segunda-feira, 23 de abril de 2007

Carta ao amigo

Amigo, já não quero o auto-controle
de quem carrega rédeas de estimação
venho de um budismo cansado
de uma yoga incompleta
os olhos já não se impacientam
se envaidecem o tempo de um eclipse

Sei de alguns cabelos brancos
como os fios de minha ausência
o desejo expirado por uma cama
de campanha
onde o corpo se desdobra às cegas

Tentei de tudo para avançar centímetros
como um pelotão à espera da ordem de ataque
de um comandante já falecido

Bebi água salobra de corpos
que me encontraram indefeso

Minha porcelana é como a tua:
há dias em que me quebro
nas mãos de uma velha criada
e não sei juntar os pedaços
com meus ossos trêmulos e em farelos

Pouso meus olhos
em algum lugar fácil
e sinto a textura de uma estação abandonada
a Gare de Astapolvo do poeta perdido

Aqueço derrosta na algibeira
escuto sentenças como uma mãe
que recebe golfadas do filho ausente

Ali onde nasci já não existem palavras
mas um trem que admite minha presença
sem documentos, sem bagagens, sem ânsia de nada

Vou por aqui, amigo
levou tuas cartas como um abrigo
e termino a noite com um soluço
no intervalo entre dois vagões
onde está um moço que foge da guerra
e fuma seu cigarro antigo
no intervalo das batalhas por viver

Cabo de Santo Agostinho, 20 de abril de 2007

6 comentários:

Anônimo disse...

muitas belezas poeta mais querido... "sei de alguns cabelos brancos como os fios de minha ausência"/"o desejo expirado por uma cama de campanha"/"bebi água salobra de corpos que me encontraram indefeso"/"ali onde nasci já não existem palavras mas um trem que admite a minha presença". ai, ai. e o fim. socorro. "Vou por aqui, amigo Levo tuas cartas como um abrigo E termino a noite com um soluço No intervalo entre dois vagões Onde está um moço que foge da guerra E fuma o seu cigarro antigo No intervalo das batalhas por viver". fui também o amigo e o moço e a tua poesia hoje morou em mim.
un petit bisou pour toi

Mary disse...

Muito lindo!

Sirley disse...

Sama,
quando sai teu livro de poesias?
um abraço,

naire valadares disse...

Sama,
Você não me surpreende. Tudo o que faz é impregnado de sentimento,de delicadeza. Não seria diferente com a poesia. Quanto aos médicos, tive mais sorte do que a "tia", seria infinitamente pior se eu houvesse me deparado com essas estranhas criaturas de quem vc fala no texto "Onde estão os Médicos". Desejo melhoras à "tia" e mando dois beijos, um pra ela e outro pra vc, meu querido.
Naire

gustavo disse...

com toda a lindeza do mundo...

gustavo.

Anna disse...

A tristeza, a solidão, o abandono, tudo mesclado da mais pura beleza que só os poetas como você sabem contar. Senti vontade de oferecer meu colo de mãe para, fazendo cafunés, transmitir um acalanto que lhe desse um pouco de força. Se precisar, disponha.
Um cheiro de mãe.