segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Pequenas histórias de amor - volume II (ou: o moço da bicicleta verde)

Ela era casada, mas sempre que ele passava, geralmente de bicicleta, ela sentia aquela fagulha, ou aquela “coceirinha no coração”, como me disse outro dia um grande amigo. Olhava o rapaz, seu jeito de pedalar meio manso, como se estivesse saboreando cada sopro daquele vento. Achava lindo ele e aquela bicicleta verde. Ele, por sua vez, tinha reparado nela, mas sabia que era casada, tinha um filho, então seguia pedalando, pedalando, por outros caminhos.

O tempo passou, ela separou. Um dia, foi a uma mercearia, próximo da sua casa, encontrou um amigo. Tomaram uma cerveja, mataram saudades, até que o rapaz chegou, em sua bicicleta verde. Ela teve um susto, perdeu o rumo da conversa. O amigo conhecia o rapaz e a apresentou. Ele morava ali próximo, ela nem desconfiava, mas era quase seu vizinho.

Mas foi tudo rápido. Ele comprou um saco de bolachas e saiu pedalando. Ela guardou, deste dia, seu sorriso de corpo inteiro. Descobriu também que adorava as bolachas que ele comprara.

O tempo passou. Há alguns dias, ela me contou que o encontrou. Saiu de casa para comprar uma melancia, numa tarde de sábado. Quando passou pela venda, ele estava tomando uma cerveja com um amigo e a convidou para sentar. Ela, assustada, deixou a melancia para depois.

Foi uma conversa boa, cheia de sorrisos e pequenos esboços de luz. O bêbado que passou, falando de futebol, o dominó à sombra de uma grande árvore, cães mansos cochilando em plena tarde. Quando ela estava para sair, ele a convidou sem muito pudor.

“Vamos tomar a saideira lá em casa?”.

Ela foi. Sempre quis ir.

Sabe-se que se amaram a tarde inteira. Já era noitinha, quando ela cheirou os cabelos dele. Não, não cheirou, ela respirou profundamente os cabelos dele.

“Eu sempre quis cheirar teus cabelos”, disse.

Foi assim, tudo bem simples, como quem compra uma melancia, numa tarde de sábado.

10 comentários:

Adri disse...

Outra história de bicicleta pra eu me desmantelar, né, Samarone? Eita...

keila aquino disse...

Até que enfim...
Há meses que esperava pela 2ª parte! E ela chegou nessa linda segunda feira pela manhã...
Tão linda quanto essa história, tão linda quanto o amor (simples amor) que vc descreveu!
Beijos.

Gustavo disse...

Florence

Tenho por ti olhos largos,
tão largos quanto a vida
que te faz viver.

Tenho por ti coração imenso
tão grande quanto a vida
que me fazes viver.

Tenho por ti céu aberto
tão amplo quanto a vida
que me elevas ao ser.

Sei que todos os teus caminhos
conduzem ao labirinto,
que teus olhos são labirintos,
teus pés, labirintos também.

Mas não me importo.
Porque vejo nas tuas mãos
asas, e asas nos teus olhos,
e na tua imaginação.

Sonho contigo caminhos
infantis.
Acolho contigo ninhos
de perdiz.
Troco contigo beijinhos
feliz.

E em tudo, o que me ensinas
é a ser eu mesmo.

E em tudo, o que me ensinas
é a ser assim mesmo:

grande
alto
forte
bom
amor.

Em tudo me ensinas a ser teu.

Gustavo.

Andreia Santos disse...

Li no livro Estuário, o volume 1, que me causou uma emoção tremenda. Já estava pensando em te cobrar o 2. E hoje, ao entrar no blog, dou de cara com ele. Fantático! como sempre, vale a pena esperar.
cheiro

Andreia Santos disse...

Gustavo,
Também adoro o que vc escreve. Creio que vc e Sama, são os últimos românticos.
Abraços

fabiana disse...

Eita, Sama,
!Asombroso!
Bem,de mim mesma "no comment" mas lembrei-me do Caio Fernando Abreu:

"_E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
-Mas nao seria natural.
_Natural e as pessoas se encontrarem e se perderem"

saludo.

Mônica Vila Nova disse...

Que lindo!
E são coisas e acontecimentos assim, "bem simples", que fazem a vida ser tão saborosa...
Acho que tô ficando viciada no seu blog!!
Mônica

Maria Moura disse...

Sama,
que bom ler de novo essas histórias simples que tão bem sabes contar. Elas são como um raio de sol entrando pela fresta do telhado num final de tarde, naquele tom laranja que aquece o coração...
Ler suas histórias faz bem a alma.
Um beijo ala(bucano) pra ti.

Sonia disse...

A quem estiver sofrendo de amor recolhido aconselho depois desta sair para comprar melancia. Mais um dos seus causos gostosos de ler.

Anônimo disse...

Como andam os amantes do volume I?