quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Uma sombra de flor na parede

Recife, 13 de outubro de 2005.

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz. A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.

Mas tive a intenção de dizer, e isso ficou impresso em minha alma, foi um cordão umbilical que criei, e o desejo me levou tão próximo de ti e de mim, que os corações pareceram, naquele momento, siameses.

E me veio um sentimento de que viver é tanger improvisos, deslocar memórias, guardar talvez a lembrança dos cabelos ou da voz de quem quer que seja. É considerar as pessoas pelos olhos, com suas calmarias e vulcões, suas tempestades e silêncios. Mais que isso, é aceitar que somos catadores de pedaços de beleza, para caminhar com alguma leveza, sabe-se lá que dia.

Quantos hoje sairão de casa com seus punhais nas bocas? Quantos farão do trajeto com o filho para a escola um fardo irreversível, não um passeio amoroso, deixando de mostrar os poemas que se aninham nas garatujas das velhas fachadas? Ah, me dirão, é que não és pai, mas eu direi que fui filho pequeno, e ficou na memória fatigada a punição por ter visto (e anunciado) um elefante azul numa árvore. Data desta época, a primeira poda na árvore da fantasia, mas a planta cresceu, por outros desvãos, e sinto que há poemas nas garatujas das velhas fachadas, há outros elefantes ainda mais coloridos do que o azul da minha infância.

Ah, eu sinto mesmo é que não sei de quase nada. Hoje, menos que ontem. Menos que um, como o título de um livro amado. Parece que estou me esvaziando de todos os conceitos, descolorindo uma tela que vinha sendo pintada com os mesmos tons, o mesmo pincel, no mesmo cavalete. Aos poucos, vou construindo uma tela silenciosa, à espera de sons e luzes, para reinventar as cores.

Vou deixando de procurar a obra acabada, o momento perfeito, “aquele” momento, onde os céus e a terra se entrelaçam, que alguns nomeiam felicidade. Aceito a fatalidade de cada dia, bem como a doçura de cada pupila, o calor de mãos que se entrelaçam como plantas que querem viver junto ao muro da vida. Talvez porque eu goste tanto de chimarrão, a cada manhã, o amargo da vida já não se entranhe tanto em meus ossos.

E lembro de minha mãe, que há muitos anos assinou a separação, depois de 23 anos casada, e saiu do Fórum sozinha, talvez se sentindo nua diante da vida, uma Macabéia solitária, com uma flor nos cabelos. Não chorou, não rangeu por dentro, como tábuas velhas e feridas. Foi às Lojas Americanas, olhar para as pessoas, porque tinha a sensação de que passara vinte anos sem olhar rostos alheios.

É talvez por isso que eu acredite tanto no mistério da vida: há pessoas que às vezes me dão a impressão de estarem paradas, no meio das Lojas Americanas, olhando os rostos alheios, talvez buscando o próprio rosto, um semblante, o seu lugar no mundo. E são tantas as macabéias a passar por nossas vidas...

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz.

A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.


Para Paulinha, pois.

7 comentários:

Anônimo disse...

Agora já dá pra mudar o teu "about me" e incluir o "Estuário".
Ainda não adquiri o meu exemplar mas farei isso assim que tiver disponível em seu Vital.
E fica aqui uma sugestão, bem que vc podia fazer uma noite, ou manhã ou tarde ou até mesmo dia de autógrafos lá mesmo em Vital, seria quase filme. Era sentar, ler e ver, sem ter que imaginar.
Parabéns e sucesso.
Cláudia Araújo
claudia-araujo2@uol.com.br

Gustavo disse...

Antes, parabéns pela crônica de hoje, 13, linda, como sempre.

Depois, parabéns pelo lançamento do livro, certamente, lindo. Aguardo o meu cá na Capital.

Depois, obrigado pela dica do Adolfo Montejo Navas. Já estou cá com o meu a lambê-lo, incrivelmente, um Porchia, um de nós, pois pois...

Agora, crie vergonha e publique nesta gráfica rápida ou cá comigo alguns de seus poemas de amor, seu filho de dona Ermira...

vá se poemar assim
lá nas quintas das panelas!!!

keila aquino disse...

Samrone... parabéns pelo sucesso de seu livro!
Qdo tiver disponível a 2ª edição nos comunique,ok?

Mais uma vez seu texto parece traduzir a alma de um poeta apaixonado... pela vida e algo mais!
Simplesmente lindo!
Ele só fez aumentar minha admiração por vc!
Beijo no seu coração!

Geórgia Araújo disse...

Eita, que essa foi demais...

Felipe Melo disse...

Estimado Samarone,

Te conheço de vista, quiçá um "oi" quando algumas vezes te encontrei no Garrafus, Colosso, Poço... Tenho essa virtude de ser tricolor. Um vez comprei uma camisa Dos Barba há alguns anos num aniversário de Renata lá no poço. Creio que foi o primeiro ano dos Barba. E como há anos sou adepto desse adorno peludo... me identifiquei.
Bom, queria te parabenizar pelo livro, que não comprei porque agora estou morando no México (estudando meu doutorado) com minha esposa que agora está gerando mais um trocolor pra dar esperança ao mundo. Segundo, sou leitor assíduo do teu blog e do blog do santinha. Gosto muito dos teus textos, me fazem sentir um pouco mais perto do Recife e do Santa Cruz. Sem mais frescuras, parabéns pelo livro e continue escrevendo na internet para que os que estão distantes do Recife possam sofrer ainda mais de saudades.

Saludos Cordiales

Felipe
vulgo - Camarão

JoanaGR disse...

Lindo, lindo...

Adri disse...

Dumbo na copa da árvore, Poetinha? E essa predominância de azul, que fosforesce???
Cheiro, Moço Celeste.