quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Cada pessoa é seu próprio rio

Foi ontem de manhã, a caminho do trabalho, no Alto Santa Isabel. Ali no Derby, perto do Hospital da Restauração, subiu o rapaz, de uns 25 anos. Negro, com um boné, sorriso farto. Levava uma caixa cheia de canetas. Foi lá para a frente do ônibus, dizendo bom dia a todos com uma alegria inesperada. O camarada acordou o ônibus inteiro. Todos os pensamentos vagos, todos os problemas que estávamos alimentando, foram desviados para ele, o vendedor de canetas.

Ele começou a falar, e me chamou a atenção pela educação. Chamou todos de senhoras e senhores (a tal questão de gênero), pediu licença para mostrar seu produto (um vendedor de verdade), disse que iria tomar somente alguns segundos da atenção de cada um (o cuidado para não encher os outros com muita conversa). Educadíssimo, falava um português gramaticalmente perfeito, fora a articulação das palavras e a fluidez no discurso.

Fiquei preocupado, porque estava quase na hora de descer, e já não me interessava a caneta, mas o ser humano que estava ali. Queria saber onde tinha nascido, onde vivia, como teve a idéia de vender canetas de três cores, andando pelos ônibus do Recife, se tinha família, se tinha filhos, por qual time torcia, onde tinha estudado.

Mas eu tinha que seguir minha vida, ele tinha seu ofício para ganhar o dia. Só deu tempo comprar uma caneta, que me custou R$ 1,00. Estou aqui, com ela. São três cores, uma para cada estado espiritual em que me encontro.
**

Jorge, meu vizinho que é escultor, de vez em quando me chama para almoçar em sua casa, um casarão aqui no Poço. São sempre almoços calmos, sem pressa, arroz integral, salada, legumes, um peixinho etc. Ele manda brasa na birita, fuma um bocado, mas quando almoça, se alimenta bem.

Outro dia, preparei um rango e chamei meu amigo. Ele veio com Machado de Assis debaixo do braço. Nunca li Machado de Assis nem Eça de Queiróz, que parecem ser gigantes. Mas não me preocupo com isso. Então ele leu o seguinte trecho de "Esaú e Jacó":

"O tempo é um tecido invisivel em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo".

Ele me olhou com os olhos brilhado e completou:

"Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo e acaso do outro".

Nem precisamos sobremesa
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Lucidélia vai se recuperando bem do câncer, estou conseguindo finalmente vender o bar, fui informado ontem à noite que estamos na primavera. Acabou o meu dinheiro, a viagem para Cuba vai ficar para outro tempo, mas estou com aquele estranho e bom sentimento de que a vida está seguindo seu fluxo natural, que cada pessoa é o seu próprio rio.

O meu rio segue graças a essas pérolas que aparecem no cotidiano, essas "ráfagas de felicidade", como diz o chileno Hernán Rivera Letelier. O vendedor de canetas com seu sorriso, o almoço com Jorge, Machado de Assis na sobremesa, a primavera que eu não sabia, o rio que existe em mim, que me banho sempre, e que às vezes fica seco, um fiapo de água, mas depois enche novamente e transborda.

Essas coisas sem objetividade alguma, que tanto me interessam.

11 comentários:

Andreia Santos disse...

O título é todo seu Sama: OBSERVADOR DAS COISAS MIÚDAS (simples e importantes) DO COTIDIANO. Isso (entre outras coisas) torna você essa figura maravilhosa. bjão

Andreia Santos disse...

Ah! ia esquecendo, obrigada por lembrar que "cada pessoa é seu próprio rio". Preciso lembrar disso mais vezes.

Ivanzinho disse...

O cara das canetas, infelizmente, era tricolor. Outrossim, não venderia o produto de três cores...

Gustavo disse...

Saudades de mim
(para o vendedor de canetas)

Nos pedaços mais rasos das alturas
nos cascalhos mais duros do caminho
nos gritos rasgados das agruras
nos desertos incertos do nosso ninho
os unguentos a esfriar queimaduras
os tormentos mais tristes tristinhos
os movimentos sós de um sozinho

nós nos encontros sem ti
nós nos encontros semim
nós nos encontros assim,
a sós.

Anônimo disse...

Querido Samarone,

Suas crônicas revela esse interesse pelas coisas sem objetividade. Penso mesmo que seu interesse é pelo outro, se importar com o outro é sempre uma grande exercicio de humanidade e vc o faz com a naturalidade que lhe é inerente e com a sua alma de poeta.
Sou eternamente grata aqueles que transformam as coisas sem objetividade em esperança e sorriso.
Obrigada.
Abraços,
Eu

Kátia Rejane disse...

É isso ai Samarone. Cada dia me encanto mais com você. Meu Poeta preferido. Beijos.

Joaquim disse...

Você não saber a importância das suas crônicas na minha vida. Passei por uns momentos de "melancolia e tristeza infinita" mas graças a diversos fatores eu to vivo, e cada vez sinto mais isso e mim. E posso, com toda certeza incluir você e meu amigo F.Pessoa nessa lista de fatores. Ah, só queria dizer que acompanho seu trabalho desde o JC. Fui pra uma palestra sua com Ivan(Também acho um jornalista/cronista arretado!) na bienal e amei. E sempre que ficar triste pense no bem que você faz pras pessoas e quão você é importante até pra pessoas que você nunca viu. Obrigado pelas crônicas de cada dia Samarone!!! Abração

Gustavo disse...

Samarone, esse Joaquim aí merece olhos doces, delicados, como doces são os frutos das estações.

Joaquim, teu reino são as grartidões!!!

Nem te conheço mas te confio

um abraço

Gustavo.

Anna disse...

Sama, meu filho! Faz tempo que não lhe falo, nem mando aquele beijo de mãe. Sinto falta do estuário, mas o tempo anda muito curto e isso me impede de colher " os delicados e doces frutos das estações" que você nos oferece com a emoção dos poetas, sem pedir nada em troca. Quanta maravilha você distribui através dessa página... Que Deus o abençoe.

Carlos Besen disse...

escreves lindamente, com uma comoção despretensiosa.

tua subjetividade me espanta.

aquele abraço estrangeiro

monica crisostomo disse...

O vendedor das canetas deve mesmo ser alguém especial. Especial porque é único. Único como você e como tantos outros seres únicos que fazem a vida coletiva tãomais atraente e delicada. Gosto tanto de passear pelo estuário...deste rio. beijos
Moniquinha