de, através disso, sentir-se feliz.

Beijo!

Joana Macambira disse...

Em dias como hoje, quando, já no acordar, sou invadida por uma angústia tamanha, dou graças por poder chorar em palavras essa agonia.

keila aquino disse...

Sama vai aqui meu comentário meio que atrasado mas...foi a falta de tempo mesmo.
O que posso dizer? Sorte de quem terá vc como professor e desfrutará de excelentes momentos de prazer. O prazer de trocar palavras com vc!
Boa sorte e parabéns!