terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Notas para um possível livro nada revolucionário sobre Cuba



Há muitos anos viajando pelo mundo, sonhava em conhecer Cuba. Mais que isso, conhecer Cuba enquanto Fidel Castro estivesse vivo. Acreditava que a morte do líder máximo do país poderia resultar em uma espécie de perestroika cubana, dissolvendo o socialismo que se mantém às duras penas. Um mês perambulando pelo país, conversas com todo tipo de gente, e revi a posição.

Em dezembro de 2007, Cuba chegou à minha vida como uma antiga amante, que tinha desencontrado em uma dessas esquinas descascadas. A viagem, que parecia distante, cheia de exigências de embaixada, o passaporte perdido, foi resolvida com alguns telefonemas e email, para pessoas que tinham passado pela ilha, e sabiam o caminho das pedras. Súbito, em uma caixa velha, o passaporte verdinho do Brasil reapareceu.

Viajei com uma mochila extra, cheia de mantimentos, porque os relatos eram duríssimos sobre produtos de higiene, comida etc. No primeiro dia, descobri que exagerara em algumas coisas, e deixara outras, importantíssimas, de lado. Não fiz nenhuma leitura prévia sobre a realidade do povo cubano. Não busquei livros, informações na Internet, revistas de esquerda, livros de turismo, coisas do tipo. Embarquei apenas com um número de telefone de uma amiga de um velho revolucionário brasileiro, que tinha feito seu curso de guerrilha, naqueles atribulados anos 60. Viajei a Cuba com três intenções: conhecer, escutar, escrever.

Fiquei hospedado inicialmente na casa de um casal homossexual, um pequeno apartamento no centro de Havana. Foi apenas o começo de um intenso e irreversível encontro com o povo cubano.

Vivi em diferentes bairros. Convivi com trabalhadores das mais diversas áreas. Conheci vagabundos, maltrapilhos, prostitutas, médicos, estudantes. Ocupei o primeiro andar pagando 20 dólares por dia. Poucos dias depois, estava na casa de uma mulher generosa, que na primeira vez que me viu, consultou os orixás, para saber se deveria me dar abrigo. Uma mulher que vive com extrema dificuldade, e que nunca me cobrou um dólar pelos muitos dias que fiquei com ela, pelas muitas dádivas que me ofereceu.

Caminhei dezenas, centenas de quilômetros pelas avenidas e vielas de Havana, nos horários os mais diversos, enfrentando os avisos de “é muito perigoso”, “ali só tem bandido”, pela simples aventura de ver o povo. Com minha sandália de couro, comprada no interior de Pernambuco, e uma sacola às costas com um caderno, livro e, de vez em quando uma máquina fotográfica, esquadrinhei, cheirei, arrisquei, me joguei no cotidiano dos cubanos.

Conheci o populacho, a gente comum, que o turismo olha de longe, em ônibus de luxo, com ar-condicionado e segurança, numa mistura de indiferença e soberba. Escutei inúmeras vezes o verbo “luchar”, para explicar uma surreal e penosa batalha pela sobrevivência, a luta pela comida, em primeiro lugar, a maior de todas, uma obsessão diária de milhões de cubanos.

Conversei muito, e escutei sempre mais. Nunca tomei notas do que me diziam os cubanos. Jamais usei gravador. Guardava na memória, e muito mais no coração, tudo o que me diziam as pessoas, em tom de conversa, desabafo, revolta ou desespero. Muitas vezes, palavras que poderiam custar a prisão, se chegassem aos ouvidos de alguém do estado cubano. Guardava e depois anotava tudo em meus cadernos.

Em nenhum momento agendei entrevistas. Não fui em busca das famosas “fontes” do jornalismo clássico. Apenas conheci, conversei, anotei. Estive em festas, paradas de ônibus, utilizei várias vezes o caótico sistema de transporte do país, fui para exposições de arte, tomei dezenas de “guarapo frio”, que é o caldo de cana, comi quase diariamente um “pan com minuta”, um sanduíche com um pedaço de peixe.
Sempre que pude, vi os programas de TV, e até decorei o final de cada reportagem, com os dizeres “sistema informativo de la televisión cubana”. Quase todos os dias, comprava a edição do jornal “Granma”, que é um dos únicos, e o oficial, do Partido Comunista, vendido principalmente pelos velhos. Muitos vendedores de jornal renderam longas conversas.

Sempre me apresentei como professor de literatura, meu último ofício, no Recife, antes de viajar. Dei meu tênis para uma mulher que tinha um filho preso, e passei apuros, com a sandália de couro, na frente fria que durou quatro dias. Escapei de uma tentativa de assalto, liderada por um garoto de uns 14 anos, acompanhado de outros cinco ou seis amigos, após uma partida de beisebol. Assisti três jogos de beisebol no estádio Latinoamericano, para entender um pouco a paixão dos cubanos por esse esporte, e a única coisa que entendi foi que vale um ponto quando o cara acerta em cheio a pelota. Almocei em casas, botecos, “paladares”, restaurantes universitários, viajei usando o nome de um uruguaio, jantei numa faculdade usando o nome de um amigo brasileiro, fui expulso de um alojamento de estudantes de Medicina, dividi a cama com uma gordinha carioca, meio depressiva, que mova no interior do país. Participei de uma sessão forte de Candomblé, recebi informações e orientações sobre minha vida, e aos poucos fui enchendo meus cadernos.

O que mais me impressionou, no entanto, foi o silêncio dos cubanos sobre a revolução e Fidel Castro, a possível morte. Com exceção da TV e do Granma, que citam Fidel diariamente, a população comum não está nem aí. “Amigo, com a gente passando fome, tendo que lutar todo dia para ter o que comer, quem vai estar preocupado com Fidel e a revolução?”, disse uma mulher que já foi do estado cubano, e que “daria a vida por Fidel”, quando era jovem. Com quase 60 anos, ela agora lamenta não ter percebido antes para onde caminhava a revolução.

A grande revolução do cubano, agora, é ter o que comer, vestir, sobreviver. Não importa se Fidel morra agora ou daqui a alguns meses. Raul Castro, seu irmão, já assumiu o poder, a revolução continua, queiram ou não queiram. Não haverá um colapso ou uma Perestroika, como aconteceu na Rússia, chegando ao leste europeu. A transição já foi feita. A morte de Fidel vai ser mais um fato histórico que político. De certa forma, Fidel e a revolução agonizam. Ele certamente morrerá primeiro.

Foi a viagem mais triste e intensa de minha vida.

Os textos que publicarei na sequência serão dolorosos, para os que sonhavam tanto com a revolução, mas o testemunho fiel da minha escuta, do meu olhar e do meu coração.

7 comentários:

Anônimo disse...

Há na voz de todos os que "luchan" um canto parecido em algumas notas, por isso, hoje, Violeta Parra, cravada de Chile, falará por mim, porque já disse o que quero agora compartilhar contigo.

Gracias A La Vida
(Violeta Parra)

Gracias a la vida, que me ha dado tanto/
Me dió dos luceros que cuando los abro/
Perfecto distingo lo negro del blanco/
Y en alto cielo su fondo estrellado/
Y en las multitudes el hombre que yo amo/
Gracias a la vida, que me ha dado tanto/
Me ha dado el oído, que en todo su ancho/
Traba noche y dia grillos y canarios/
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos/
Y la voz tan tierna de mi bien amado/
Gracias a la vida, que me ha dado tanto/
Me ha dado el sonido y el abecedario/
Con él las palabras que pienso y declaro/
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando/
La ruta del alma del que estoy amando/
Gracias a la vida,que me ha dado tanto/
Me ha dado la marcha de mis pies cansados/
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos/
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto/
Me dió el corazón que agita su marco/
Cuando miro el fruto del cerebro humano/
Cuando miro el bueno tan lejos del malo/
Cuando miro el fondo de tus ojos claros/
Gracias a la vida, que me ha dado tanto/
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto/
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto/
Y el canto de ustedes que es el mismo canto/
Y el canto de todos que es mi propio canto

Besos
Justine

maria disse...

tudo é tão maravilhoso quando es tu quem enxerga.

maria gabriela/Tuani tua aluna

sirley disse...

Que bom que retonasse... um grande abraço e aguardo os próximos escritos.

Anônimo disse...

Normalmente as pessoas amam Cuba, porém bastante distante. O regime é uma maravilha, mas eles preferem passar as férias em Miami. Comunistas brasileiros idolatram Fidel, mas andam de carro de luxo e compram tudo que o dinheiro "amaldiçoado" pode comprar. O povo cubano está pagando a conta do delirio de um grupo de privilegiado. Tomara que com a morte do ditador(espero que não demore muito) o país encontre o rumo que merece.

Estava sentindo falta dos seus textos. Espero que você tire o atraso.. :-)

Um forte abraço,

André Guerra

James Russo disse...

Concordo plenamente com André. Viver de ideologia não enche barriga não.

Anônimo disse...

Sama, cd vc? Liga pra mim. Abraço do mano PH

Anônimo disse...

Você é a primeira pessoa que vai a Cuba e volta com a lucidez que eu esperava de quem ia lá e procurasse ver as coisas imparcialmente. Mas os que conheço voltavam maravilhados com tudo e eu, decepcionada. O que se pode esperar de um país onde a internet é artigo de luxo? onde uma caneta bic é coisa rara? para mim, isto é bloqueio de informações e miséria, não apenas no sentido físico, mas no sentido humano: miséria humana.
Mas quero muito saber o que você viu de positivo e negativo nesta Ilha que entrou para a história com sua Revolução e seu Fidel. Parabéns, Samarone