quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

No Rio, com os passarinhos

Estou no Rio de Janeiro, escrevendo um livro sobre o cotidiano do povo cubano. A rotina é a mesma, desde que cheguei. Um caderno grande, canetas, e meus blocos de anotações da viagem. Todos os dias, durante algumas horas, escrevo em um boteco aqui perto, até cansar a mão. Há tempos não escrevo tanto, quase numa vertigem. As histórias que vivi durante um mês em Cuba, estão fresquinhas em minha memória, em meu coração. Estou numa espécie de retiro. Só faço escrever, revisar, passar para o computador. Já tenho 12 capítulos prontos.

Então aconteceu uma surpresa que chega a ser uma inundação. Meses atrás, uma ex-aluna e agora amiga, Andreza Maurício, me mandou um email dizendo que estava reunindo uns atores para adaptar o meu livro “Zé” (1998), para vídeo. Era apenas uma idéia, a de fazer algo criativo, para depois tentar algum apoio, essas coisas. Eu nem tinha idéia de como as coisas estavam caminhando.

Como estou hospedado na casa dela, em Botafogo, comecei a conhecer o projeto nos detalhes, o andamento do roteiro, primeiras filmagens. Ontem, foi acertado um encontro com todo o elenco, em um boteco aqui perto.

Aos poucos, começaram a chegar os atores. Andreza (vai interpretar a Madalena Prata) e Joana Aquino (diretora) foram comigo. Depois, Camila Moreira (Socorro, ou Grauninha), uma moça tão tímida que só pode ser mesmo uma grande atriz. Luís Otávio (Bala Doce), Saulo (Bahia), Calixto Neves (Quincas). Aos poucos, o elenco foi formando uma enorme mesa, todos felizes por conhecer o autor do livro que andam lendo e relendo, para montar personagens, ensaiar, enfim.

Finalmente, o Bruno Ferrari (Zé), Mariana Ribeiro (Fernanda), Adeildo Duarte (um coveiro, participação especial), e Ricardo Barrão (Fleury). Conversávamos em pequenos grupos, em meio à empolgação geral. Nunca vi tanta gente feliz por estar num trabalho ainda sem patrocínio, fazendo locações na base da raça, estudando sobre os personagens, fazendo grupo de estudo. Tudo isso fruto da vontade de levar uma idéia adiante, de transformá-la em algo concreto, em frutos.

Foi uma noite imensamente linda. Lá pelas tantas, chegou uma fotocópia do “Zé”, encadernada. Era o livro da Camila Moreira, que interpretará a Grauninha. Alguém brincou comigo, dizendo que eu era um dos poucos autores que assinava dedicatórias para um livro xerocado. Pois eu fico é feliz, porque livro no Brasil é muito caro, e o “Zé” esgotou faz tempo.

Longas conversas, explicações sobre como escrevi o livro, os personagens. Cada um tirava suas dúvidas, em meio às inevitáveis cervejas e petiscos, que ninguém é de ferro.

Lembrei que “Zé” foi lançado em 1998, teve imensos problemas de distribuição, e a sorte foi que consegui os últimos 40 exemplares. Em 2004, num aniversário da Andreza, dei um livro de presente, embrulhado delicadamente em um jornal, coisa que eu nem lembrava.

Quatro anos depois, estamos em um boteco do Rio, em meio a uma conspiração de jovens atores, para fazer uma adaptação para vídeo. Em outubro, querem botar “Zé” no palco.

Pelo brilho nos olhos de todos, sei que coisas lindas estão a caminho. Há, nessa turma,uma mistura de bondade e garra, um apego íntimo com cada personagem, como se fosse o papel mais importante da vida, o que cria uma força oculta na alma, uma energia vibrante e sutil. Sei poucas coisas da vida, mas tenho sempre uma intuição aguçada, para saber quando algo muito bonito está nascendo.

A Andreza diz que não tenho noção das coisas. Sei que sou um eterno distraído, que demoro a perceber o que acontece ao meu redor, mas às vezes vejo a beleza pulando de galho em galho, feito passarinho.

Diria que ontem, num boteco do Rio, eu estava acompanhado de uma legião de passarinhos.


Para Andreza, que pegou o “Zé” pelas mãos.

8 comentários:

Anônimo disse...

Q texto lindo!!!
Ainda mais falando da minha Prima, eu tinha que vir aqui comentar!
Vi o pessoal aí batalhando nesse projeto, e fiquei encantada com a dedicação de todos. Correr atrás de tudo, sem patrocínio nenhum...
Não tenho dúvidas de que vai ter um resultado maravilhoso!
Beijão,
Herika Mauricio.

coccinelle disse...

como leitora, amiga, cliente de bar, acompanhante de cerveja, rival de times de futebol e agora até "moradora do mesmo apt" em botafogo...
não deixo de ser sua admiradora, sama!
uma honra poder levar essa história à frente! e tê-lo por aqui só aguçou nossa vontade!
como digo sempre com melga e marcelo, em meio aos brindes, "viva ao zé!"

Deza disse...

O que dizer depois de tanta coisa linda? Esses dias contigo são presentes que ganhei.
Amigo, mestre, companheiro, ídolo...você é um em muitos. Obrigada pelas palavras, pelo carinho e, principalmente, por ter me apresentado a um dos personagens mais lindos que já conheci. Vida longa ao Zé! 2008 é o ano dele.
Bjão
Andreza Maurício

Amandinha Melo disse...

Sama, estava lendo outro dia o livro: "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras" é uma mistura de contos de Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, Chico Buarque,Antonio Maria, Nelson Rodrigues dentre outros.. Tudo bem que é um estilo diferente... mas ao terminar pensei: As cem melhores crônicas brasilerias são mesmo é de Samarone, pelo menos pra mim. Adoro ler sua coisinhas... São sempre cheias de verdade e inspiração. Parabéns.

Amanda.

Enid Flaviana disse...

Infelizmente estive ausente desse tão esperado encontro com nosso autor,pois estou em Belém/Pa.Mas de coração,estava conectada a toda essa energia descrita por você nesse encontro.
Só tenho a dizer,que através desse brilhante livro,ZÈ,conheci uma excelente MULHER e ADVOGADA...e agora minha mais importante personagem;MÉRCIA ALBUQUERQUE.
Meus amigos aqui na minha terrinha, dizem que conseguem vê paixão nos meus olhos,quando falo sobre ela.
E é dessa forma que quero mostrar essa MULHER no vídeo.
Um dia ainda vamos nos conhecer e quero conversar muito,sobre oq ta sendo na minha vida essa experiência.
Beijos

Julio Vila Nova disse...

Amanda, que não conheço: estou lendo o mesmo livro, há pouco me presenteado. Concordo. Falta ali "O sonho de um gordinho" ou aquela sobre o colecionador de epifanias, ou qualquer outra do velho Sama.
Camarada tricolor, santacruzense: fico na maior torcida (imensa como a do Santinha) pelo sucesso dessa galera, junto com você. Estive lendo "Os Sonhos Não envelhecem", de Márcio Borges,letrista da turma do Clube da Esquina, que conta em um capítulo seu contato com o próprio Zé e sua esposa, aí no Rio. Daqui, atrevidamente, mando uma sugestão para que essa turma boa inclua na trilha sonora do espetáculo uma música do Márcio, como Clube da Esquina nº2: "Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem/ em meio a tantos gases lacrimogêneos..."
Abraço.

Anônimo disse...

Samarone voçe me falou que estaria relançando ZE com prefacio de Abel. Como anda este projeto. Estamos ansiosos.

Dylan da Matta disse...

quem disse que passarinho não reencarna. essa galera deve ter
ido junto com Rubem Braga e agora resolveran voltar pra fazer o "Zé"