segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Sobre pássaros e eternidades

Cada dia com sua lição, já diz o velho sábio chinês que não lembro o nome, mas nem é preciso – sábio chinês sempre cai bem com essas frases.

Domingo de manhã. Aquele solzão lá fora, tenho que ir à Enseada dos Corais, quase em Gaibu, para um encontro com a mãe, antes da viagem dela para Fortaleza. Cansado dos últimos dias de autor-de-livro, dono-de-bar e consultor-do-Unicef, me dou ao luxo de acertar uma viagem de táxi mesmo. Lamento informar, mas não mereço três ônibus num domingo de sol, depois da semana que tive. O motorista é Ricardo, filho de Seu Vital.

O apelido de Ricardo, entre nosotros, é “Limão”, porque é difícil ele chegar sorrindo. É bi-campeão do nosso “Troféu Limão”, um prêmio que oferecemos durante o amigo secreto do final de ano de nossa turma. Lá pelas tantas, faço uma pergunta simples, modesta, para começar a conversa:

“Ricardo, por que Seu Vital tem tanta raiva dos pardais?”

É que outro dia, escutei Seu Vital esculhambar a raça dos pardais, um pássaro que ele considera “um pássaro assassino”.

Então Ricardo começou a falar de um assunto que parece ser o predileto: passarinho. Segundo ele, o Pardal veio com a imigração, possivelmente nos navios, e desde a sua chegada ao Brasil, já eliminou pássaros como o Canário da Terra, Caboclinho, Chorão, entre outros. Se o pássaro for pequeno, ou do tamanho dele, pode ir cavando a cova. Além de matar a bicadas mesmo (sempre atuando em bando de 20 ou 30), o Pardal faz algo barra pesada: vai ao ninho e bica os ovos dos outros pássaros. Isso é que é uma ruindade, deus do céu...

“O cara tem que correr, senão morre”, informou Ricardo.

Fiquei sabendo que aqui no Poço da Panela, onde moro, tinha muito mais Canário. “Na Praça de Casa Forte, chega dava uma alegria”, lembrou Ricardo.

Minha aula sobre os pardais passou pela alimentação, moradia e reprodução. É um pássaro "de cor acinzentada, mariscada com uma parte branca em cima da asa". O macho tem "uma faixa amarelada, puxando para o avermelhado na cabeça". Come de tudo (pão , inseto, resto de comida etc), enquanto outros pássaros são mais delicados na alimentação. Faz ninho em qualquer lugar, até nas telhas. O Sabiá, coitado, só se acasala nas mangueiras, e nos mesmos lugares. "Digo isso porque já observei muito", diz o professor. Então vai a minha sugestão para a mudança no verso famoso:

"Minha terra tem mangueiras/Onde canta o Sabiá".

Além disso, o Pardal faz a cobertura em várias fêmeas ao mesmo tempo. “Eu já observei isso também”, informa. Não entendi. Então tem pássaro que só ama uma criatura a vida inteira, que é incapaz de ser infiel, mesmo nas alturas, entre um vôo e outro?

Ricardo confirmou. “Tem pássaro que vive 20, 30, 40 anos com o mesmo casal”.

Olhou para mim e confirmou, com um sorriso:

“A mesma mulher, a vida toda, e são fiéis um ao outro, a vida inteira”.

Caramba, a essa altura eu não resisti. Puxei meu bloquinho, porque sou muito esquecido, e a lição dos pássaros estava fabulosa. O amor de certos pássaros, a vida inteira, é mesmo de emocionar. Eu não sabia também que passarinho vive tanto. Segundo Ricardo, um louro raçudo como Dudu, por exemplo, pode chegar a 60 anos. Um passarinho pode chegar aos 80, com a vantagem de nunca precisar ir para as filas do INSS. Fiquei sabendo que Dudu, aqui de Vital, tem uns 7 anos, e que provavelmente veio do Crato, no Ceará, que é a mesma cidade onde nasci. Então está tudo explicado.

Mas voltemos aos pardais, porque eu já estou puto com este pássaro febrento, capaz de sair matando os outros assim, sem mais nem menos. Ricardo disse que o bicho é resistente, predador e rebela-se contra a invenção das gaiolas. Uma vez, ele prendeu um Pardal por engano. À noite, quando foi olhar a gaiola, o bicho estava morto. Se debatera com fúria até o óbito.

“Se não fosse ele, teríamos muitos pássaros de canto exótico”, lembrou Ricardo.

Fiquei sabendo que o Rouxinol resistiu porque é guerreiro, apesar de ser pequeno, e fiquei profundamente feliz em saber que tem pássaro que canta como uma patativa, mas resiste ao predador. O Sabiá (branco) e o Sabiá Conga (do peito vermelho) sobreviveram, bem como o Bem-Te-Vi e o “Lavadeira”, que é branco e preto e parece “a vestuária de Jesus Cristo” (essa parte eu não entendi, mas tudo bem).

No Poço da Panela, ainda temos o canto do Bico-de-Lata. “Ele é pequeno, com o bico curto e amarelado, tem um carto bem curto, mas é gostoso de escutar”, informa Ricardo. “É acinzentado, meio prateado, do tamanho de um Curió”.

Informo que um Curió mede três polegadas, e pode dar oito repetições no canto. A repetição, explica Ricardo, são oito cantos iguais, e eu devia ter evitado esta pergunta, porque repetição é repetição, ora bolas. Fico sabendo que tem Curió que chega a valer R$ 100 mil, e que Rivelino, o craque da Seleção de 70, é o maior criador de curiós do Brasil. “Ele já saiu até no Globo Rural”.

Descubro que o passarinho que está na gaiola em Vital é um Curió, e que outro dia ele rejeitou R$ 500,00 naquele animalzinho de três polegadas. Já ofereceram R$ 500,00 por Dudu, mas pela graça divina, a proposta indecente foi recusada.

“Ele faz parte do cenário e é membro da família”, explica Ricardo. Concordo imediatamente, e já nem sei por que chamam Ricardo de "Limão", se o sujeito gosta tanto de passarinho. Fiquei sabendo que Vital chorou muito, quando morreu um Sabiá que era muito querido. “Era um membro da família. A gente abria a porta, ela olhava, mas não saía”, lembra Ricardo.

Então vem a parte mais do caralho. Ricardo começou a explicar que o amor aos pássaros tem uma relação com o povo.

“Isso tem a ver com a cultura de um povo. Para acabar com ela, tem que acabar com a pessoa e o filho dele, que também tem a cultura dele. Isso vem de muito tempo. Só se matasse toda a população”.

Ao final da viagem, ele me saiu com esta reflexão:

“Você nunca é o dono do animal. Ele é que é seu dono”.

A conversa foi longa como a viagem, mas foi a mais rápida das muitas que fiz com Ricardo. Ele me informou que muita gente que cria passarinho em gaiola está ajudando a salvar a espécie. Ele mesmo conhece um senhor que cria Curió, e “tira” em casa (consegue que o animal se reproduza em cativeiro).

“Essas pessoas não são biólogos nem veterinários, mas têm o conhecimento. A gente tem o tempo de vida e o conhecimento. É a vivência dos dias e dos anos, às vezes uma eternidade”.

Às vezes uma eternidade, Ricardo, assim é demais.

Só me resta encerrar com o Adolfo Montejo Navas:

"O tempo é mais rápido do que as coisas, porém mais lento do que a vida".

11 comentários:

Anônimo disse...

muito bom. Realmente, um cara desse nao pode ser chamado de limão. Qual é o numero dele? Soh vou pegar tx com ele. bjs, eugenia.

monica crisostomo disse...

Eu nem gosto muitooooo de animais.. acho lindo, mas desde que estejam a uma distância, digamos, regulamentar, mas acho que estou começando a ver os tais passarinhos com olhos mais amenos. Não é porque seja uma pessoa malvada (hahahaha) isso não sou mesmo. Mas é que minhas experiências com animais, especialmente durante a infância, não foram lá muito agradáveis. Mas não gosto de ver bicho em gaiola... até que me provem ao contrário, eles ficam tristes.
beijos

Mariana disse...

Sama,
Conheço o bico-de-LACRE, será o mesmo passarinho? Tem o biquinho vermelho, é lindo! Minha mãe criou um no dedo: caiu do ninho, pelado, e foi alimentado até voar. Criado solto, invocado que só ele. Morreu engasgado, comia como uma praga, e a véia chorou mais de uma semana por causa dele. Saudade...

Mariana disse...

E como dizia minha vó... pegue um Limão, faça uma Limonada...
;.)
Acho linda a capacidade que vc tem de extrair o melhor das pessoas.

Gustavo disse...

sama

se puder não mande o livro para o endereço velho, é que estou me mudando, vou movar melhor, aluguei, estou alugando uma casinha nas montanhas. Se quiser, pode mandar para QNG 38 CASA 20, Taguatinga Norte - Brasília - DF
Cep. 72.130-380.

Tchau, pássaro azul.

Anônimo disse...

Estimado Samarone,
Quem dera que o Pardal fosse a causa da extinção urbana de muitas aves canoras nativas. Seria fácil controlar. A verdadeira causa da extinção de muitas aves canoras foi mesmo a devastação da Mata Atlântica. O Poço tá muito pertinho de Dois Irmãos e é muito arborizado, fato que contribui muito para que ainda se veja Canários da Terra, já bastante escassos lá no meu querido Engenho do Meio.

Boa Crônica!

Anônimo disse...

\\\\\\

Anônimo disse...

Belíssima crônica!!!
Quase todas as manhãs vem um pequeno passarinho aqui na minha varanda (parecido com um bem-te-vi)... O seu cantar significa pra mim: Bom dia!
Beijos,
Carolina

Anônimo disse...

Sama, Soube q no ultimo jogo do nosso santinha vc esteve la tirando um forrozinho nas arquibancadas!! rs. Eu tb estava la, mas, pena,não vi vc! bjs.

Jamille disse...

ah, o comentario acima foi meu! rs.

Ivana de Souza disse...

Pois eu, até ler isso aqui, olhava atrevessado pra quem tem pássaros em gaiolas.