domingo, 27 de janeiro de 2008

Gentilezas e desaforos

Esse negócio de não levar desaforo pra casa, ainda vai arruinar a humanidade. Isso tem me ocorrido no Rio de Janeiro, onde estou passando uma temporada. Do nada, há uma discussão, besteiras podem render respostas mal-educadas, e nunca vi tanta gente que trabalha atendendo, seja em boteco, farmácia, supermercado, exalar irritação.

Hoje mesmo, fui pagar um picolé da Maguary Kibom, dei vinte reais, a caixa me olhou como se eu estivesse pagando em peso cubano, moeda nacional, perguntou com uma cara de desdém se eu não tinha trocado, e tive a sensação de que era o que ela precisava, para ganhar a manhã: fazer uma cara irritada para alguém.

A mulher que estava guardando seus pães, numa sacola que levou de casa, ficou irritada com a moça do caixa, disse que era obrigação da padaria ter troco, então o pateta aqui ficou impressionado. Duas mulheres, numa bucólica manhã de domingo, irritadas por causa de uma besteira, que é um troco, de um singelo picolé.

Como minha única obrigação do domingo era mesmo comprar o picolé, o jornal, depois escrever meu livrinho sobre Cuba e encontrar uns amigos num boteco em Laranjeiras, fiquei olhando e cofiando a barba. Minha única preocupação era que o troco não demorasse tanto, porque o picolé iria descongelar, e as duas poderiam acabar numa delegacia, após a troca de sopapos.

Como gosto de remar contra a maré, estou fazendo o seguinte - tenho sido a criatura mais gentil desta cidade. Vou pagar algo no supermercado, dou uma boa tarde no capricho, pergunto se a pessoa está tudo bem, vejo o nome dela no crachá, e a chamo pelo nome. O resultado é simples - de tão acostumadas que estão com essas durezas da vida, de tratar mal e serem maltratadas, as criaturas deixam a casca cair, e ficam mais humanas de novo.

Ontem, no supermercado, uma mulher furou a fila sem perceber, foi perguntar algo e aproveitou para pedir uma mortadelazinha, e foi o suficiente para que a mulher da frente começasse a rosnar feio. Daqui a pouco, a vendedora entrou na história, então, já eram três pessoas irritadas, por causa de um mal entendido simples, que ser resolveria com a bucólica frase "querida, você não viu a fila?" . Peguei meu carrinho e fui para o setor de vinhos, procurar algo bom e barato, coisa que nunca acontece, no caso dos vinhos. Quando voltei, Rosnante ainda estava falando algo, e pensei - essa mulher acaba de ganhar o dia.

Como meu amigo Gustavo adora coisas como "exercícios de estética", estou fazendo este exercício estético diário. Vou sempre com a máxima gentileza, do primeiro ao último contato. Estou mesmo é exagerando, pra ver no que dá. A mulher que faz o meu mate batido com leite, aqui perto, na Voluntários da Pátria, era de uma dureza só, com a cara mais fechada que Seu Vital, quando está invocado. Outro dia, pedi para ela fazer outro mate, porque o que ela tinha feito estava delicioso. A mulher abriu um sorriso que já nem lembrava que tinha. Quando chego lá, prepara meu mate no capricho, abre um sorriso, e me pergunta se ficou bom. É a Sônia, mora em Bangu.

De vez em quando, chegou em casa com meu desaforozinho na algibeira. Alguém precisava desbafar as durezas da vida, me escolheu para não dar uma informação ou responder secamente uma pergunta simples, sobre um lugar para comprar um garrafão de água.

O engraçado é que um poeta famoso do Rio de Janeiro se chamava justamente Gentileza. Tem várias coisas dele escritas nas ruas, e até ímã de geladeira com as frases dele, são vendidos em livrarias.

Falta só as pessoas botarem o Gentileza delas pra fora.

14 comentários:

Samarone Lima disse...

muito louco, sama.
estava aqui no computador lendo, e chorando, claro, com seu livro cubano. Realidade dura, mercado negro, "arroz sem nada". Depois do livro, venho ler seu novo post no estuário. Me deparo com o mau-humor um tanto comum dos cariocas. Que contradição! Comprar um picolé num domingo e estar reclamando tanto da vida...
Há coisas que a gente só aprende mesmo com a experiência...
Quem dera seu livro de Cuba estivesse por aí, exposto nos muros do Rio, assim como as poesias de Gentileza.
abraços

Samarone Lima disse...

hiiiiiiiiiiii
a pessoa comentar com o login de samarone lima é fogo!
hahahaha
na verdade quem escreveu fui eu mesma, Joana, tá?

Sirley disse...

As gentilezas são assim... vem assim, como eu diria??? meio Samarore Lima...
As prévias aqui no Recife estão ótimas, estive na troça dos Barba, sábado.
Um grande abraço meu amigo,
Sirley

Esprestador disse...

Samarone, sou membro deste Bloco da Gentileza e também sinto o desarmar - quase dá pra ouvir o barulho da casca quebrando.
Uma delícia lê-lo. Voltarei mais vezes.
Cheguei até aqui através do blog de Fred Jordão: http://www.imagofotografia.com.br/blog_aberto.kmf?cod=6870619&total=6&canal=3&indice=0.

Abraços, cara!

Ane disse...

Samarone: eu leio o seu blog e depois passo para o da Flávia Ribas, que está em Guiné-Bissau, e acho que vocês têm maneiras parecidas de falar sobre esse mundo de meu Deus e das criaturas que transitam por ele. Se quiser conferir, aí vai:www.emguinebissau.blogspot.com
Beijo, Ane.

Anônimo disse...

Grande Sama! Fui nos barba sábado e lembrei demais de tu! Foi muito massa, até Dora, minha filha que está com dez meses curtiu até as oito da noite. Saudades. Um forte abraço!

Tiago Martins Rego

Daniel disse...

Cara...
É incrível como a gentileza opera milagres. Parece papo de auto-ajuda, né?! Mas, não é. Até porque odeio auto-ajuda. Hehehe...

Mas, a verdade é esta. As pessoas já saem de casa, para trabalhar, armadas contra a ignorância alheia. Na verdade, a ignorância é apenas uma maquiagem para o armamento do vizinho, pois quando o mínimo deslize ocorre, as pessoas danam-se a disparar impropérios.

O negócio é este: a educação tem de partir da gente e o sorriso do vizinhos nos satisfazer!

Abraços, Samarone.

Tiago Negreiros disse...

Quando eu estive no Rio, não senti muito isso não. A única coisa que me deixou irritado lá (hehehehe) é que eles não conhecem a própria cidade. Quando eu perguntava onde poderia pegar ônibus para tal lugar, as pessoas nunca sabiam! uma coisa incrível...

Fabi disse...

minha estratégia é como a sua. a caminho de nova york, um gringo sentou ao meu lado no avião e no meio do bate papo, aconselhou - em nova york, todo são rudes. não é nada contra você. sorria, sorria e sorria. é sua melhor arma." morei lá seis anos e segui o conselho à risca, até eu mesma me tornar tão nova yorkina que esqueci de sorrir. foi aí que voltei ao Brasil.

K2 disse...

Sama,

Veja nosso amigo Diazepam sendo coroado. Foi lindo.

http://www.youtube.com/watch?v=UzNVgKitTHQ

Anônimo disse...

Adorei esse texo...vivo "tentanto" fazer isso no dia-a-dia...adoro te ler.
Eiiiiii!!!!!!!!! qdo vc foi na livraria cultura não precisou se esforçar para ser bem atendido não, viu?
Um abraço. E o caranaval???
Vai passá-lo aí?

Flerte disse...

Meu caro, gostei do seu texto e, como morador do Rio, posso confirmar cotidianamente sua tese. Acontece, que, para o carioca, é quase como um traço cultural a questão do mau-humor. Não é por mal, mas é mais uma característica pessoal de ranzinzice que acabou sendo interiorizada pelas pessoas da cidade. Nos bares, os garçons mais rabugentos são adorados. Quando saem matérias de gastronomia nos jornais, às vezes, os críticos comentam que "tal lugar é impecável, com seus garçons e atendentes ríspidos como só no Rio de Janeiro", e eles não estão sendo irônicos. Claro, a gentileza é o melhor remédio.
Abraços,
André.

Flavia disse...

Samarone, bem que a Anelise me avisou. Eu me identifiquei com o seu texto na primeira linha. Passei uma temporada no Rio no ano passado e a minha definição dos cariocas é exatamente essa: eles não sabem levar desaforo pra casa!!! Morri de rir e adorei!

Um abraço, Flavia

Tricolor disse...

Do carnaval de Pernambuco a gente sente saudade até mesmo habitando por aqui nesta terra dos altos coqueiros. Que a quarta feira ingrata não chegue tão depressa. Por isso, livre-se Sama de todos os noticiários nacionais, eles irão delatar as mesmas, mas belas maravilhas desta farra denominada de “CARNAVAL”.

Alexandre Cavalcanti (o também tricolor)