segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Quem levará flores para Pinochet?

Recebi o telefonema de Daniel Buarque, que foi meu aluno da Católica, sobreviveu bem ao trauma, e está agora no site da Globo, fazendo suas matérias. Me informou que o general Augusto Pinochet tinha finalmente morrido. Eu estava ocupado demais, desfazendo uma mala e arrumando outra, para seguir viagem. Ele queria uns contatos chilenos, porque entrevistei muita gente que lutou contra a ditadura do tirano de lá, mas como estou terminando uma mudança, todos os cadernos de pesquisa sobre o Chile estavam em alguma caixa. Foi mal, Daniel, na próxima ajudo.

Depois, o camarada Amaury me entrevistou, para saber o que eu achava da morte do ditador. Conversamos um bocado, e o filminho passou de novo em minha cabeça. Era o final de 1999, e cheguei a Santiago para um curso de uma semana num lugar espetacular, chamado Cajon del Maipo. Éramos uns 15 pesquisadores de toda a América Latina. No final das contas, passei mais de 45 dias perambulando, com minha mochila nas costas. Passei um final de ano em Chiu Chiu, um vilarejo com 250 habitantes, e o reveillon foi em meio a um ritual indígena que mexeu com tudo por dentro.

Um dia, fui visitar o túmulo de Salvador Allende, o presidente morto no Palácio La Moneda, naquele maldito 11 de setembro de 1973. É um túmulo enorme, uma grande homenagem do povo chileno, e sempre tem flores novas, gente fazendo alguma homenagem.

Saí caminhando no meu galope manso, até que cheguei a uma pequena tumba, uma daquelas gavetas minúsculas, que chamava atenção por ser mais colorida e ter muitas, mas muitas flores. Então me aproximei e vi o nome do morto: Victor Jara. Foi morto logo depois do golpe, no Estádio Nacional. Morto não, ele foi massacrado.

Fiquei sentado, fiz minhas orações e na cabeça, ele cantarolava "Te recuerdo amanda", "Cigarrito", entre tantas canções que fizeram parte da história do povo chileno. Lembrei das tantas pessoas que eu tinha entrevistado, para meus livros, e que tinham sido presas, logo após o golpe. Todos eram sobreviventes. Ali, bem perto, estava a lista dos desaparecidos, gravadas em uma enorme pedra. Uma pedra de lembrança, saudade e dor.

Poucos dias depois, acompanhei o comício do candidato socialista, Ricardo Lagos. Ele disputava com um tal Lavin, ligado ao grupo de Pinochet. Estava quase dando um empate técnico, e todos temiam a volta por cima da turma do general. Na alameda principal de Santiago, umas duzentas mil pessoas. Lá pelas tantas, a multidão começou a saltar. Todos cantavam:

"Y va saltar/y va saltar
y quién no salta/es Pinochet".

Uma maré humana começou a saltar. Crianças, velhos, grávidas. Quem não saltasse era Pinochet. Eu dei uns pinotes que vou dizer.

Ricardo Lagos ganhou a eleição. Estava em São Paulo, e liguei para uns amigos chilenos. Era uma festa completa no país. Era o fim de um ciclo.Numa tradução fajuta, a frase mais gritada por um dos amigos foi a seguinte:

"Mandamos o puto embora".

Após o telefonema de Daniel, a conversa com o jornalista, fiquei um bom tempo lembrando daquela tarde, escutando Victor Jara, no cemitério de Santiago.

Não sei quem vai colocar flores no túmulo de Pinochet, mas cá entre nós... coitadas das flores.

3 comentários:

Anônimo disse...

Gostei!
Grande abraço, Priscila

Anônimo disse...

é, a vida levou Pinochet. há uma alegria involuntária em meu peito cheio de tudo. mas muitos ainda precisam morrer para que de justiça se viva o povo.
sigamos...
adorei a crônica sama.
beijo no coração.
silvinha

Julio VIla Nova disse...

É, Samarone...desde ontem o mundo está menos desumano. Mas o infame foi-se embora sem pagar pelo que devia, as atrocidades todas. Como as mãos quebradas de Victor Jara na tortura, e depois a morte. Dizem que mesmo trucidado ele ainda conseguiu cantar, desafiado pelo seu carrasco fardado e cheio de divisas. Dizem que o corpo de Jara foi encontrado sem as mãos, como se isso pudesse acabar com sua música.