sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Relatos cubanos, capítulo 2 - A mochila perdida e o primeiro milagre em Havana



Vou logo avisando que sou péssimo com fotos em geral

Um nervoso e preocupado funcionário da Copa Airlines, com cara de camundongo e andar apressadíssimo, anotou meus dados e prometeu encontrar minha mochila.

Sem saber, foi o primeiro dos muitos golpes de sorte que tive em Cuba. Neste caso, quase um milagre. Camundongo avisou à mulher da aduana que iria comigo até o escritório da Copa, registrar o desaparecimento de minha mochila. Devo ter sido o único estrangeiro, este ano, que atravessou aquele mar de policiais, sem que sua bagagem fosse revistada. Quando cheguei à Copa, fui dar umas cutucadas em minha pequena mochila, e percebi que tinha cometido uma grande imprudência – fiz toda a viagem com um baita canivete, amoladíssimo, dentro da minha bolsa. Logo eu, com esta vasta cabeleira e a imensa barba...

“Fique aqui, que o buscarei, logo que aparecer sua bolsa”, prometeu Camundongo.

Esse cara pensa que sou besta, foi o que pensei. Os caras já pegaram tudo e fizeram o racha, isso sim.

Exatos 29 minutos depois, Camundongo chega agitado, dizendo que minha mochila foi encontrada, mas como estava muito pesada, acabou rasgando. Já levaram a metade, foi o que pensei.

Entrei de novo na área de desembarque, e deixei imprudentemente minhas outras duas mochilas do lado de fora, em um carrinho, para a turma da aduana não me perturbar. Foi também uma das muitas loucuras que cometi em Cuba, esse negócio de deixar duas mochilas de bobeira em um carrinho, no saguão do aeroporto, sem ninguém tomando conta.

Pois aconteceu o primeiro milagre. A mochila de fato estava rasgada, mas não faltava um sabonete sequer. Foi mesmo o peso.

“Senhor, confira tudo, mas não foi culpa nossa, a sua mochila estava tão pesada, que não agüentou”, explicou Camundongo, com sua indefectível prancheta. “Está tudo certo, senhor Samarone”.

Nessa hora, lembrei de César Maia, meu amigo recifense, que adora dizer, nas mais diversas situações, mesmo que tenha acabado de passar um furacão pelo Recife:

“Está tudo certo, Samarone, tudo certo”.

Camundongo/Cézar Maia, me levou de novo à Copa e me deu dois imensos sacos de plástico, onde coloquei tudo. Agradeci dando uma caneta Bic para ele. Agora só tinha 199 para dar de agrado ao povo, e depois vi que eles nem têm essa tara toda pela Bic.

Olhei para um lado, para o outro. Tinha acabado de passar por três aeroportos, enfrentado muitas horas de vôo, uma tensão imensa, e estava simplesmente em Havana, num país socialista. Se estivesse viajando com um amigo, daria um abraço, para comemorar, celebrar, festejar. Mas estava só, me restava fazer a troca do dinheiro, para comprar uma cerveja, depois pagar o táxi até Vedado, para encontrar meu contato cubano.

Começou minha luta para entender a economia cubana, que seria explicada somente no segundo dia de viagem: 50 euros se transformaram em 64 “pesos convertibles”, conhecido como CUC, ou popularmente como “fula” (esse negócio do dinheiro, em Cuba, merece um capítulo à parte, tenham paciência, é muita informação.)

Mamei uma “Bucannero”, cerveja fortíssima, sentado no chão do aeroporto, olhando minhas bagagens, que pareciam mais as compras da Cobal.

Procurei um táxi para me levar até meu contato, que depois me levaria ao centro de Havana. Queriam me cobrar 25,00 fula, mas como aprendi com minha mãe a pechinchar até em loja de R$ 1,99, pedi desconto, arenguei, disse que era estudante, que minha bolsa tinha se rasgado, fiz um drama com o cara. Baixaram para 20 mangos.

O taxista rendeu a primeira das dezenas de histórias, mas conto amanhã.

3 comentários:

Ivaniznho disse...

Sacanagem, Sama. Tá parecendo autor de novela, deixando tudo pros 'próximos capítulos'. Avia!!!

Fabi disse...

Ah, saudades de viagens que ainda não fiz. As pequenas sortes das idas e vindas são o que dá o tom da aventura! Escreva sempre que puder!!

James Russo disse...

Pois é, concordo com Ivan...unxi, se joga logo menino! unxi unxi unxi