terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Os dois ladrões-meninos e o poeta

Chama-se Gustavo o irmão que ganhei da vida, quando morava em São Paulo, no final dos anos 90. Dividimos apartamentos, fizemos viagens, varamos madrugadas em conversas intermináveis, deciframos as ruelas daquela Buenos Aires distante e tão próxima. Descobrimos novos poetas, tomamos porres homéricos, choramos nossas dores-de-cotovelo, e depois começamos a viajar pelo mundo. Eu pela América Latina, ele pela Itália, em busca do seu Ítalo Vida Calvino.

Um dia, fomos fazer o supermercado, em plena avenida Angélica, Higienópolis, ali onde moram os Fernando Henrique da vida. Enchemos um carrinho miúdo, certamente utilizado para colocar coisas de crianças, e depois saimos, como se algum carro estivesse à nossa espera.

Fomos descendo a avenida de mansinho, sem combinar nada, fomos descendo, certos de que escutaríamos aquele famoso "ei, rapaz, para onde você vai com esse carrinho!", mas não perceberam nossa fuga sorrateira. A partir do segundo quarteirão, éramos duas crianças descendo uma das principais avenidas de São Paulo com seu novo brinquedo. Cada um que estava mais feliz, se pendurando no carrinho e dando gritos de iurrruuuu....

O carrinho ficou na cozinha durante muito tempo. Era um sucesso colocar coisas neles, contar a história e rir muito.

Houve também um episódio bem menos sucedido, uma tentativa tosca, de minha parte, de afanar um exemplar de "A dama e o cachorrinho", de Tchekov. Não contava com a infelicidade, o rude golpe do destino, de ter apenas um exemplar na livraria, coisa notada rapidamente por um astuto vendedor. À saída da livraria, recebemos aquele "ei, rapaz!", de um vendedor exaltado, louco por briga. Tchekov quase nos custou uns sopapos, ali vizinho à PUC, onde Gustavo tocava seu doutorado.

No albergue de San Telmo, em Buenos Aires, passávamos o dia conversando sobre a vida, olhando os turistas e seus mapas.Eu, Gustavo e Daniel Raton, uma das figuras mais incríveis que conheci nesta vida. Eram horas sem pressa, sem rumo e sem turismo, falando de livros, pessoas, sentimentos, relembrando nossas coisas. Formávamos, junto com a Érika e a Cláudia o que ele, Daniel, denominava o "Petit Group", que enchia de felicidade o velho argentino, acostumado a ficar recolhido em seu quarto, lendo e fumando sem parar. Nunca mais vimos Daniel, aquele velho pilantra, que me lembra muito um personagem do Lawrence Durrell, em "O Quarteto de Alexandria".

Escrevo essas notas soltas, entre uma cidade e outra do semi-árido alagoano, porque hoje me deu uma saudade imensa do meu velho amigo, que está morando em Brasília. Justamente hoje fiquei sabendo que ele finalmente abriu seu blog de poesias.

Então fui ler. E descobri que meu irmão virou um poeta.

Quero somente compartilhar com vocês:

www.razaopoesia.zip.net

4 comentários:

Simone disse...

Olá Sama,

essas pequenas lembranças é que fazem a vida ficar mais leve.

cadê o "Clamor"?

Um forte abraço.

Adri disse...

Vi vários exemplares do Estuário na livraria Modelo, ali pertinho da Cultura. Achei massa. Não comprei, claro. Beijo.

Anônimo disse...

amei seu amigo poeta. voce não me conhece sou mãe de uma ex-aluna sua e todos os dias estou no seu blog. se voce não existisse teria de ser fabricado. esse mundo é um ovo de codorna plagiando mariana mesquita:- daniela mota é chefe da minha nora.hahahahahahahaha
uma abração.

Gustavo disse...

obrigado sama.

G