segunda-feira, 21 de novembro de 2005

"O desconhecido é nosso bem" - parte final da entrevista com o poeta Rainer Maria Rilke

Somente ao entardecer desta segunda-feira (e me parece que o entardecer é um ótimo horário para encontrar poetas), reencontrei o meu querido Rainer Maria Rilke, no mesmo lugar da conversa anterior - ali num box do mercado de Casa Amarela.

Ele me pareceu ainda mais cansado do que no dia anterior. Seu semblante me passou uma impressão contraditória. Por mais que visse tristeza em seus olhos, exalava de sua alma uma certeza de que a vida estava em sua forma mais inteira, como se ele soubesse arrancar pontos de luz em sua escuridão mais profunda. Seu rosto transmitia uma bondade generosa, uma tranqüilidade que fazia da pressa, qualquer pressa, quase um desregramento dos sentidos.

Estava em silêncio, quando cheguei e o saudei. Usava um terno simples, puido, com aquele elegância sóbria que se reflete em seus poemas. Ele abriu um sorriso tímido, ofereceu-me a cadeira e fechou seu caderno, em sinal de respeito. Eu, por outro lado, abri meu caderno, também em sinal de respeito. Não poderia conversar com ele, talvez pela última vez, sem tomar notas para compartilhar com os meus leitores. Foi assim nossa última conversa.

Eu: Perdão pela intromissão, mas há algo de triste em teu semblante...
Rilke: Verias também a tristeza como algo negativo para a alma?

Eu: Não. Trata-se apenas de um comentário.
Rilke: Quase todas as nossas tristezas são, acredito, estados de tensão que experimentamos como que tolhidos, assustados por já não nos sentirmos viver. Pelejamos como se lutássemos com uma corrente de que tivéssemos de suportar as ondas. A tristeza também é uma onda. O desconhecido uniu-se a nós, penetrou no âmago do nosso coração, e já nem sequer está no nosso sangue, pois se mesclou com o nosso sangue e assim ignoramos o que se passou.

Eu: E como enfrentá-la?
Rilke: Quanto mais silenciosos, pacientes e recolhidos formos nas nossas melancolias, de forma mais eficaz o desconhecido penetrará em nós. O desconhecido é o nosso bem. Metamorfoseia-se na carne do nosso destino, ligando-nos a este quando foge de nós para se realizar, isto é, para se projetar no cosmo. E é preciso que assim seja. É preciso – e é nisto que consiste a nossa evolução – que jamais encontraremos nada que não nos pertença há muito tempo.

(Ele abriu o caderno, buscou entres as folhas algum poema e começou a recitar, de forma muito mansa, quase num sussurro)

“As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
Cai de entres os astros na amplidão vazia.
Caímos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
Todas as coisas que vão caindo”.

Eu: E para quem quer escrever, como eu, quem peleja com a escrita, o que o senhor sugere?
Rilke: Uso uma velha expressão que cunhei há muitos anos – “Levar a termo e dar à luz” – eis tudo. É necessário deixar cada impressão, cada germe de sentimento, amadurecer em si, na treva, no inexprimível, no inconsciente – essas regiões herméticas ao entendimento. Espere com humildade e paciência a alvorada de uma nova luz.

Eu: O tempo, neste caso, se conta de outra forma...
Rilke: O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Ele me olhou com atenção e falou quase como quem recita um mantra:

Aprendo todos os dias, à custa de sofrimentos que abençôo: a paciência é tudo.

Eu: Que conselhos terias a mais para quem segue pela vida, em busca de encontros mais profundos com a humanidade?
Rilke: Alegre-se da sua marcha em frente: ninguém poderá acompanhá-lo. Seja bom para os que ficarem atrás, senhor de si e tranqüilo perante eles. Não os atormente com suas dúvidas; não os assuste com a sua crença, com o seu entusiasmo, porque não poderiam entende-lo. Procure comungar com eles na simplicidade e na fidelidade: esta comunhão que não tem necessariamente de passar pelas mesmas metamorfoses por que passa a sua alma. Seja tolerante para aqueles a quem a idade faz temer essa solidão a que se abandona. Evite alimentar o drama sempre pendente entre pais e filhos, esse drama que exaure a força dos filhos e cansa o amor dos velhos, que não precisa de compreender para agir e para esquecer. Não lhes peça conselho. Renuncie a que o compreendam. Acredite somente nesse amor que lhe pertence como um bem de raiz. Tenha a convicção de que há nesse amor uma força, uma bênção que podem segui-lo tão longe quanto seus passos o levarem.

(Eu já não tinha mais condição alguma de comentar nada, diante daquela jorro de palavras e belezas, ditas de uma forma tão calma, quase como se estivessem tatuadas em sua alma. Ele me olhou, já como que se despede, e completou):

Quanto ao resto, tenha confiança na vida. Creia, a vida tem sempre razão.

Depois, segui-se um longo silêncio. A tardinha começava a migrar para a noite, em Casa Amarela. Ele bebeu o que restava do seu conhaque, pegou no meu braço direito e disse, como uma profecia:

“Seja alegre e tenha fé”.

E então partiu, com seu passo silencioso, e o vento da tarde assanhou levemente seus cabelos e espalhou folhas na calçada. Então percebi, ali, que nunca mais encontraria o senhor Rainer Maria Rilke em Casa Amarela. Então peguei o pequeno livro dele, "Cartas a um Jovem Poeta", e comecei a ler novamente, e me pareceu que tudo o que ele tinha dito, estava no livro. Então fiquei na dúvida se tivemos ou não este encontro, se foi apenas um sonho imenso e muito real, se tudo não passou da minha imaginação.

Voltei para casa sem querer definir isso claramente, e a frase ficou reverberando aqui comigo:

"O desconhecido é nosso bem".

8 comentários:

Kátia rejane disse...

Samore, somente um poeta, como tu o és, poderia compreender o entendimento de vida de um outro poeta.
Mais uma vez te rendo homenagens... Beijos...

fabiana disse...

tu es unico.

fabiana disse...

gracias.
merci.
thanks.
um cheiro.

Ana disse...

Sama, querido. Eu te entrevistei aquele dia sobre atividade jornalística e censura e veja o que aconteceu comigo: www.aostraeovento.blogspot.com

Anônimo disse...

Sama, será possível que tu tens que ficar cada dia melhor? O jeito é te visitar em janeiro mesmo. Vou buscar inspiração para a minha escrita aqui em minas. PH

Nine disse...

parabéns. estou emocionada.

Renilde Fraga disse...

Samarone

Depois que li este seu texto passei a supor que talvez pertença ao seu amigo poeta o papel que encontrei no mercado de casa amarela na noite de segunda feira. Ele estava ligeiramente amarrotado e manchado, não sei se de conhaque ou de lágrimas, mas continha um texto muito complexo que me pareceu (na minha santa ignorância) fruto de uma longa reflexão (quase uma prece), eu imagino que as manchas sejam de lágrimas já que ele disse na sua entrevista que aprende todos os dias à custa de sofrimentos que abençoa e que sempre se deve preferir o difícil pois tudo o que vive lá cabe, que a tristeza não é algo negativo para a alma, apenas pelejamos com ela como se lutássemos com uma corrente de que tivéssemos de suportar as ondas. Por ter ficado encantada com a entrevista resolvi lhe enviar o poema encontrado para que você o avalie e, se possível, devolva-o ao seu legítimo dono. Ah, sim, tinha no canto direito do poema a letra R... Obrigada por tudo e que você continue cultivando o seu jardim de palavras e azaléias:

QUE FARÁS TU, MEU DEUS, SE EU PERECER?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

R.

Anônimo disse...

Lindo, Renilde! Nem te conheço, mas desconfio que você estava sentada em uma mesa ao lado, durante o encontro no Mercado. Tava não? Abração. Magna.