quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Quase um bom-dia

Pelo mapa, são 35 quilômetros entre o Cabo de Santo Agostinho, onde vivo, e o centro do Recife. Para mim, no meu ponto de vista psicológico, são pelo menos 45, porque conto também o cansaço. Toda distância tem que levar em conta a carga de cansaço, principalmente se o camarada for usuário de transporte coletivo, como é meu caso, com raras gatunagens no Fiat da tia, um raçudo Uno vermelho, ano provável 1993.

Entre as duas cidades, há uma multidão sonolenta e cansada, aguardando de pé nas centenas de paradas de ônibus. É uma gente embrenhada nesta dura, ranhenta, obsessiva e obrigatória luta pela sobrevivência. Para estar no Recife às 7h33, por exemplo, é preciso estar às 6h em ponto no terminal do Cabo de Santo Agostinho. Não, amigos, não é nada saudável perder um lugar sentado nesta longa e maçante viagem, neste sol escandaloso das manhãs recifenses. Chega-se cêdo para conseguir um lugar ao sol, literalmente.

O motivo é simples, pelo menos no meu caso. Não há nada pior do que tentar ler algo de pé, em um ônibus lotado. Nessas longas jornadas, consigo um lugar sentado para ler algo delicioso, tomar notas, observar o povo, a paisagem etc. Como o Aquiles me alertou outro dia, em tom muito severo, que o sujeito pode descolar a retina, lendo dentro de ônibus, uso uma estratégia inovadora: leio uma página, olho a paisagem, o rosto das pessoas, sinto o cheiro do dia e só depois, quando sinto a retina voltando ao lugar, retomo. A bola da vez é "Justine", do meu amigo Lawrence Durrell.

A categoria dos motoristas de ônibus, a exemplo dos jornalistas, advogados, marceneiros, açougueiros e pais-de-santo, é estranha, complexa e desigual. Alguns começam o dia rindo e dão bom-dia até para as borboletas. Outros têm foto nas ventas e dão partida no veículo como se levassem uma carrada da Master Boi. Há os marcha-lenta, que não sei como escreve no plural, que são criticadíssimos pela população em geral, porque ninguém quer chegar atrasado ao trabalho. Andam bucolicamente, esses 35 quilômetros, enquanto os ponteiros do relógio voam. O expediente, no Recife, geralmente começa às 8h, não sei como está sendo no restante do Brasil, com esta confusão dos aeroportos.

As coisas ficariam mais fáceis se entre o Cabo e o Recife não existisse uma cidade que não acaba nunca, chamada Jaboatão dos Guararapes. Na entrada de Jabotão informam que "a pátria nasceu aqui", certamente por causa da "Batalha dos Guararapes", onde deram uns tapas nas orelhas dos holandeses, mas fica por isso mesmo. Se for confirmado cientificamente que a pátria nasceu em Jaboatão, eu atesto: eita pátria esculhambada!

Se você consegui atravessar Jaboatão, imediatamente se torna uma pessoa exausta e aliviada. Mas agradeça, que o pior já passou. Falta somente a Imbiribeira, uma avenida que lembra muito a Transamazônica. Existem 1.246 semáforos ao longo da Imbiribeira, todos no amarelo, caminhando para o vermelho, na sua vez de passar.

Para chegar ao centro do Recife, desça no Cais de Santa Rita. Ali, às margens do Capibaribe, alguns barcos vagabundos, recém-chegados de algum lugar que ainda tem peixe, abrem espaço para o comércio matinal do referido animal. São vendidas umas espécies que não reconheço nem de longe, nem de perto. A espécie é tratada ali mesmo, para o agrado matinal de nossas narinas.

Neste exato momento, às 7h23, todos os rostos ainda estão sonolentos. As moças com as camisas do "crédito consignado" já estão a caminho dos aposentados e pensionistas. Na Conde da Boa Vista, que atravessa o centro, vendedores enfadados aguardam, sentados, por alguém da loja que vai chegar com a chave. Esse alguém, por coincidência, é sempre o último a chegar. Enquanto isso, fuma-se e fala-se da loucura que foi o Natal, e especula-se sobre quem vai ser aproveitado para o quadro fixo. Ao lado, tem gente comendo cachorro-quente com carne de soja e suco a R$ 1,00.

Chego à avenida Agamenom Magalhães após pegar o Setúbal Conde da Boa Vista. Venho pegar restos de bagagem, antes da próxima viagem. Então, as coisas começam a se complicar. Na Agamenom, a criatura descobre que o Recife cresceu demais, que tem carro demais e outros muitos bocados demais que não levam a nada, pelo menos nestas minhas poucas linhas.

É preciso descer no Derby para ver ônibus de tudo que é cor, nome, jeito, velocidade. Perambulo um pouco, e chego à barraca do "Moreno" (aqui no Recife, todo negão é chamado de "Moreno"), onde bebo meu suquinho de maracujá, para acalmar os nervos. Chega um camarada e diz, animadíssimo:

" Fala, peixe!"

O negão, digo, o moreno, sorri e solta um muxôxo.

"Tu sabe que tu é meu peixe, né?"

O moreno-negão solta uma resposta comovente:

"Esse Dênys Oliveira tá é fodido".

4 comentários:

Márcia disse...

Às vezes, sinto como que uma saudade antecipada: vou sentir tanta falta dessa paisagem, desse cheiro desagradável de peixe do Cais, de ver essas redes sendo jogadas nas pontes, dos siris de papo pra cima e a menindada olhando curiosa... eu morro se deixar essa cidade...

Andreia Santos disse...

vc descreve tudo com tanta perfeição que fico imaginando as cenas. Sama, tudo de bom... saudades. beijos

Anônimo disse...

Suas crônicas são um presente, obrigado peixe!
eduardo

Gustavo disse...

criaste um novo gênero: o melaconlírismo...
bjs
Gustavo.